Troca de cartas

Sob o título geral 'Duas visões autênticas da Revolução', debate entre o correspondente em Paris Gilles Lapouge e Ruy Mesquita foi publicado no 'Estado' em 21/6/1964

O Estado de S.Paulo,

28 Março 2014 | 14h30

Trechos da carta de Gilles Lapouge:

"(...) Minha opinião sobre a revolução brasileira é menos radical do que imagina. Em todo caso, ainda não está definida. Só o fato de você e sua família apoiarem esse movimento suspenderia meu julgamento, obrigar-me-ia a fazer perguntas a mim próprio até o cansaço. Aliás, se eu considerasse fascista o regime atual (mas nesse caso o Estado não o apoiaria), minha atitude seria diversa.

Entretanto, só aceito esse regime com sérias reservas. Seus objetivos e seus meios não me parecem claros. Não me refiro à forma. Seria ridículo tomar as coisas ao pé da letra, em situações extremas - e a do Brasil o era , sem dúvida. Portanto, não é o golpe de força que mais me impressiona. Aliás, preocupa-me mais a invalidação dos deputados da oposição, o silêncio que acolheu essa violação. O próprio De Gaulle, em 1958, não teria adotado procedimento desse tipo. Acima de tudo, as detenções elevam ao máximo minha inquietação: veja, através do tempo e do espaço, é uma fatalidade que ocorre em todos os regimes em que a justiça não reina. Chocam-se, cedo ou tarde, com os estudantes e os intelectuais.

"(...) Se a vitória depende da instituição de um regime policial, se os estudantes devem ser detidos e o espírito amordaçado, então não teria o comunismo obtido a vitória, impondo ao adversário a necessidade de usar, como por contaminação, seu semblante de medusa? Franco também combatia o comunismo.

Sei que o Brasil, graças a Deus, não tem essa fisionomia. Mas gostaria de convencer-me de que todos os brasileiros que chegaram ao poder sabem que a luta contra o comunismo, por ser mais dura que qualquer outra, exige maior rigor, maior pureza na escolha dos meios, que outro combate qualquer.

"Ora, verifico que a obsessão anticomunista realizou devastações extremas. Dia após dia, leio o Estado e em vão procuro uma voz discordante, uma restrição às iniciativas do poder. Em vão. Ouço apenas uma aprovação generalizada. Um jornal, cujos princípios sempre foram os da coragem e da firmeza, da lucidez, jamais hesitando em ter de desagradar, de chocar, se necessário, seus próprios amigos, teria sido vítima de um sortilégio, teria sido atingido por alguma hipnose, para que, de súbito, tudo o que emana do poder seja antecipadamente aprovado e tido como salutar? (...)"

Trechos da carta de Ruy Mesquita:

"(...) Respeito a sua opinião, tão bem definida na sua carta, embora não concorde com ela. O mesmo não posso dizer a respeito da posição da maioria dos jornalistas franceses. Releve, pois, quaisquer observações minhas mais veementes, que lhe possam parecer injustas para quem, como você, manifesta tanta simpatia pelo Brasil e pelo papel que aqui estamos desempenhando, nós do Estado, e todos aqueles que comungam dos nossos ideais. A possível veemência não será nunca dirigida contra você, mas sim contra aqueles que jamais deixaram de ser veementes na condenação injusta e até irresponsável deste movimento revolucionário, cujos objetivos e cujos meios tentarei explicar a um grande amigo do Brasil"

"(...) São exatamente 299 pessoas que tiveram seus direitos políticos suspensos por dez anos (não podem votar e nem ser votados). Entre essas, estão 5 governadores de Estado, 11 prefeitos municipais, 51 deputados federais e 2 senadores. Entre estes, figura o rei Farouk de nossa Revolução, esse sorridente Juscelino Kubitschek - cuja crônica ‘financeira’ a imprensa estrangeira insiste em desconhecer a fim de mais facilmente poder explorá-lo como mais um mártir do ‘progressismo internacional’ (!). Também se pode colocar na lista dos ‘mártires’ 46 oficiais das nossas Forças Armadas, que foram transferidos para a reserva, com todas as regalias proporcionadas habitualmente pelos nossos regulamentos militares. Nenhum destes, note bem, sofreu qualquer outra punição.

"(...) Para todos nós, para todos aqueles que fizeram a Revolução porque acreditam na necessidade imperiosa de uma revolução que liberte o Brasil, definitivamente, da sinistra aliança entre o comunismo e o gangsterismo nacionais, a exiguidade da lista dos punidos constituiu uma decepção e uma advertência. Verificamos, neste momento, que agindo como agiram, com uma parcimônia e uma benevolência que podem ser tudo, menos revolucionárias, os homens que subiram ao poder na crista da Revolução praticaram um erro que poderá ter as mais sérias consequências.

"(...) O importante, por enquanto, é que você saiba que ninguém foi fuzilado, nenhum livro foi queimado, nenhum professor perdeu até agora sua cátedra, nenhum jornal, nem mesmo os mais rigorosamente contrários à Revolução, tem sido censurado. Os próprios oficiais "progressistas" que tentaram assassinar esse terrível Carlos Lacerda, que tanto irrita a imprensa "progressista" francesa, não tiveram o destino dos oficiais franceses que tentaram assassinar o general De Gaulle. Não foram fuzilados, nem eles, Lapouge. Apenas passaram para a reserva (remunerada).

"(...) Quanto ao Estado, posso afirmar que já passou a criticar, e violentamente, a Revolução. Até ontem, não criticara porque não vira o que criticar. Nem mesmo as prisões e os interrogatórios. É que, tendo participado de todos os movimentos democráticos que se verificaram neste País, desde a fundação deste jornal, tendo sofrido nas prisões e no exílio as consequências de sua fidelidade aos princípios que apregoa, seus diretores, que jamais cogitaram de pedir a ninguém clemência pelas consequências de suas atitudes, continuam plenamente convencidos de que numa revolução, como numa guerra, os vencedores têm o dever moral de ditar a sorte dos vencidos (...)."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.