ROBSON FERNANDJES/AE - arquivo
O ex-comandante da PM, coronel Carlos Alberto de Camargo. ROBSON FERNANDJES/AE - arquivo

Três perguntas para Carlos Alberto Camargo

Ex-comandante da PM (1997-1999) dá sua opinião sobre participação de PMs da ativa em manifestações políticas

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

Carlos Alberto Camargo, comandante da PM entre 1997 e 1999, responde a três perguntas sobre a participação de PMs da ativa em manifestações políticas.

1. O PM pode participar do ato na Avenida Paulista?

Os policiais da reserva e os da ativa, que estiverem de folga e desarmados, têm de ter o direito de manifestar sua opinião. Se se pretende ter policiais que protejam e promovam a dignidade humana, é preciso respeitar a dignidade humana dos policiais.

2. Mas isso não pode levar a política a entrar no quartel, como no passado?

O fenômeno não era da corporação, mas da sociedade. A PM se profissionalizou. É impermeável à política partidária. Não permaneci (após 1999) no comando porque não quis me manifestar politicamente.

3. Como o sr. vê as manifestações do coronel Aleksander Lacerda, criticando o governador João Doria?

Como comandante eu faria uma sindicância sobre como isso afetou o comando dele. O Comando saberá tomar a decisão adequada. Há limite para tudo. O fato de defender que a dignidade humana do policial seja respeitada não significa um salvo-conduto para fazer o que quiser.

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Motim capixaba aproximou PMs de bolsonarismo

Greve da Polícia Militar do Espírito Santo foi marco da politização de reivindicações policiais nos Estados e contra governadores

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

Mulheres nas portas dos quartéis impediam a saída de viaturas. Os policiais se mantinham nas casernas, e políticos – a maioria deles reunidos em torno da candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência – espalhavam notícias sobre crimes nas redes sociais. Assim foi o motim da PM capixaba, em 2017, que durou 21 dias e se tornou um marco da ação do bolsonarismo nos quartéis, estimulando motins contra os governadores.

Especialistas ouvidos pelo Estadão contam como uma parte considerável dos PMs se tornou um público fiel a Bolsonaro. Inclusive com a adesão de coronéis para os atos de 7 de Setembro em São Paulo e em Brasília. Um deles – o coronel da PM paulista Aleksander Lacerda – acabou afastado de seu comando no interior após convocar em rede social os “amigos” para o ato.

“Fui o primeiro governador que enfrentou um motim da PM que combinava uma articulação paroquial de políticos locais com uma articulação nacional”, conta o então governador do Espírito Santo, Paulo Hartung. A investigação de mensagens de redes sociais mostrou envolvimento da bancada da bala na greve. “Isso não é bom nem para o País nem para os brasileiros, que pagam a conta, nem para a instituição Polícia Militar nem para os policiais. Todos perdem”, diz.

Desde então, os políticos vinculados ao presidente justificam o apoio aos movimentos dos PMs repetindo o que o então deputado Bolsonaro disse em 8 de fevereiro de 2012, no plenário da Câmara: “O chefe do Executivo não pode se prevalecer da disciplina do militar para subjugá-lo”. Bolsonaro tratava da greve dos PMs na Bahia, Estado então governado pelo hoje senador Jaques Wagner (PT).

“Qualquer membro de qualquer corporação sempre vai procurar melhorias salariais e de condições de trabalho. É natural. O que não é natural é que alguém armado se insurja contra a sociedade que o armou”, afirma Wagner. O senador diz que a manutenção da disciplina não implica falta de diálogo com a corporação. A greve na Bahia em 2012 durou 12 dias. A exemplo do Espírito Santo, lá também tropas do Exército foram usadas para garantir a ordem.

Entre 1997 e 2021, as Forças Armadas foram mobilizadas 26 vezes para lidar com greves de PMs. A maior delas atingiu a PM de Minas e foi causada pela decisão do então governador Eduardo Azeredo (PSDB) de conceder reajustes salariais de até 20% só para os oficiais. Seis dias após o anúncio, a greve estourou entre os praças. No fim, o governador deu aumento de 48% aos praças.

Sensível

Para coronéis entrevistados pelo Estadão, o que aconteceu em Minas seria o símbolo da “insensibilidade” de governadores com as condições de vida dos PMs. Seguiu-se uma onda de motins pelo Brasil, acompanhados pela presença de políticos que tentavam explorar um novo eleitorado: os cabos e soldados, que só passaram a ter o direito ao voto com a Constituição de 1988.

Para o tenente-coronel da reserva da PM paulista Paulo Ribeiro, os governos assistiram passivamente a PM “perdendo a esperança em razão de uma condição salarial desumana”. Esse ponto seria explorado por Bolsonaro. “Esse desespero suscita a vontade de ser resgatado por um ‘messias’. Apareceu um com discurso raso, sem lastro, que, nada fazendo pelos policiais militares, consegue seduzi-los por meio de palavras de onipotência.”

Para o cientista político Leandro Piquet, policiais que querem ser candidatos estão aproveitando o clima atual no País. “Houve erros das lideranças políticas, como as inovações malsucedidas feitas pela esquerda no Rio Grande do Sul.” Segundo ele, Bolsonaro encontrou esse filão de insatisfação e o está explorando. Para Piquet, apesar disso, o risco de ruptura envolvendo as PMs seria inexistente.

Representante da bancada da bala paulista, o deputado estadual Coronel Telhada (PP) afirma que os atos do 7/9 devem ser pacíficos: “Estarei lá com minha família”. Para ele, “o pessoal da ativa não vai comparecer, pois vai obedecer o comando”. “Sou opositor do Doria, mas jamais usarei a imagem da tropa para fazer oposição. Quem está fazendo isso será candidato no ano que vem.”

Em São Paulo, o histórico de como a PM lidou com movimentos grevistas ajuda a conter a tropa. A última greve da PM paulista foi em 1989. E resultou em 157 PMs demitidos. “Eu estava no Regimento (de Cavalaria), que agiu rapidamente e salvou o comando”, lembra o coronel Rui César Melo, que depois comandaria a PM. Ao contrário de outros Estados, nenhum PM foi anistiado. Para Hartung, as anistias são um estímulo a novos motins. Em 2011, a presidente Dilma Rousseff (PT) sancionou lei que anistiou PMs de 13 Estados e do Distrito Federal que se rebelaram entre 1997 e 2011. Entre os beneficiados estavam policiais de Minas e da Bahia.

Os motins das PMs

De 1997 até 2021, as Forças Armadas foram convocadas para fazer 26 operações de Garantia de Lei e Ordem (GLO) em razão de greves das polícias militares

1997 - Primeira onda

O Exército fez cinco operações em razão de oito greves de PMs - uma delas atendeu a quatro Estados do Nordeste. Em Minas, a PM se rebelou contra a política do governador Eduardo Azeredo.

2001 - Segunda onda

O Exército registrou o segundo maior número de greves de PMs da história (5), afetando três Estados do Nordeste, Tocantins e o Distrito Federal.

2017 - Bolsonarismo

O Espírito Santo assiste a um novo tipo de mobilização das PMs. Além de se aquartelar, eles contam com o apoio de suas mulheres e políticos, como o deputado Jair Bolsonaro e seus aliados.

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Três perguntas para Rui César Melo

Ex-comandante da PM (1999-2002) dá sua opinião sobre a participação de PMs da ativa em manifestações políticas

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

Rui César Melo, comandante da PM entre 1999 e 2002, responde a três perguntas sobre a participação de PMs da ativa em manifestações políticas.

1. PM da ativa pode participar da manifestação política?

PM da ativa não pode participar. Não importa se está de serviço ou não. PM da ativa não pode se manifestar politicamente. Se cada um começar a se manifestar politicamente, para onde vão a disciplina e o respeito à hierarquia e aos Poderes Constituídos?

2. Quando o sr. foi comandante, PMs de outros Estados passaram por motins. O que levava a isso?

Quando entrei na polícia cabos e soldados não votavam. Isso mudou e esse pessoal virou massa de interesse político. Muita gente explora isso, quando não devia. Os governadores têm responsabilidade enorme. Tanto podem reforçar a hierarquia e a disciplina como torná-las frouxas.

3. Como o sr. viu as manifestações do coronel Aleksander Lacerda?

Isso muito é ruim. Que semente está sendo plantada? Que fruto ela vai dar? Vai sobrar para alguém pôr tudo em ordem. Polícia nenhuma funciona sem disciplina.

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