Três delegados do caso Dantas deixam a Operação Satiagraha

PF confirmou apenas afastamento de Protógenes e alegou que a saída foi 'a pedido' do próprio delegado

Vannildo Mendes, de O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2008 | 19h16

Atacado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, e desprestigiado pelos superiores, que o acusam de excesso de individualismo, o delegado da Polícia Federal (PF) Protógenes Queiroz não resistiu às pressões e afastou-se do comando da Operação Satiagraha. A saída dele do caso foi acertada em uma reunião, na segunda à noite, na Superintendência da Polícia Federal (PF) em São Paulo, entre ele, o delegado Jáber Saadi - seu superior imediato - e o diretor da Divisão de Combate ao Crime Organizado, Roberto Troncon Filho, emissário da Direção-Geral da PF, situada em Brasília.     Os outros dois delegados que trabalhavam com Protógenes na operação,  Karina Marakemi Souza e Carlos Eduardo Pellegrini, também devem deixar a investigação a partir da próxima segunda, segundo informações do Jornal Nacional, da TV Globo. Ainda segundo o Jornal Nacional , os delegados divergem da PF nas explicações para a saída. Os primeiros teriam dito que foram afastados pela direção da PF, e não que saíram por vontade própria.   Veja também: Mendes diz que Tarso não tem 'competência para julgar' sua decisão Senado vai barrar pedido de impeachment de Mendes Impeachment não tem cabimento, diz presidente do STF Presidente do STF justifica libertação de Dantas  Opine sobre nova decisão que dá liberdade a Dantas  Entenda como funcionava o esquema criminoso  Veja as principais operações da PF desde 2003  As prisões de Daniel Dantas   A direção da PF confirmou o afastamento de Protógenes, mas alegou que a saída foi "a pedido" do próprio delegado, e não uma punição em decorrência da sua suposta insubordinação. O substituto será designado provavelmente nesta quinta. Por meio da assessoria, a PF informou que desconhece a saída dos dois auxiliares de Protógenes - Karina e Pellegrini. A PF negou que haja uma rebelião na equipe que participou da Operação Satiagraha, responsável pela prisão do banqueiro  Daniel Dantas, do investidor Naji Nahas e do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta.   Segundo a assessoria da PF, Protógenes alegou na reunião, que faz, desde março, o Curso Superior de Polícia a distância - e que, na próxima segunda-feira, começam as aulas presenciais, por 30 dias. De acordo com essa versão, Protógenes disse a Troncon que não deseja voltar a atuar no caso após concluir o curso e pediu que lhe sejam atribuídas novas funções.   Nos bastidores, porém, o delegado tem-se queixado de que vem sofrendo boicote sistemático na instituição desde que o atual diretor-geral, Luiz Fernando Corrêa, tomou posse no cargo, em setembro passado, no lugar do delegado Paulo Lacerda, que foi deslocado para a Agência Brasileira de Inteligência (Abin).   Acusado de não ter dado satisfações da operação aos superiores, de agir com excesso de individualismo e de recorrer irregularmente ao auxílio da Abin, entre outros "desvios", Protógenes é alvo de uma sindicância administrativa e uma representação na Corregedoria da PF, que lhe podem render desde advertência a remoção para um lugar remoto ou mesmo um processo de demissão.   Sem comando   As divergências em relação à atuação do delegado são notórias e inconciliáveis. Na semana passada, Corrêa confidenciou ao presidente do STF, o maior crítico da operação Satiagraha, que Protógenes ignorou o comando da corporação e recorreu à Abin, em vez dos colegas, compartilhando com arapongas dados da investigação que estavam sob segredo de Justiça.   A direção da Abin confirmou, por meio de nota, que colaborou "sim" com a investigação, por requisição do delegado e que esse é um procedimento de praxe no órgão. "Na condição de órgão central do Sistema Brasileiro de Inteligência, a Abin pode e deve operar em cooperação com os demais órgãos públicos em ações que não lhe sejam vedadas", explica a nota. "Para tanto, caso solicitada, estará sempre à disposição dos órgãos parceiros, para auxiliar em trabalhos de sua atribuição, como ocorre em algumas grandes investigações, que, não raro, contam com a participação de integrantes de vários órgãos da Administração Pública Federal", completa.   Mas o delegado Lacerda aproveitou a ocasião para negar que esteja interferindo na PF e comandando à distância o órgão que dirigiu no primeiro governo Lula. "Desde que deixou a Direção (da PF), em agosto de 2007, o atual Diretor-Geral da Abin dedica-se exclusivamente a sua função", enfatizou. Lacerda, porém, conforme apurou o Estado, queria desde o ano passado deflagrar a Operação, quando ainda estava no cargo, mas foi impedido pelo ministro Tarso Genro. Protógenes levou a tarefa adiante e contou, agora, com a colaboração do antigo chefe.     Perfil   O delegado já havia atuado em outros escândalos de grande repercussão antes de comandar a operação Satiagraha, que prendeu, além de Dantas,  o empresário  Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta.   As investigações do caso Corinthians/MSI , por evasão de divisas e lavagem de dinheiro, estiveram sob coordenação de Protógenes Queiroz, em parceria com a Promotoria de São Paulo. Os envolvidos nas fraudes da arbitragem do futebol  Brasileiro, em 2005, foram investigados por ele e pelos promotores Roberto Porto e José Reinaldo Guimarães Carneiro, do Gaeco.    O delegado também presidiu o inquérito sobre remessas para paraísos fiscais,  que indicavam movimentações de cerca de US$ 5 milhões, das quais o ex-prefeito Pitta seria o principal beneficiário. O ex-prefeito Paulo Maluf (PP) também foi investigado no mesmo inquérito.   Relatório elaborado por Protógenes fechou inquérito sobre desvio de dinheiro da Prefeitura de São Paulo, concluindo que "os cofres públicos foram pilhados" durante os governos de Maluf (1993-96) e Pitta (1997-2000).   Ele também participou do escândalo que prendeu o comerciante Law Kin Chong, considerado o maior contrabandista do País. Kin Chong estava disposto a pagar US$ 1,5 milhão ao presidente da CPI, deputado Luiz Antônio Medeiros (PL-SP) para obter favores, mas suas conversas foram registradas.   Com base nas gravações nas mãos, o deputado procurou o delegado federal Protógenes Queiroz e o procurador da República Pedro Barbosa Pereira Neto. Eles relataram o caso ao juiz federal Hélio Egydio, que decretou nas prisões preventivas de Law e do advogado.   Texto ampliado às 20h41  

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