‘Tornei-me o caso mais evidente de abuso do poder'

Raw relatou as perseguições na Medicina; a seguir, trechos do depoimento

Isaías Raw*, O Estado de S.Paulo

23 Março 2018 | 05h00

"Entrei para a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) com a meta de me tornar um pesquisador. Com a aposentadoria do Jayme Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque, professor da cátedra de Chimica Physiologica, apresentei-me como candidato à cátedra. Contava a meu favor os anos de pesquisas e aulas ministradas no Departamento, de maneira que não se apresentaram outros candidatos. Fui aprovado pela maioria dos professores mais destacados da faculdade, porém, minha candidatura foi recusada por alguns dos professores que representavam os mais conservadores.

Com a instalação do regime de exceção, eu morava no Alto de Pinheiros, naquela época uma área desabitada. Às 23 horas, quando voltava com minha esposa e filhos, de visita à minha sogra, em fase final de câncer, fui preso por uma dúzia de carros da polícia, com policiais armados e levado para o quartel onde permaneci em condições precárias: a cela sem porta, exposto à baixa temperatura, no período do inverno, alimentado por um prato e colher passado por debaixo da grade.

Fui acusado de ser um perigoso líder comunista que reunia sua célula em Washington - onde ia para reuniões da Organização dos Estados Americanos (OEA) e National Science Foundation, para discutir projetos de inovação do ensino de ciências -, uma acusação ridícula. O que não tinha sido previsto é que haveria um longo telegrama enviado ao Marechal Castelo Branco, assinado por vários prêmios Nobel, pedindo que eu fosse imediatamente libertado. Em poucos dias, fui libertado e me tornei o caso mais evidente de abuso do poder de alguns "notáveis" professores da Faculdade de Medicina que usaram a ignorância de coronéis escalados para eliminar os subversivos.

Tive de ir à Congregação da faculdade, como professor substituto, defender-me e mostrar o paradoxo de ter que explicar para minhas filhas que eu não era um perigoso subversivo e quem estava errado foram os oficiais que me prenderam. Como compatibilizar, na educação infantil, que um pai pode ser honesto e a polícia e o Exército errados?  Foi levada à Congregação a proposta de protelar o concurso até que eu provasse que não era comunista. A banca escolhida não foi convocada. Finalmente, quando os membros da Banca, vindos de outras Universidades, chegaram no Hotel, foram abordados por um professor da Faculdade de Medicina para que não aprovassem um judeu. Tive mais sorte que o Prof. Rocha e Silva, descobridor da bradicinina e merecedor de um prêmio Nobel, candidato à cátedra de farmacologia, que foi preterido.

Fui punido pelo AI-5, vedado meu acesso às atividades e recursos públicos nas áreas de ensino de ciência e da medicina, de pesquisas biomédicas e o Curso Experimental de Medicina foi fechado. Imediatamente decidi sair do país. A Unesco me ofereceu a atuação na inovação do ensino de Ciências em Israel. Por nove meses fiquei distante da família. Depois de um ano e meio, decidi procurar outro emprego e fui contratado pelo Massachussetts Institute of Technologypara o Centro de Ensino de Ciências, e lá permaneci por cinco anos, desenvolvendo um projeto de ensino de ciências baseado na amostra de alimentos do estudante, adotado em vários Community Colleges.

Fui convidado para um cargo no Departamento de Nutrição da Escola de Saúde Pública de Harvard, onde concluí um livro para curso médico que integra o ensino básico com noções clínicas. Evidentemente, havia um contraste entre minha dedicação pela coisa pública - muitas vezes abrindo mão da remuneração -, e aqueles funcionários que, incomodados pelo meu razoável sucesso, exigiram minha punição lançando mão da força do Exército.  A minha natureza inquieta de sempre buscar uma iniciativa de interesse do país e da população incomodou a inércia daqueles conservadores. Exemplo foram as palavras de um professor: "afinal, por que a Fundação Rockefeller nunca me ofereceu recursos se eu não sou comunista? " e continuou "nós o mandamos embora e ele vai para Universidades melhores!". São palavras que jamais esqueci e mostram as dificuldades que este país interpõe à iniciativa, à inovação e à experimentação para proteger a mediocridade - autoproteção -, impedindo o progresso. Ao contrário de outros colegas, não fui submetido à tortura, mas à pressão continua de, como subversivo, não aceitar jamais o status quo. Voltei acreditando no Brasil. Em 1952, quando era bolsista em Nova York, o Presidente da Merck apareceu na capa do Times afirmando "Medicine is for people not for profit". Foi banido da empresa, como serei mais uma vez por ter uma fantasia de trabalhar pelas necessidades sociais."

*Professor emérito da USP e foi professor visitante da Universidade Hebraica de Jerusalém, do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e da Harvard. Também dirigiu o Instituto Butantan

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