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Eliane Cantanhêde
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Travessia no deserto

Ao reduzir o superávit fiscal para 0,15% do PIB e anunciar cortes de R$ 8,6 bilhões no já tão retalhado Orçamento, o governo da presidente Dilma Rousseff simplesmente jogou a toalha. Foi o reconhecimento cristalino de que Dilma, Joaquim Levy e Nelson Barbosa não conseguem ajustar as contas, muito menos estancar a crise.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

24 de julho de 2015 | 05h00

Por mais que a presidente diga que 2015 é um ano de “travessia”, a dura realidade é que este é um ano de recuos e de trancos para a correção, ou tentativa de correção, de todos os erros crassos cometidos no primeiro mandato, pautado por uma visão embaçada e antiga sobre o que é nacionalismo e desenvolvimento.

O resultado é recessão, quando as empresas produzem menos, o comércio vende menos, os serviços operam menos e todos pagam menos impostos. E o governo, que gastou muito, continua gastando muito. Como em qualquer lar, se você gastou mais do que devia, endividou-se e não ganha o suficiente para arcar com a despesa... dá nisso. O governo não fecha as contas, não consegue mais economizar para amortizar suas dívidas, é obrigado a rever a meta fiscal e a “cortar na carne”, como repetiu Levy na entrevista do anúncio.

Se já cortara R$ 70 bilhões no Orçamento, uma das grandes dificuldades agora é definir onde ainda há o que cortar. Gordura não há mais, enxugar o número de ministérios é fora de cogitação e o que sobra é uma escolha de Sofia. Educação ou Saúde? Defesa ou Desenvolvimento? Relações Exteriores ou Agricultura? Aparentemente, poucos passarão ilesos, tanto que o governo quer maior flexibilização para mexer até nos gastos, digamos, imexíveis.

E aí entra a questão mais delicada. Dilma, Levy e Barbosa, aparentemente, esqueceram de um detalhe no anúncio da mudança da meta fiscal e dos cortes: combinar com os adversários. Essas são medidas que o governo anuncia e o Congresso vota. E vai votar num clima político e econômico péssimo, com a Lava Jato correndo solta e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, voltando do recesso de tacape em punho.

Enquanto a oposição aponta o dedo para culpar Dilma por mais esse jeitinho para fechar as contas públicas sem fechá-las, o governo reage lembrando a parcela bem razoável de responsabilidade do Congresso e da oposição nesse latifúndio de culpas. Os dois lados estão cobertos de razão: Dilma criou o problema, o Congresso dificultou a solução.

A crise começou com o desconhecimento, a ideologia antiquada e a empáfia de Dilma, mas deputados e senadores complicaram ao máximo as votações do ajuste fiscal e foram reduzindo, uma a uma, as previsões de receitas com as mexidas previdenciários e trabalhistas e simplesmente não votaram nem a redução da desoneração fiscal das empresas nem o repatriamento de recursos do exterior. Ou seja: a arrecadação continuou caindo, mas a receita não aumentou tanto quanto nos planos de Levy. E tome crise!

Dilma empurrou o conteúdo econômico para Levy e Barbosa e o conteúdo político para o vice Michel Temer, enquanto trata de cuidar da própria forma. Não apenas da forma física, com o regime da moda e as pedaladas, mas também da forma de se comunicar com uma opinião pública que lhe é hostil. Assim, ela foi aos EUA, à Rússia e à Itália, sediou reunião do Mercosul em Brasília, tem ao menos uma viagem por semana aos Estados, concede uma entrevista daqui outra dali. Mas não há marqueteiro que dê jeito em crises, não há propaganda que encha barriga, nem mandioca que gere emprego.

O primeiro semestre foi um desastre? Pois o segundo não será melhor. Como diz o ditado, nunca está tão ruim que não possa piorar.

Recordar é viver. Os bombeiros estão em ação, mas não custa lembrar que, em entrevista ao Estado em 10 de março, sua primeira exclusiva sobre a crise, o ex-presidente Fernando Henrique disse com todas as letras (acentuadas pela mágoa) que não faria acordos nem tinha nada a tratar com seu sucessor Lula: “Ele quer é acusar. Ele é o bom, nós somos os maus. Então, não há como dialogar com quem não quer dialogar”.

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