Tratamento com remédios pode ser melhor para os cardíacos

O que é melhor para o paciente com problemas cardíacos: a indicação de uma cirurgia, de uma angioplastia ou simplesmente a prescrição de medicamentos? Resultados de um estudo do Instituto do Coração demonstram que o tratamento com remédios sai ganhando quando se avalia a relação custo-benefício. "Cada caso é um caso, mas o ideal é que médicos lembrem do resultado do trabalho antes de prescrever de início um tratamento mais agressivo", afirma o coordenador do estudo, o cardiologista Whady Hueb. Iniciada em 2000, a pesquisa vai acompanhar por cinco anos 1.100 pacientes. Os dados divulgados comparam a evolução dos doentes ao longo de um ano de tratamento. A mortalidade foi a mesma nos três grupos. Já a ocorrência de novos enfartes ocorreu mais entre pessoas que fizeram a angioplastia. Pesquisadores analisaram também o impacto do tratamento na qualidade de vida dos pacientes. Nesse aspecto, o grupo que fez a cirurgia apresentou melhor desempenho. "Os demais métodos tiveram resultados semelhantes", conta o professor Desidério Favaroto, que conduziu essa etapa do estudo. Os pacientes operados têm menos queixas de problemas físicos provocados pela doença ou limitações de suas atividades. "Consideram, enfim, que seu problema está resolvido", diz Favarato. Hueb tem uma justificativa para a grande diferença nos resultados da qualidade de vida. "Uma coisa é dizer para o paciente que ele tem uma doença grave, mas que pode ser contornada com uma cirurgia. Ou dizer que ele tem um problema leve, que alguns medicamentos resolvem", diz. No caso da angioplastia, o paciente descobre ter um problema de gravidade mediana. Mas que pode retornar, em 30% dos casos. "É como se ele tivesse permanentemente uma espada sobre a cabeça. Qualquer diferença na dor no peito, ele fica preocupado." Mesmo com as diferenças na qualidade de vida, Hueb afirma: "Por enquanto, o tratamento com medicamentos tem um desempenho mais favorável." Batizado de Mass, sigla em inglês para estudo sobre angioplastia, drogas e cirurgia, o trabalho do Incor avalia pacientes com problemas coronários semelhantes: pelo menos duas artérias obstruídas, angina (dor no peito) constante e capacidade preservada do ventrículo. Nos Estados Unidos e na Europa, outros cinco estudos que comparam a cirurgia e a angioplastia estão em andamento. Escolha - Hueb afirma que, nos casos semelhantes aos avaliados no trabalho, o tratamento com remédios pode ser considerado como primeira escolha. Mas, acrescenta o médico, atualmente não é isso o que ocorre. Muitos profissionais optam por medidas mais agressivas antes de tentar os remédios. O coordenador do trabalho lembra que os problemas muitas vezes continuam. Em 30% dos pacientes que fazem angioplastia é preciso fazer novas intervenções. No caso da cirurgia, ela abre um caminho para a circulação. Mas, também aí, novas obstruções podem ocorrer. "É preciso aplicar as técnicas de maneira adequada e sobretudo controlar os fatores que provocam essas obstruções, como colesterol e diabete." Em todos os grupos avaliados, os pacientes apresentam níveis de bem-estar emocional mais baixos do que a população em geral. Outro estudo feito no Incor, conduzido pelo cardiologista Maurício Wajngarten, revelou que o prognóstico de pacientes enfartados e que têm depressão é pior do que os demais. "Vemos que muitos chegam deprimidos antes mesmo da cirurgia. O ideal é corrigir o problema, para melhorar a qualidade de vida e da adesão ao tratamento", diz o cardiologista.

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