Transporte deve priorizar o coletivo ao particular

Área tem a pior avaliação, ao lado da saúde, nas três últimas gestões; Poluição causada por frota de 6,3 milhões de veículos mata mais de uma dezena por dia; Questão virou tema de saúde pública

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

29 de setembro de 2008 | 00h00

Ao lado da saúde, a área dos transportes é a mais crítica da administração municipal - nas pesquisas de opinião, as duas tiveram a pior avaliação dos eleitores nas últimas três gestões, assim como na mais recente pesquisa do Ibope, encomendada pelo Movimento Nossa São Paulo e divulgada na semana passada. Em uma metrópole que mata mais de 4 pessoas por dia em colisões e atropelamentos e outras 12 em conseqüência direta da poluição do ar causada pelos 6,3 milhões de veículos em circulação, as duas áreas estão interligadas. O trânsito atingiu o limite do suportável e se tornou um problema de saúde pública. Respirar em São Paulo aumenta em 20% a chance de ter câncer de pulmão e em 30% de sofrer um ataque cardíaco. Circular na cidade mata mais do que aids e tuberculose. "Na década de 1970, São Paulo tinha 15 mil quilômetros de vias e 850 mil veículos, hoje quase o mesmo em vias - 17 mil quilômetros - e uma frota 700% maior. Qual é a prioridade? Transporte público, não tem outra", diz o presidente da Comissão de Transportes da Ordem dos Advogados do Brasil, Ciro Vidal, a Prefeitura pode e deve contribuir com o Metrô e, principalmente, o Rodoanel, que tiraria das ruas os cerca de 700 mil caminhões que atravessam São Paulo diariamente. Entre as medidas urgentes, os especialistas apontam reorganizar os corredores de ônibus, racionalizar as linhas e melhorar a qualidade dos serviços exigindo mais das concessionárias. "Ao final deste ano, a Prefeitura terá repassando R$ 500 milhões em subsídios às empresas de ônibus, mas elas precisam responder com a renovação mais ágil da frota, com veículos articulados nos corredores", diz o professor Jaime Waisman, do Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Ailton Brasiliense Pires, presidente da Associação Nacional de Transporte Público (ANTP), defende a conclusão dos cerca de dez corredores de ônibus previstos."Todos eles falam em metrô e grandes avenidas porque isso tem enorme apelo eleitoral. Mas eu diria que a Prefeitura tem outras prioridades. Não deve sacrificar seus investimentos em ônibus e na zeladoria da cidade, que afeta enormemente a circulação", diz Waisman.O novo prefeito também não deve descuidar de suas funções previstas no Código de Trânsito: educação, planejamento e fiscalização do trânsito, hoje precários. Em parte, segundo Vidal, porque o dinheiro arrecadado com multas, neste ano em torno de R$ 450 milhões, não está sendo investido nessas ações, como determina o artigo 320 do Código de Trânsito.Entre as prioridades, segundo os especialistas, estão a modernização da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), instalação de semáforos inteligentes e recuperação de vias esburacadas e mal sinalizadas. "A CET está superada, precisa de mais carros, e motos, para ter mais agilidade, melhorar a fiscalização eletrônica na cidade. Além disso, tem 4 mil funcionários, mas só a metade disso nas ruas. O resto é administrativo", diz Waisman. Os quase 400 radares instalados, hoje, não cobrem 7% da cidade.Ruas sem buracos e mais bem sinalizadas poderiam ter evitado 14% das mortes no trânsito, em 2007, segundo levantamento da CET. "O foco das obras viárias deve estar não na construção de mais vias, mas em ajustes que eliminem os pontos de estrangulamento do trânsito", diz Waisman. "Vias novas e maiores não adiantam muito, pois sempre acabam numa rua estreita, já que não é mais possível abrir avenidas de ponta a ponta na cidade. São Paulo é metrópole pronta, com mais de 400 anos."Na opinião dos especialistas, é preciso criar mais medidas que desestimulem o uso do carro particular. Limitar o estacionamento nas ruas é uma delas. Mas, para isso, é preciso dar alternativas. As novas garagens subterrâneas, promessa recorrente em várias gestões, ainda não saíram do papel. "É como o pedágio urbano. Antes de pensar em implementá-lo, precisamos fazer a lição de casa, ou seja: transporte público de qualidade."As ciclovias são outra medida. São Paulo tem quase três vezes a população de Paris, mas bem menos de 10% de vias para a circulação de bicicletas. Waisman, alerta, no entanto, que elas são apenas parte da solução para o trânsito de São Paulo. "Não podemos ter a ilusão de que resolverão o problema. São Paulo tem topografia ruim e as distâncias são grandes. Deve-se, sim, estimular o uso de bicicleta no trajeto entre as casas e os terminais de ônibus, metrô e trem", diz.

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