Transplantes: protocolo comprova denúncias de Tabak

Um livro de protocolo do InstitutoNacional de Câncer (Inca) registra que, em 23 de outubro do ano passado, o diretor-geral da unidade, José Gomes Temporão, recebeu o relatório de uma visita feita ao Real Hospital Português de Recife três dias antes. No documento, o diretor demissionário do Centro de Transplante de Medula Óssea (Cemo), o hematologista Daniel Tabak, relata um dos casos de ingerência política na fila de transplantes.A comprovação da entrega do relatório contradiz as declarações dadas por Temporão nos últimos dois dias, quando afirmoudesconhecimento prévio das irregularidades apontadas publicamente por Tabak esta semana. No documento, o ministro daSaúde, Humberto Costa, é citado como o contato que viabilizou o favorecimento de um paciente de Recife.?O doutor Temporão deve estar sofrendo de uma crise aguda de amnésia. Ele sabia do pedido do doutor Diogo Mendes (coordenador do Sistema Nacional de Transplantes, que solicitou ocredenciamento do hospital de Recife, feito em apenas 24 horas, apesar do parecer contrário de Tabak) desde outubro. Ele mefalou que discutiria a questão em um encontro com o ministro (da Saúde)?, disse hoje Tabak, ressaltando que o assunto foi tratado também em reuniões.Segundo Temporão, a comunicação formal do caso foi feita pelo hematologista apenas na segunda-feira. ?Antes, ele haviaexternado insatisfação. Disse que estaria sofrendo pressão política, mas não disse o que, como e onde isso tinha ocorrido?,explicou ontem o diretor do Inca, unidade que concentra o Cemo e atua como o braço técnico do Ministério da Saúde na área detransplante de medula. Perguntado sobre o relatório protocolado no dia 23 de outubro, Temporão confirmou que o documentochegou até ele. ?Recebi e encaminhei ao ministério. Mas não valorizei (a informação), porque ele disse o que alguém disse (que o ministroHumberto Costa havia intercedido por um paciente). Apenas externa uma posição, que poderia estar correta ou incorreta. Nãocabia a mim julgar, até porque o Inca não tem o poder de credenciar ou não um hospital. Isso cabe ao ministério?, argumentou o diretor-geral, ressaltando que a denúncia de Tabak é um caso isolado e que o Inca está funcionando normalmente. Tabak rebateu a suspeita levantada pelo ministério sobre o motivo de seu pedido de demissão. Na terça-feira, foi revelado que ele é sócio em três clínicas de oncologia e transplante de medula e estava descontente com a determinação para se afastar das empresas. ?Isso é uma tentativa de desviar do foco da questão?, afirmou o hematologista. E disse estranhar o fato de a ordem constar de uma portaria da Casa Civil da Presidência da República, de junho do ano passado, mas seu afastamento ter sidopedido apenas em novembro.?A portaria diz que os servidores públicos em cargos comissionados não podem exercer a função de sócio-gerente. Se houvesse preocupação com um conflito de interesses públicos e privados, seria pedido o afastamento total?, observou, enfatizando ser difícil encontrar pessoas para exercer cargos de chefia no setor público que não desempenhem também uma atividade na iniciativaprivada. ?Nunca vi incompatibilidade entre as duas funções. Nunca favoreci meus pacientes em detrimento de outros?, garantiu,ressaltando que já se desligou de uma das três empresas há mais de um ano, a Stencil Transplantes de Medula Óssea Ltda, eque, em janeiro, encaminhou a documentação para solicitar o afastamento do cargo de sócio-gerente das clínicas. Apontada pelo deputado Antonio Serafim Venzon (PSDB-SC) como a pessoa que procurou, por indicação do ministério, parafavorecer uma paciente de sua cidade, a chefe do Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome),Iracema Salatiel, disse hoje, por meio de um secretário, que não falaria sobre o assunto. Segundo Tabak, ela tem feito um ótimo trabalho desde que assumiu o cargo, no ano passado, e apenas atendeu solicitações superiores. ?O pedido de um vice-presidente da República é como uma ordem?, afirmou, em referência a outro caso de ingerência denunciado. Nenhumrepresentante do ministério respondeu à solicitação de informações feita pelo Estado até o fechamento da edição.

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