'Transferência de renda não impede colapso da economia na estiagem'

Professor defende medidas como construção de cisternas e criação de incentivos fiscais

Bruno Boghossian, de O Estado de S. Paulo,

07 Abril 2013 | 11h12

Programas de transferência de renda criados pelo governo federal e pelos Estados ajudam a reduzir o impacto da seca no cotidiano da população rural do Nordeste, mas não impedem que a economia entre "em colapso" em períodos de estiagem, de acordo com o professor João Policarpo Lima, do Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

O professor aponta que projetos como a aposentadoria rural, o Bolsa Família e o Bolsa Estiagem dão às famílias do campo uma alternativa à produção agrícola quando as condições climáticas são desfavoráveis, mas alerta que a quebra de safras e a morte de rebanhos provocam efeitos duradouros na economia local.

"A população fora dessa cobertura fica desempregada ou perde suas outras fontes de renda", pondera Policarpo Lima. "O que penso é que essa situação de hoje é menos ruim do que era há 40 anos, quando não havia programas de transferência de renda."

Para o professor, medidas estruturais são mais eficientes para garantir uma economia mais diversificada e menos vulnerável às secas, como a construção de cisternas e adutoras, e a criação de incentivos fiscais para desenvolver a atividade industrial.

O governo conseguiu reduzir o impacto da seca sobre a população do semiárido nas últimas décadas?

O que mudou de forma mais significativa é que hoje há uma população que tem um nível mínimo de renda, que garante uma sobrevivência menos dependente das condições climáticas e que desenvolveu uma série de atividades comerciais. Hoje há alguma renda que não é afetada pela seca. Também houve uma certa acumulação de infraestrutura - há áreas em que é possível fazer irrigação, o que permite a produção em períodos de estiagem e aumenta o nível de renda. Isso torna algumas áreas do semiárido hoje menos frágeis, mas ainda há muitas dificuldades.

Que papel tiveram os programas de transferência de renda para a Região Nordeste?

A população pobre do semiárido fica menos vulnerável às secas, mas isso não significa que a população como um todo esteja imune, pois a economia entra em colapso e a população fora dessa cobertura fica desempregada ou perde suas outras fontes de renda. O que penso é que essa situação de hoje é menos ruim do que era há 40 anos, quando não havia programas de transferência de renda e apenas as frentes de emergência eram acionadas, de forma clientelística.

Na prática, o que mudou na vida das famílias mais pobres?

Nesses casos, há uma renda mínima e as pessoas podem comprar alimentos que não são produzidos no semiárido. Antes, a população dependia da produção local e não tinham renda para comprar comida. Hoje, é possível se alimentar mesmo com a seca.

Os governos não investiram suficientemente em infraestrutura?

Há algumas coisas que poderiam estar mais avançadas. Os programas de construção de adutoras poderiam ter sido dinamizados há mais tempo. As construções de cisternas nas pequenas propriedades rurais são obras de pequena monta que fazem diferença. Esse programa poderia estar muito dinamizado, mas sofre com problemas burocráticos.

Por que é tão difícil criar uma economia mais diversificada nessa região?

A economia do semiárido não é muito competitiva para se levar uma indústria. É uma localização mais difícil, mais distante, então o custo de produção é mais alto e as empresas têm mais dificuldades de ir para lá. Onde elas chegam, a economia fica mais estruturada e a família não precisa mais depender da atividade agrícola. O problema é que a agricultura é vulnerável. Quando não se depende só da agricultura, a economia melhora.

Há algum modo mais eficaz de evitar a dependência do clima?

A maneira possível seria desenvolver atividades não agrícolas ou desenvolver a irrigação, o que faz com que a atividade agrícola seja mais estável.

O sr. nasceu no semiárido. Como a região em o sr. nasceu superou a seca?

Eu nasci na cidade de Rodelas, na Bahia, na divisa com Pernambuco. Nessa cidade, houve uma mudança surpreendente porque lá foi feita uma barragem e a cidade foi inundada. Foi criada uma estrutura de produção de coco e isso dinamizou a economia da região.

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