TRAGÉDIAS AÉREAS MARCARAM A POLÍTICA BRASILEIRA

Acidente de helicóptero matou o ex-presidente da Câmara, Ulysses Guimarães; Castelo Branco morreu após queda de bimotor

O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2014 | 00h06

 A queda do Cessna Citation 560 XL em que viajava Eduardo Campos, na quarta de manhã, foi a primeira tragédia a vitimar um candidato à Presidência da República - mas outros acidentes aéreos já interromperam, na política brasileira, as vidas de dois ex-presidentes da República - o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco e Nereu Ramos -, dois governadores e vários parlamentares, entre os quais o ex-presidente da Câmara e da Assembleia Constituinte Ulysses Guimarães (PMDB-SP).

Por seu papel decisivo na criação da Constituição de 1988 e pelo enorme prestígio político de que desfrutava, Ulysses deixou um grande vazio político ao desaparecer no fundo do mar perto de Angra dos Reis, no litoral fluminense, em 12 de outubro de 1992.

Nem ele nem o helicóptero Esquilo HB 350 B em que viajava jamais foram localizados. Com o "Senhor Diretas", com Ulysses era chamado por ter liderado a campanha das Diretas-Já, em 1983 e 1984, estavam, além do piloto, sua mulher, Mora, seu amigo Severo Gomes, que havia sido ministro da Indústria e Comércio do governo José Sarney (1985-1989) e a mulher de Severo, Anna Maria.

Primeiro militar a assumir o governo após o golpe de 1964, o marechal Castelo Branco morreu em 18 de julho de 1967, quatro meses após deixar a Presidência. O avião em que viajava para Fortaleza, um Piper Azteca PA23, foi atingido na cauda por um caça T-33 da Força Aérea Brasileira, em condições que o inquérito militar não explicou satisfatoriamente. O avião caiu perto da capital cearense, deixando apenas um sobrevivente.

Outro político a ocupar a Presidência da República, embora interinamente, e que morreu em acidente aéreo - três anos depois de deixar o Palácio do Catete, no Rio - foi Nereu Ramos. O avião em que viajava caiu pouco antes de pousar em São José dos Pinhais, no Paraná. Ele chegou a ser levado a um hospital, e morreu dias depois, em 16 de junho de 1958 - com ele estava o governador de Santa Catarina Jorge Lacerda. No final de 1955, Nereu Ramos foi uma solução encontrada para dar fim a um conturbado período de crises que se arrastavam desde a morte, em agosto de 1954, do presidente Getúlio Vargas. Ramos era vice-presidente do Senado quando alguns grupos se movimentavam para impedir a posse do presidente eleito, Juscelino Kubitschek, prevista para o início de 1956. O vice de Getúlio, Café Filho, e depois dele o presidente da Câmara, Carlos Luz, foram afastados do cargo e Nereu Ramos era o seguinte na linha sucessória. Interino durante três meses, foi ele quem deu posse a JK.

Clériston Andrade, candidato ao governo da Bahia nas eleições de 1982, morreu um mês e meio antes das eleições, também devido à queda de um helicóptero. Ele tinha sido prefeito de Salvador entre 1970 e 1975. Dias depois de sua morte, o poderoso senador Antonio Carlos Magalhães indicou para sua vaga um político inexpressivo, João Durval. O prestígio de ACM fez de Durval, numa curtíssima campanha de um mês e meio, o novo governador da Bahia.

Silveira. A exemplo de Eduardo Campos, o governador Roberto Silveira, do Rio de Janeiro, teve a carreira interrompida quando sua carreira política estava em ascensão - não faltava, à sua volta, quem o visse como um sucessor de João Goulart nas hostes sindicais e trabalhistas. Numa visita a áreas inundadas da região serrana, ele morreu quando o helicóptero em que estava decolou do Palácio Rio Negro, em Petrópolis, e colidiu com algumas palmeiras do jardim do palácio. Queimaduras e hemorragias o mataram alguns dias depois.

Nome de destaque da oposição ao regime militar, político de grande força eleitoral em Pernambuco, Marcos Freire (MDB) era ministro da Reforma Agrária do governo José Sarney (1985-89), quando o jatinho em que viajava, no interior do Pará, explodiu no ar, em 8 de setembro de 1987. Com ele morreram o presidente do Incra, José Raduan, e o secretário0-geral do ministério, Dirceu Pessoa.

Em 2003, um monomotor em que estava o deputado federal e presidente nacional do PTB, José Carlos Martinez, desapareceu nas serras entre o sul do Paraná e Santa Catarina por causa de um nevoeiro. O corpo de Martinez, cujo nome seria ligado ao escândalo do Mensalão em 2005, e das outras vítimas, foi resgatado quatro dias depois do acidente.

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Acidente matou presidente e líder da oposição da Polônia

Queda de aeronave, em abril de 2010, foi motivada por falha humana e matou também os principais dirigentes poloneses

O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2014 | 21h58

Em abril de 2010, menos de seis meses antes das eleições presidenciais, um acidente aéreo matou o presidente da Polônia e candidato à reeleição, Lech Kaczynski, a primeira-dama, Maria, e o líder da oposição e também candidato, Jerzy Szmajdzinski. No acidente, morreram também os principais dirigentes poloneses, entre eles o ex-presidente no exílio, Rysyard Kacyorowski, o presidente do Banco Central polonês, parlamentares, os comandantes das Forças Armadas, o porta-voz do governo, o vice-presidente do Parlamento, o vice-chanceler, o chefe de gabinete de Segurança Nacional.

Na aeronave, estava ainda Anne Walentynowicz, ícone da luta operária contra o comunismo na Polônia e cofundadora do movimento Solidariedade. Foi sua demissão do estaleiro de Gdansk que levou o sindicato Solidariedade a iniciar a pressão que acabaria derrubando o governo e o comunismo na Polônia.

A queda do Tupolev, pertencente ao governo polonês, matou 96 pessoas que viajavam para a Rússia. A tragédia ocorreu quando a comitiva ia para uma cerimônia em homenagem aos 70 anos massacre da Floresta de Katyn, quando 20 mil soldados poloneses foram mortos por tropas russas durante a 2.ª Guerra. No massacre de Katyn, ocorrido em 1940, além dos militares também foram mortos a elite intelectual e acadêmica polonesa. A matança foi sempre negada pela União Soviética, que acusava os alemães. A viagem fazia parte do esforço de reaproximar o governo russo e polonês, que nunca teve acesso aos arquivos do caso. “Aquele é um lugar maldito”, disse na época o ex-presidente polonês Aleksander Kwasniewski.

As investigações sobre a queda do avião apontaram como causa falha humana. As gravações registradas na caixa-preta indicaram que o piloto teria tomado decisões equivocadas na hora de aterrissar e teria ignorado as orientações da torre para não pousar no aeroporto de Smolenesk por causa das péssimas condições meteorológicas. O piloto não seguiu as instruções e aproximou-se em altitude insuficiente atingindo as copas das árvores antes de tocar o solo. Por causa da tragédia, as eleições foram antecipadas para junho. O irmão gêmeo do presidente Kaczyinski, Jaroslaw, foi o candidato da situação, e Bronislaw Komoroviski da oposição. Komoroviski, que assumiu o governo provisório após o acidente, venceu no segundo turno. 

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