Tragédia na cratera do Metrô completa um ano sem punições

Mais de 50 imóveis foram interditados, incluindo um prédio de 13 apartamentos; seis foram demolidos

12 de janeiro de 2008 | 02h38

Há quase um ano, no dia 12 de janeiro de 2007, o desastre na estação Pinheiros do metrô deixou sete mortos. Até hoje, o laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas sobre as causas do acidente não está pronto e uma família continua vivendo em um hotel. Desde dezembro, quando as escavações alcançaram o topo do túnel que se rompeu, o IPT trabalha na chamada "arqueologia" do acidente. São feitos cortes verticais no solo, para preservar o máximo de provas. O banco de dados das investigações já reúne mais de 5.800 documentos. O instituto, no entanto, não fala em prazo para a conclusão do laudo.   Veja também: Um ano após, famílias não superam a perda Gafes e trapalhadas marcaram a cobertura da tragédia Especial cratera do metrô     Dezenas de amostras coletadas até agora - escombros, restos de ferro e aço, pedaços de solo e de concreto - continuam guardadas num galpão do Consórcio Via Amarela, responsável pela obra, à espera de análises. A maioria desses testes, que vão verificar se o concreto estava dentro dos padrões de resistência e durabilidade para uma obra do tipo, por exemplo, deve começar apenas no fim deste mês.     Roberto Kochen, diretor do Departamento de Engenharia Civil do Instituto de Engenharia, órgão que assessora as investigações, explica que a demora é normal. "Se fosse só escavar e refazer a estrutura da estação, seria bem mais rápido e descomplicado. Mas, do jeito que o poço ficou, o trabalho vem sendo quase uma arqueologia", diz. Atualmente, os peritos vêm trabalhando em uma região próxima do fundo do poço, onde ficava a junção entre os túneis e o poço que desabou. É ali, segundo Kochen, que devem estar concentradas as provas principais - justamente onde a base de toda a estrutura se rompeu.   A Promotoria Criminal de Pinheiros, que cuida das investigações, vai começar uma nova rodada de interrogatórios de funcionários, técnicos e engenheiros da obra até o fim do mês. Alguns já até mudaram de país: o engenheiro Fábio Gandolfo, que era o chefe do Consórcio Via Amarela na época, hoje trabalha no Equador, para onde foi transferido pela Odebrecht, empreiteira que faz parte do grupo de empresas que constrói a Linha 4.   Vidas atingidas   Em 2007, a vida do engenheiro argentino Hugo Alabi, de 60 anos, é definida como "caótica". Ele e sua família - a mulher e dois filhos - são os únicos dos 212 moradores desabrigados da tragédia que continuam morando em um hotel, mesmo privados de alimentação e serviços como lavagem de roupas.     Alabi, a mulher Elizabeth e os dois filhos adolescentes, Tadeusz, 19, e Letícia, 18, vivem há quase um ano em dois quartos de hotel (cada um com 4 metros de comprimento por 4 de metros de largura), inconformados com a casa interditada. A família desalojada morava na Rua Paes Leme, esquina com a Rua Capri. "Depois de um ano sem lar, eu só posso desabafar pedindo que exista mais respeito pela vida humana. Nessa obra, a ambição econômica está acima de tudo", lamenta.     A família é a única desabrigada que ainda vive em um hotel, segundo o Consórcio Via Amarela - responsável pela construção da Linha 4 do Metrô. Segundo o consórcio, "dos moradores da região do entorno da Estação Pinheiros, mais de 98% foram indenizados e retomaram sua rotina sem ter que recorrer à Justiça e, das 212 pessoas inicialmente deslocadas de suas residências e instaladas em hotéis da região, apenas uma família permanece em hotel."     Alabi conta que possui uma ordem judicial para que o consórcio pague ao hotel novamente a alimentação, que foi cortada em outubro. "Eu e minha família estamos sobrevivendo no caos. Não temos cozinha, não tem lugar para sentar. Hotel é para viajar, não para morar", sustenta. O engenheiro ainda luta na Justiça para acertar os valores de indenização. "Meus filhos não suportam mais dividir o mesmo quarto. Eles foram criados com conforto. Agora não têm privacidade."     A mulher de Alabi, Elizabeth, não agüentou a situação e passa a maior parte do tempo na casa de amigos. "Apenas fomos considerados desabrigados após entrarmos na Justiça. Eles nos pressionam de todos os jeitos, primeiro cortaram a alimentação e a lavanderia, depois, mandaram cobranças das diárias. Querem que a gente saia. Mas vou lutar. Não vou desistir."   Destroços da cratera   Manoel Augusto da Rocha Cruz, 52 anos, passou 37 deles administrando seu bar e lanchonete, chamado Caiapiá, na Rua Capri, a mais atingida pela cratera do metrô. Como ele não morava no local, recebeu do Consórcio Via Amarela, responsável pela construção da estação, apenas uma indenização equivalente a seis meses de lucro do seu bar, mais um valor por danos morais.     Atualmente, um ano após a tragédia, ele diz não ter encontrado outra opção: procurou outra ocupação para sustentar sua família. Para ele, o dinheiro recebido não foi suficiente para remontar um bar. "Eu passei praticamente minha vida inteira cuidando do meu negócio, que já era tradicional no bairro. Não sabia fazer outra coisa. Então, virei motorista de caminhão para não morrer de fome."     Cruz diz que quando recebeu a indenização já estava atolado em dívidas. "Recebi a indenização meses após o acidente. Estava com dívidas com fornecedores e salários atrasados dos funcionários. Paguei tudo e não consegui me reerguer. Hoje, sinto-me como um homem que lutou para ter a vida estabilizada e acabou na roça", desabafa. Além do bar, Cruz tinha um outro imóvel na Rua Capri, que costumava alugar. "Mas a prefeitura condenou a estrutura de ambos. Fiquei rendido. Agora estou sem funcionários e sem dinheiro. Também sinto que fui condenado", conclui.   Sete meses antes do desmoronamento das obras do Metrô, em julho de 2006, o anúncio do pior quase caiu, em forma de concreto, sobre a dona de casa Roberta Marinho, 26, e sua filha, de apenas 2 meses. Roberta dava banho na criança quando um pedaço do teto do banheiro desabou sobre elas que, "por um milagre", escaparam ilesas. "Fui reclamar na televisão, revoltada. Pedi providências aos governos municipal e estadual. Tenho o programa gravado. Mas nada foi feito para evitar esse acidente horroroso que prejudicou centenas de pessoas. Foi uma tragédia anunciada. Vidas perdidas. E volto agora a avisar: a minha casa vai cair", disse, angustiada, a dona de casa.   Logo após o acidente, parte do muro do quintal da casa, localizada na Rua Amaro Cavalheiro, também desabou. As rachaduras tomaram o sobrado. "Depois, um técnico veio aqui e interditou um quarto. Parece piada. A casa está liberada, somente um quarto está impedido de uso", contou. Roberta briga na Justiça por indenização. "Eles (o Consórcio Via Amarela) dizem que a minha casa é velha e as rachaduras acontecem por causa dos escapamentos das motos que passam pela minha rua. Um absurdo. Um desrespeito", lamenta. "Nos últimos dias eu tenho acordado com o barulho."   O balanço da tragédia: mais de 50 imóveis foram interditados, incluindo um prédio de 13 apartamentos. Treze imóveis foram condenados pela Defesa Civil, incluindo os seis demolidos. Outros 42 endereços passaram por inspeção do Crea e da Subprefeitura de Pinheiros. "Engenheiros já disseram que minha casa vai virar um chalé. As vigas estão entrando para dentro. Ela vai cair, é uma questão de tempo."   'Foi um choque imenso'   A interdição da casa onde passou 40 anos com a família provocou depressão e dois infartos na moradora Maria do Carmo Criscuolo, 88 anos, uma das mais velhas das vítimas desabrigadas. O primeiro problema cardíaco se manifestou em abril do ano passado, três meses após a tragédia. Em julho, o segundo enfarte a acometeu, deixando a idosa ainda mais debilitada. "Ser obrigada a sair da minha casa onde criei minhas duas filhas foi um choque imenso. Uma dor muito grande", contou.

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