Trabalhadores rurais destroem Fórum de Matriz de Camaragibe

Eles protestavam contra a libertação de acusados de um golpe de aliciamento de trabalhadores a outros Estados

Ricardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2009 | 15h56

Trabalhadores rurais incendiaram e destruíram na noite de terça-feira o Fórum de Matriz de Camaragibe, a 77 quilômetros de Maceió. Os manifestantes ameaçaram de morte o juiz da comarca, que foi retirado do município sob proteção policial. Além do Fórum, outras repartições públicas foram depredadas. Soldados do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar de Alagoas (Bope) estiveram na cidade, foram recebidos a pedradas e só conseguiram controlar a fúria dos manifestantes na madrugada desta quarta-feira, 1º. Durante o conforto, alguns manifestantes disseram que foram espancados pelos policias.

 

Segundo informações da Polícia Civil de Alagoas, mais de cem manifestantes foram presos, mas apenas cerca de vinte foram transferidos para os presídios da capital; os demais foram liberados. O protesto começou pela manhã, com a interdição de um trecho da rodovia AL-101 Norte, mas à noite fugiu ao controle das lideranças do Sindicato de Trabalhadores Rurais e se transformou em atos de vandalismo. O delegado da Polícia Civil, Rodrigo Rubiali, disse que a depredação só não foi maior porque o policiamento na cidade foi reforçado. Mesmo assim, o prédio do Fórum foi totalmente destruído.

 

Os manifestantes protestavam contra a inoperância da Justiça diante de um golpe de aliciamento desmascarado pela Delegacia Regional do Trabalho (DRT), em conjunto com a Procuradoria Regional do Trabalho (PRT) e a Polícia Rodoviária Federal (PRF). O estopim do protesto foi a liberação dos acusados Cícero Gomes dos Santos e José Ferreira Lins Filhos, para que respondessem ao processo em liberdade. Eles foram presos na última quinta-feira e transferidos para a sede da Polícia Federal em Maceió, depois de sofrerem ameaças de linchamento. Como eram réus primários e o crime afiançável, ambos pagaram fiança e foram liberados.

 

Cerca de 900 trabalhadores rurais, aliciados para trabalhar na lavoura de cana-de-açúcar de Minas Gerais e São Paulo, reivindicam a devolução do dinheiro que teria sido entregue aos acusados. Segundo os manifestantes, cada trabalhador pagou a dupla cerca de R$ 120,00 para ter acesso aos postos de trabalho nos dois Estados. Eles disseram também que entregaram suas carteiras de trabalho aos acusados e estavam revoltados porque os documentos não foram devolvidos. "Quem Justiça é essa que nem os nossos documentos devolvem e ainda libera esses golpistas, que ficaram com o nosso dinheiro?", questionavam os manifestantes.

 

O Tribunal de Justiça de Alagoas e a Corregedoria de Justiça de Alagoas informaram que uma equipe, composta por desembargadores e juízes, vai comparecer ao município para fazer um levantamento dos estragos, ouvir os funcionários do Fórum e tomar outras providências. Após os protestos, o prédio do Fórum foi cercado por policiais e interditado. Durante a invasão do prédio pelos manifestantes, todos os documentos do Cartório Eleitoral foram queimados e os equipamentos de informática destruídos. As secretarias de Educação, Assistência Social e Saúde, além dos prédios da Biblioteca Municipal, da Prefeitura e da Associação dos Deficientes (Adefal) também foram depredados.

 

A Polícia Militar reforçou o policiamento no local depois de um confronto direto com os manifestantes. Na cidade estiveram policiais do 6º Batalhão; do Batalhão Rodoviário; policiais do GPM de Porto Calvo; guarnições do Bope. O comando da Guarda Municipal de Matriz disse que não teve como conter a fúria dos manifestantes, por isso pedir ajuda às policiais Civil e Militar. Para conter a onda de protestos, o Bope orientou a população a recolher-se antes das 22 horas e utilizou bombas de efeito moral para conter algumas pessoas que atiravam pedras contra as viaturas da PM, em repúdio ao desbloqueio da pista.

 

Já a Polícia Civil foi para a cidade com viaturas do Tático Integrado Grupo de Resgates Especiais (Tigre), com os policiais coordenados pelo delegado Rodrigo Rubiali, em parceria com o delegado de Matriz, Antônio Belmiro. A determinação da Secretaria de Defesa Social é que a polícia permaneça até esta quarta-feira na cidade, já que os manifestantes prometem novos protestos no início do dia com saques aos estabelecimentos comerciais. Durante os protestos de ontem à noite, duas lojas do comércio de Matriz foram saqueadas. A prefeitura da cidade ainda não tem um balanço dos prejuízos.

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