Torturado quando bebê, filho de preso político se suicida

Carlos Alexandre desenvolveu fobia social depois de ter sofrido tortura durante ditadura

Gabriel Manzano, O Estado de S. Paulo

18 de fevereiro de 2013 | 22h08

SÃO PAULO - Em mensagem distribuída pelas redes sociais, o cientista político e jornalista Dermi Azevedo informou nesta segunda-feira, 18, a morte de seu filho Carlos Azevedo - que, em janeiro de 1974, ainda com um ano e oito meses, foi torturado pela polícia do regime militar no Deops paulista, sofrendo lesões das quais nunca mais se recuperou.

"Meu coração sangra de dor. Meu filho mais velho, Carlos Alexandre Azevedo, suicidou-se na madrugada de hoje, como uma overdose de medicamentos", escreveu o jornalista em sua página no Facebook. No texto ele recorda os detalhes do episódio que marcou em definitivo a vida do filho - que foi levado com a mãe, Darci, para o Deops, no dia 14 de janeiro de 1974. Ele já estava preso. "Cacá (como ele chamada a criança) foi levado depois a São Bernardo do Campo, onde, em plena madrugada, os policiais derrubaram a porta (da casa) e o jogaram no chão, tendo machucado a cabeça. Nunca mais se recuperou. Como acontece com os crimes da ditadura de 1964-85, o crime ficou impune. O suicídio é o limite de sua angústia", diz sua mensagem.

O episódio fez o então menino Carlos Alexandre desenvolver o chamado Transtorno Ansioso Social - mais conhecido como fobia social - que consiste em ataques de pânico toda vez que a pessoa se relaciona com alguém ou se sente exposta a alguma forma de avaliação pelos outros. Teve dificuldades para levar uma vida normal, mas ainda assim conseguiu tornar-se técnico em informática.

Livro. Dermi era, nos anos 70, um adversário do regime militar e foi preso por ter ajudado uma ONG a redigir um texto para a Anistia Internacional em que se descreviam abusos da repressão no Brasil. Quando saiu da prisão, ele voltou ao seu Estado, oi Rio Grande do Norte, e foi morar com a família em Currais Novos e depois em Natal.

Formado em Jornalismo em 1979, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, voltou em 1984 a São Paulo, onde trabalhou em várias redações. Em 2009, pai e filho deram entrevista em que Carlos Alexandre, com 37 anos, afirmou: "Até hoje sofro os efeitos da ditadura. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social". Ele está lançando este mês um livro de memórias, "Travessias Tortuosas", em que conta com destaque o episódio envolvendo o filho.

Nota. Ainda ontem, o Movimento Nacional dos Direitos Humanos divulgou nota oficial sobre a morte de Carlos Alexandre, "o qual foi preso e torturado durante a ditadura militar com apenas um ano e oito meses e não conseguiu se restabelecer". Para o Movimento, "hoje a ditadura concluiu a morte de Carlos, iniciada em tão tenra idade".

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