Torcendo como no futebol

Regis só criticou as respostas de Serra e, na primeira frase de Dilma, Priscila disparou: ‘Como ela gagueja!’

Flávia Tavares e Roberto Almeida

30 de outubro de 2010 | 01h05

A TV Globo optou por selecionar indecisos para questionar os presidenciáveis no debate de ontem à noite. Mas em muitos lares de todo o Brasil eleitores acompanharam atentamente o confronto praticamente só para torcer por seus escolhidos.

Regis Annoni, de 41 anos, é um deles. Como no primeiro turno, o arquiteto vai votar na petista Dilma Rousseff. Assim, nada do que o tucano José Serra falasse durante o debate lhe parecia ter consistência. A não ser para levar críticas. “Para ele, o que é bom é bom, o que é ruim é ruim. Ele não se aprofunda em nada”, atacou.

Na casa dos publicitários Alexandre Cid Pedroso, 48, e Priscila Gonçalves, 39, o cenário era exatamente inverso. “Ele foi mais cordial, mais simpático”, cravou Priscila logo na apresentação de Serra. “Como ela gagueja!”, exclamou ela logo na primeira resposta de Dilma.

Em sua casa, Regis não perdia nenhum detalhe. Por alguns instantes, enquanto a petista respondia à questão sobre agricultura, observou que o foco da câmera estava em Serra, no fundo da arena, e a imagem da petista estava borrada. “Ela foi estigmatizada como dura, sem eloquência, mas está se saindo muito bem”, elogiou.

Priscila proclama-se “anti-PT”. Seu pai era dono de fábrica de autopeças em São Bernardo do Campo. Cresceu ouvindo histórias de sindicalistas que davam prejuízos à família. No fim do primeiro bloco, não aliviou quando o tucano respondeu à pergunta sobre corrupção. “Serra é muito bonzinho, perde a capacidade de bater. Em vez de falar ‘os últimos 20 anos’, por que não falou ‘os últimos oito’?”, observou.

Na questão de corrupção, contudo, os dois candidatos não foram agressivos como em outros debates. Regis avaliou que o tom foi mais ameno porque, agora, ambos têm denúncias graves contra si e poderiam se prejudicar ao provocar discussão sobre casos recentes. “A Dilma não está só mais tranquila que em outros debates. Ela está mais tranquila do que o Serra.”

O segundo bloco passou meio batido para o arquiteto, que preferiu contar de quando estudou em escolas estaduais e fazer considerações sobre o governo Lula. “O formato dos debates em geral não é estimulante, é fácil se distrair. Ainda mais que eles não estão brigando.”

Carmen, mulher de Regis e também arquiteta, apareceu no último bloco e fez apenas um comentário: “Votei no Serra em 2002, mas, depois que ele prometeu terminar o mandato de prefeito e não cumpriu, nunca mais votei nele.” E foi dormir.

Tempos. Alexandre estudou na Universidade Metodista, também em São Bernardo do Campo, na década de 1980 - era da efervescência petista - e juntou-se às reivindicações da época. Mas para ele, os tempos são outros. “Eu me decepcionei com Lula na questão da ética. Defendeu Sarney, defendeu Collor”, afirmou durante o segundo bloco.

Para o casal pró-tucano, a declaração do jurista e fundador do PT Hélio Bicudo, em favor de Serra, é o que melhor traduz o que pensam. Durante o intervalo entre o primeiro e o segundo bloco, eles anotaram: “Serra tem um discurso mais amplo, mais estrutural. A Dilma não perde o foco do discurso social.”

Ao fim das perguntas, o casal fez seu diagnóstico. “O debate não mudou nada.” Alexandre observou: “É muito treinamento.” Priscila até ensaiou uma observação crítica sobre Serra. “Achei que ele deu umas pisadas na bola.” De qualquer forma, não mudam de time: o voto dos dois será no tucano.

Já Regis concluiu que o debate não foi de confronto, pois para Dilma não era interessante e, para Serra, poderia ser prejudicial, porque a campanha já foi muito intensa em outros campos. E o arquiteto, é claro, não se sente tentado a mudar o voto. “Acho que é bom mudar, mas acho que não é a hora. Porque o oposto é realmente diametralmente oposto e isso pode representar uma mudança muito radical, especialmente para os mais pobres.”

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