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Toque de reunir

A julgar pelas decisões tomadas na reunião da direção Executiva do PT nesta segunda-feira, o partido parece mais empenhado em falar à militância que propriamente interessado em colaborar com a presidente Dilma Rousseff para enfrentar as dificuldades e dirimir os atritos já contratados para o segundo mandato.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2014 | 02h05

As resoluções divulgadas vão todas na contramão do discurso de conciliação do governo, vocalizado pela presidente e levado por seus interlocutores ao Congresso a fim de propor uma trégua. O tom está longe de evocar unidade. Por outra, soa a demarcação de terreno.

Logo de início o partido reivindica participação "ativa" nas decisões políticas e econômicas dos próximos quatro anos. Desnecessário dizer o que o setor privado com o qual o governo busca reaproximação pensa do "ativismo" petista na economia. Quanto à política, é justamente da exclusiva influência do PT nas decisões de poder que reclamam os partidos aliados quando reivindicam participação efetiva, e não apenas o papel de coadjuvantes submissos.

A agenda prossegue com a decisão de enfrentar o PMDB na disputa pela presidência da Câmara. Não que o PT não tenha esse direito. Mas há maneiras e maneiras. Uma delas é iniciar a conversa falando em negociação, principalmente quando é o adversário quem momentaneamente está na posição do mais forte. O jeito que os petistas entraram no assunto, digamos de sola, oferece ao PMDB rebelde o argumento ideal para conquistar o apoio da oposição.

A dissonância não para por aí. O partido insiste na proposta de reforma política não só mediante plebiscito, mas por meio de convocação de Assembleia Nacional Constituinte exclusiva; sugestão ampla, reiterada e contundentemente repudiada pelos partidos e entidades mobilizadas em torno do assunto.

E como se não bastasse, o PT anuncia que pretende retomar o projeto dos conselhos populares que acabou de ser derrotado na Câmara dos Deputados. Em suas resoluções de ano novo inclui também a velha ideia do controle social (agora sob a denominação de "econômico") dos meios de comunicação.

Seria o cardápio ideal para uma agremiação interessada em colecionar derrotas ou se dedicar ao exercício da malhação em ferro frio. Não sendo esses os objetivos do PT, só resta a hipótese de que o partido esteja pouco se importando com a construção de convergências que ajudem a presidente. Parece, isso sim, mais empenhado em falar ao público interno para mobilizar a antiga militância e tentar fazer ligação direta com a "rua", a fim de enfrentar a oposição passando ao largo do Congresso.

Mais embaixo. Os apelos do Palácio do Planalto à trégua no Congresso têm um pouco a ver com a chamada "pauta bomba" de criação de despesas, mas têm muito mais a ver com o receio de perder o controle da base em outro tipo de agenda: comissões de inquéritos, convocações de autoridades, tramitação de processos de cassação e até eventuais pedidos de impeachment aos quais governos estão sempre sujeitos.

Deixa que digam. Os eleitores inconformados com o resultado da eleição têm o direito de se manifestar. Já os políticos derrotados têm o dever de repudiar atos que resvalem para agressão ao regime democrático, sem dar a menor margem à desconfiança de que estariam de acordo com palavras de ordem que pregam interrupção ilegal de mandatos e pregam a volta dos militares.

Tudo bem. É gente que não sabe o que diz. Que não poderia dizer o que bem entendesse se seus apelos fossem atendidos. Mas convém manter tais gatos pingados à distância, desprovidos de eco até que o berreiro tenha por destino a morte por inanição.

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