Joedson Alves/Reuters
Joedson Alves/Reuters

Tombini deve permanecer no Banco Central em período de transição para eventual governo Temer

Possibilidade de permanecer no posto por mais algum tempo ajudaria a evitar volatilidade nos negócios; novo presidente do BC precisaria ser aprovado em comissão no Senado

Célia Froufe, O Estado de S. Paulo

27 de abril de 2016 | 12h11

BRASÍLIA - Em meio às incertezas políticas que assolam Brasília em relação à sucessão presidencial e à composição do novo governo, no Banco Central uma mudança de comando tende a se dar de forma suave. Em um eventual governo Michel Temer, caso o impeachment da presidente Dilma Rousseff seja aprovado pelo Senado, o presidente do BC, Alexandre Tombini, colocará seu cargo à disposição, como é de praxe, mas deve selar um compromisso de se manter à frente do comando da instituição por um período de transição.

Essa transferência no BC deve se dar até que um novo substituto seja nomeado e esteja apto a assumir o cargo, o que poderia levar alguns meses por causa do processo específico que precisa ocorrer dentro da instituição e que precisa passar pelo Congresso. O mais provável, no entanto, segundo interlocutores próximos ao vice-presidente Michel Temer, é que o novo governo tente acelerar esses trâmites com os parlamentares, para que a permanência de Tombini seja a mínima necessária.

Tecnicamente, Tombini não precisaria fazer esse procedimento formal de entregar o cargo porque o mandato do BC já é do presidente da República, mas o gesto sinalizaria uma mudança mais "orgânica" dentro de uma área do governo considerada sensível para o mercado financeiro. Essa possibilidade de permanecer no posto por mais algum tempo ajudaria, portanto, a evitar volatilidade nos negócios.

O BC tem um calendário próprio, que tende a passar ao largo das questões políticas. Esse calendário deve seguir normalmente durante o possível afastamento de Dilma, com as entrevistas de fim de mês à imprensa, encontros com economistas do setor privado e intervenções no mercado financeiro, entre outros pontos. Ao contrário da nomeação de ministros, que é de critério exclusivo do presidente da República, as indicações no BC passam por um rito particular.

Presidente e diretores precisam receber também o crivo do Senado antes de tomarem posse. O trâmite de aprovação se dá na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e, não há na história, algum indicado que houvesse sido "reprovado" pelos parlamentares. A questão é que quem comanda hoje a CAE é a ex-ministra de Dilma, a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR).

O antecessor de Tombini, Henrique Meirelles - nome já dado como certo para o Ministério da Fazenda em um eventual governo Temer -, assumiu a presidência no mesmo dia da posse de Luiz Inácio Lula da Silva (1º de janeiro de 2003), pois já havia sido sabatinado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado em dezembro do ano anterior, logo após o resultado da eleição. Ele herdou a diretoria existente, do então presidente Arminio Fraga, e aos poucos foi mudando suas peças de tabuleiro.

Da mesma forma, quando Tombini assumiu o comando da instituição, também no primeiro dia do governo Dilma Rousseff, em janeiro de 2011, já encontrou uma diretoria formada. Menos de dois meses depois, fez suas primeiras trocas. Tombini já era diretor de Normas, mas foi sabatinado também em dezembro do ano anterior, antes de assumir a presidência.

Mesmo com Meirelles ganhando cada vez mais força, a troca não estará completa na economia se um nome forte não estiver no comando do BC. Entre os mais cotados estão Ilan Goldfajn, Mário Mesquita e Eduardo Loyo. Os três atuam hoje no setor privado, mas já tiveram passagem pela diretoria do BC. Inclusive na gestão de Meirelles, o mais longevo banqueiro central brasileiro. Seja quem for o escolhido terá tempos difíceis pela frente, já que a situação fiscal não tem colaborado com a gerência da política monetária.

O ex-presidente do BC por duas vezes, Gustavo Loyola, se lembra com clareza sobre como foi o período de transição pelo qual passou quando chegou ao posto máximo dentro da autarquia. "Fui presidente do BC num momento histórico, no primeiro impeachment do País", ressalta. Ele salienta que, na ocasião, a sua sucessão foi vista como natural porque já era diretor da instituição e, portanto, o mercado já estava familiarizado com o seu nome. "Foi uma boa transição", recorda-se. Mas não durou muito tempo.

Três meses depois, Loyola se afastou do BC e foi substituído por Paulo Cesar Ximenes Ferreira, já no governo Itamar Franco. Ximenes também ficou pouco tempo no cargo - de março a setembro de 1993. O sucessor foi Pedro Malan, que dirigiu o BC de 9 de setembro de 1993 até o último dia de 1994.

 

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