Alan Santos/Planalto
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Tom de campanha de Bolsonaro permanecerá nas redes durante mandato, diz analista

Professor Pablo Ortellado diz que Bolsonaro foi eleito como 'candidato antisistema' que elegeu como alvo 'os partidos tradicionais e a imprensa'

Carla Bridi, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2019 | 18h04

A manutenção de uma base aliada através das redes sociais necessita de divulgação constante de conteúdo movido pelas emoções. A avaliação é do professor do curso de gestão de políticas públicas da Universidade de São Paulo (USP), Pablo Ortellado.

Segundo ele, as postagens como a do presidente da República, Jair Bolsonaro, que no domingo reproduziu em sua conta no Twitter uma notícia falsa envolvendo uma repórter do Estado, fazem parte da estratégia de manter a imagem de inimigos do governo através de postagens que gerem repercussão elevada.

Tal postura não deve ser alterada ao longo do mandato, por não haver motivos para isso, segundo Ortellado. Confira trechos da entrevista:

Qual o significado de se utilizar as redes sociais para atacar e desqualificar o trabalho jornalístico?  

A campanha de Jair Bolsonaro foi muito sistêmica, através de um discurso antielitista que atribui os males da Nação a uma elite corrupta. Isso significa que os alvos do candidato antissistema foram os partidos tradicionais e a imprensa. Isso está enraizado na campanha, e esse tom não será perdido durante todo o mandato, acredito. 

O 'Estado' apurou que a conta do Twitter do presidente Jair Bolsonaro apresenta postagens de ataque à imprensa em média a cada três dias. Isso se configura como uma estratégia governamental?

O discurso do presidente tem como base o populismo. O antisistema cria um processo de mobilização, e frequentemente esse discurso tambem é anti imprensa. Uma vez que se dispensa e antagoniza os meios de comunicação, passa a se comunicar com a sua base diretamente pelas redes sociais. Essa comunicação precisa ser permanente. A base precisa ser constantemente mobilizada, senão a mensagem não trafega. É por isso que o presidente não pode ter uma postura mais presidencial. 

Quais são as características de uma postura menos presidencial? 

O que está sendo feito é ver a ação regular da imprensa, cuja missão é fiscalizar a atividade do Estado, como uma ação maliciosa para derrubar o presidente. Já que isso está sendo feito, segundo o ponto de vista do governo, é preciso derrubar a velha elite que não dá a chance de renovação. Do ponto de vista partidário, o grande salto que tivemos do antipetismo e anticorrupção é a generalização do antipetismo para todos os partidos tradicionais. Compara-se os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula como farinha do mesmo saco.

Existe a possibilidade de se alterar essa estratégia, a fim de expandir o leque de apoio do presidente?

Não há estímulo para fazer isso, uma vez que a campanha foi completamente polarizada. A estratégia antagônica no jogo eleitoral garantiu uma vitória folgada, e parece que o presidente está pesando a mão cada vez mais. Uma mudança de tom diminui a presença dele nas redes, já que é preciso compartilhamentos para atingir milhões de pessoas. Uma mensagem reflexiva e presidencial não gera isso. Uma mensagem eficiente nas redes sociais é sempre carregada de emoção. 

Referente aos compartilhamentos, qual é a relevância dos robôs (bots)?

Não podemos confundir. Esse fenômeno de divulgação não é inteiramente fabricado. Os robôs levantam o tema, geram uma hashtag, mas só passa a fazer sentido quando pessoas reais compartilham a mensagem, até porque pessoas reais não seguem robôs. 

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