Gabriela Biló/Estadão
O presidente do STF, Dias Toffoli, em seu gabinete no Supremo Gabriela Biló/Estadão

Toffoli cobrou de ministro da Defesa explicações sobre postura de Bolsonaro

Presidente do Supremo telefonou para Fernando de Azevedo e Silva, de quem e próximo, para manifestar desconforto com ida de presidente a manifestação antidemocrática no domingo

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 19h02

BRASÍLIA – O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, telefonou no domingo para o ministro da Defesa, Fernando de Azevedo e Silva, para conversar sobre a participação do presidente Jair Bolsonaro em manifestação convocada em defesa do fechamento do Congresso, do Supremo e a destituição dos governadores. Os dois são próximos. Antes de assumir a pasta, o ministro assessorava Toffoli na Corte.

Toffoli manifestou o desconforto com a postura do presidente e avisou que a simples presença dele em atos que tinham como pauta medidas inconstitucionais deu um sinal ruim. Ele observou que não pode haver dúvida ou ambiguidade dessa natureza em relação ao comportamento do presidente.

Na conversa, o ministro da Defesa tentou tranquilizar o presidente do Supremo. Disse que, em nenhum momento, Bolsonaro discursou em defesa de medidas autoritárias contra os demais poderes e enfatizou que o presidente é um defensor da Constituição. 

Nesta segunda-feira, o ministro divulgou nota na qual afirma que “as Forças Armadas trabalham com o propósito de manter a paz e a estabilidade do País, sempre obedientes à Constituição Federal”. E que o “esforço de todos os brasileiros”, neste momento, deve ser “para combater um inimigo comum: o Coronavírus e suas consequências sociais. É isso o que estamos fazendo.” O Estado apurou que o objetivo foi afastar qualquer especulação de que medidas antidemocráticas estariam sendo planejadas pelo governo com o apoio das Forças Armadas.

  Vários ministros do Supremo e políticos condenaram a atitude do presidente. O PGR pediu ao Supremo a abertura de um inquérito para apurar quem convocou o evento que pregava o fim da democracia.   Diante disso, várias conversas e reuniões, inclusive entre o presidente e alguns ministros, foram realizadas entre domingo e segunda. Na pauta, a avaliação de estratégias para contornar a nova crise que, mais uma vez, atrapalharia o foco do governo, que deveria ser se concentrar em atacar o novo coronavírus.

Na manhã desta segunda-feira, o presidente atendeu a um apelo dos militares ao afirmar, em entrevista coletiva, que não defendeu medidas antidemocráticas e, pela primeira vez, repreender, na frente das câmeras, uma apoiador que pediu o fechamento dos demais poderes. 

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Forças Armadas trabalham para manter paz e estabilidade do País, diz ministro da Defesa

Fernando Azevedo e Silva divulgou nota um dia depois do presidente Jair Bolsonaro discursar em frente ao QG do Exército em ato que pedia intervenção militar

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 19h00

BRASÍLIA - Um dia após Jair Bolsonaro discursar em frente ao QG do Exército em ato que pedia intervenção militar, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, divulgou nota nesta segunda-feira, 20, para dizer que as Forças Armadas são "sempre obedientes à Constituição".

"As Forças Armadas trabalham com o propósito de manter a paz e a estabilidade do País, sempre obedientes à Constituição Federal", afirmou."O momento que se apresenta exige entendimento e esforço de todos os brasileiros".

O Estado apurou que o objetivo foi afastar qualquer especulação de que medidas antidemocráticas estariam sendo planejadas pelo governo com o apoio das Forças Armadas. Mais cedo, o ministro participou de teleconferência com os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica.

De acordo com o ministro nenhum país estava preparado para o combate à pandemia da covid-19. "Essa realidade requer adaptação das capacidades das Forças Armadas para combater um inimigo comum a todos: o coronavírus e suas consequências sociais", disse o ministro."É isso o que estamos fazendo", completou.

Como o Estado mostrou, o presidente foi alertado por militares do governo de que sua participação no ato deste domingo, 19, convocado para defender o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, não só pegou mal como expôs as Forças Armadas a uma situação constrangedora. Houve pedidos para que ele recuasse e se explicasse à população.a cúpula militar convenceu o presidente a modular o tom. Hoje, ele disse, na entrada do Palácio da Alvorada, que defende a democracia e a liberdade "acima de tudo".

Neste domingo, em cima da caçamba de uma caminhonete, diante do quartel-general do Exército e se dirigindo a uma aglomeração de apoiadores pró-intervenção militar no Brasil, Bolsonaro afirmou que "acabou a época da patifaria" e gritou palavras de ordem como "agora é o povo no poder" e "não queremos negociar nada".

"Nós não queremos negociar nada. Nós queremos ação pelo Brasil", declarou o presidente, que participou pelo segundo dia seguido de manifestação em Brasília, provocando aglomerações em meio à pandemia do coronavírus. "Chega da velha política. Agora é Brasil acima de tudo e Deus acima de todos."

Além de defender o governo e clamar por intervenção militar e um novo AI-5 —o mais radical ato institucional da ditadura militar (1964-1985), que abriu caminho para o recrudescimento da repressão— os manifestantes aglomerados em frente ao quartel-general do Exército defenderam o fechamento do STF e do Congresso.

A fala de Bolsonaro e sua participação nesse ato em Brasília, no Dia do Exército, provocaram fortes reações no mundo jurídico e político.

Nesta segunda-feira, o procurador-geral da República, Augusto Aras, solicitou ao STF a abertura de um inquérito para apurar "fatos em tese delituosos envolvendo a organização de atos contra o regime da democracia participativa brasileira".

Aras não cita especificamente o presidente Jair Bolsonaro, que participou de um ato em Brasília em que se pedia a intervenção militar, mas justificou o pedido ao STF dizendo que os atos foram cometidos "por vários cidadãos, inclusive deputados federais". Cabe ao Supremo investigar pessoas com foro, como deputados.

 

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'Para derrubar Bolsonaro, só se for a bala', diz Roberto Jefferson

O petebista enxerga tentativa do Congresso de promover impeachment do presidente

Entrevista com

Roberto Jefferson

Andreza Matais, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 18h49

BRASÍLIA - Na semana em que o presidente Jair Bolsonaro aumentou os ataques ao Legislativo e ao Judiciário, o presidente do PTB, Roberto Jefferson, disse que há uma tentativa do Congresso de promover novo impeachment no País e previu uma reação à altura. “Para derrubar Bolsonaro, só se for a bala”, afirmou ele, ao citar a possibilidade de um confronto de “sangue” entre direita e esquerda. “Vai acabar tendo de ter uma intervenção até para estabilizar”, emendou, em uma referência às Forças Armadas. A análise reverbera o que pensa a ala ideológica que cerca o presidente.

Com 37 anos na política, Jefferson já foi da tropa de choque do então presidente Fernando Collor, denunciou o mensalão do PT, acabou preso e, desde então, acompanha o cenário como um espectador privilegiado. Jefferson disse não ver um ato de desespero nas atitudes de Bolsonaro, que participou domingo de um ato que pedia o fechamento do Congresso, Supremo e a destituição de governadores. “O que o Bolsonaro está fazendo? Está botando o povo na rua, mas do lado dele”, argumentou. Para o presidente do PTB, Bolsonaro só cometeu um erro ao participar da manifestação: “Não deveria ter ido de camisa vermelha.”

As declarações de Jefferson sobre uma suposta trama para derrubar o presidente Jair Bolsonaro incomodaram parlamentares de diversos partidos, que criticaram a atitude do ex-parlamentar. 

O sr. insinuou, em entrevista, que o Parlamento está preparando o impeachment do presidente Bolsonaro. Com base em que o senhor disse isso?

É uma dedução minha. Deputados estão me falando que o Rodrigo (Maia, presidente da Câmara) vai acelerar o projeto de reeleição (para os comandos da Câmara e do Senado, proibido na mesma legislatura). E as atitudes do Rodrigo mostram o confronto aberto com o Executivo. Ele dá a cabeça do Bolsonaro e ganha a sua reeleição. 

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, teria coragem de dar andamento ao impeachment de Bolsonaro?

O Rodrigo é muito habilidoso e está reunido com Fernando Henrique, Doria (João Doria, governador de São Paulo), Wilson Witzel (governador do Rio), com o presidente da OAB (Felipe Santa Cruz) e partidos de esquerda. O maestro dessa orquestra é o Fernando Henrique. A entrevista dele ao Estado de domingo é nítida. Eu era da CPI do Collor e vi bem o Fernando Henrique articular contra o Collor (Jefferson foi líder do governo Collor na Câmara). Ele sabe fazer. Ele era senador naquela época.

Quais elementos o sr. vê na entrevista do Fernando Henrique sobre isso?

O pior foi ele dizer que o governo é compartido entre Senado, Câmara e Supremo. Como o presidente não tem agenda legislativa, ele não governa. E, quando ele não governa, é passível de impeachment. Ele ainda diz mais. (Diz que) O Brasil, apesar de não aceitar culturalmente o parlamentarismo, vive um parlamentarismo branco. A entrevista dele foi o prefácio do golpe. Ele diz claramente que o presidente não tem condições de governar. Diz que o (Luciano) Huck acabou e quem cresceu foi o Doria, fazendo oposição a Bolsonaro. Ele desenha o quadro totalmente (em mensagem postada no Twitter, no domingo, FHC diz que não é bom acirrar crises institucionais). 

As declarações e atitudes de Bolsonaro mostram a reação de alguém acuado ou ele se perdeu?

O Bolsonaro não se perde. Para derrubá-lo só se for a bala. Ele é guerreiro. É leão. Não vai miar. Ele vai rugir. Eu não vejo nas atitudes de Bolsonaro um ato de desespero. Ele está buscando o apoio que precisa ter. O Fernando Henrique diz: falta de governabilidade, governo compartilhado e povo na rua. O que o Bolsonaro está fazendo? Está botando o povo na rua, mas do lado dele. A terceira perna do tripé para o impeachment que o Fernando Henrique constrói na entrevista ao Estado é o povo. Só falta o povo.

O discurso radical do presidente não afasta uma parcela do eleitorado dele?

Ele tem 36% do eleitorado. Não perdeu nada.

Mas a avaliação dos governadores começa a subir e o Luiz Henrique Mandetta, demitido do Ministério da Saúde, já tinha tanto apoio quanto ele.

O Mandetta tinha a caneta e estava dando dinheiro. Estava cooptando para o DEM governadores e prefeitos. Não poderia nem integrar esse governo.

Mas, quando o presidente participa de manifestação de quem defende medidas antidemocráticas, isso não  mostra haver uma escalada autoritária?

A escalada autoritária está sendo feita contra ele, mas com luvas de pelica. Fernando Henrique, Rodrigo Maia, com a TV Globo todo dia dizendo que o presidente é um homem do mal. Com luva de pelica eles estão dizendo que Bolsonaro não pode continuar porque chegou a um ponto que a agenda política não pertence mais a ele. Ele reage do jeito que ele sabe. Mas ele não falou em AI-5, em fechamento do Congresso ou do Supremo. Eu achei que ele não deveria ter ido de camisa vermelha. Eu não uso camisa vermelha. Ele errou nisso. Achei horrível. (risos)

O sr. tem falado com o presidente?

Nunca conversei com ele depois da eleição ou com alguém do governo.

Os militares não gostaram da atitude do presidente. Os militares ajudam ou atrapalham?

Eles sempre foram a elite do País. E ninguém faz política sem as Forças Armadas. Assim como não há Forças Armadas sem política. Dizer que militar não sabe fazer política é brincar. Mas eles têm outro pensamento. Não pensam em se locupletar. Pensam na Pátria. E Bolsonaro, apesar de tosco, se encaixa nisso. É idealista.

Até que ponto os militares apoiam Bolsonaro?

Se o Congresso fizer isso (impeachment), nós temos que ir para as ruas e apostar em qualquer jogo. E os militares vão ser chamados a agir. Se essa turma do vermelho achar que vai mudar o jogo peitando, fazendo um golpe legislativo para tirar um governo legal, vai encontrar resistência forte, à altura da agressão. E vai acabar tendo de ter uma intervenção até para estabilizar o que está ocorrendo por parte das Forças Armadas.

Intervenção militar?

Intervenção nas ruas. Aí eu não sei como vai ser. Se a esquerda fizer qualquer ação para tirar o Bolsonaro, vai encontrar a direita na rua. Vai ter sangue.

Está faltando um bombeiro para acalmar os ânimos de ambos os lados?

Não estou vendo na classe política ou no Judiciário um bombeiro. O Fernando Henrique está botando fogo. Eu ainda não consegui ver uma figura moderadora. Isso é um problema. Toda democracia precisa do seu moderador. Um grande homem respeitado, que pudesse ser um moderador, eu não estou enxergando.

O sr. acha que o gabinete do ódio intimida quem possa tentar se colocar como essa voz moderadora?

Eu não acredito nesse gabinete do ódio.

O sr. já foi atacado nas redes pelo grupo pró-Bolsonaro?

Não. Só pelo grupo da esquerda. Ninguém é unanimidade. Eu bato e apanho e acho que está ótimo (risos).

Os filhos do presidente atrapalham? O ex-presidente Fernando Henrique disse que Bolsonaro não entendeu seu papel ao colocar os filhos dentro do governo...

Os filhos do Fernando Henrique não tinham mandato. Os do Bolsonaro foram eleitos pela vontade do povo e muito bem votados.

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Bolsonaro recebe Teich no Planalto em reunião que não estava prevista na agenda

Empossado no cargo na última sexta-feira, 17, Teich deve ainda indicar novos nomes para compor a equipe do ministério

Emilly Behnke, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 15h02

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro está nesta segunda-feira, 20, com o ministro da Saúde, Nelson Teich, no Palácio do Planalto. O compromisso não estava previsto na agenda oficial do presidente para hoje e também não constava na do novo chefe da pasta da Saúde.

Teich chegou ao Planalto há cerca de uma hora e meia e segue reunido com o chefe do Executivo. Empossado no cargo na última sexta-feira, 17, Teich deve ainda indicar novos nomes para compor a equipe do ministério. Bolsonaro chegou a dizer no dia que anunciou Teich como o novo da pasta que também faria indicações.

Nesta segunda, o Planalto sedia mais uma coletiva de imprensa de atualização das medidas do Executivo no enfrentamento a crise do novo coronavírus. A Secretaria Especial de Comunicação da Presidência (Secom) informou que a participação de Teich não está prevista na coletiva. A secretaria, contudo, ainda não confirmou os nomes dos ministros participantes.

A Secom também comunicou por meio de aviso que hoje não ocorrerá a coletiva técnica do Ministério da Saúde para a atualização dos dados do avanço da covid-19 no País. A atualização com secretários da pasta ocorria diariamente durante a gestão de Luiz Henrique Mandetta, demitido na semana passada.

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Recuo de Bolsonaro após participar de ato foi pedido por militares

Presidente também recebeu recados da cúpula do Supremo sobre o perigo da escalada autoritária no País e advertências sobre o que suas atitudes têm provocado

Vera Rosa e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 13h16

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro foi alertado por militares do governo de que sua participação no ato deste domingo, 19, convocado para defender o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, não só pegou mal como expôs as Forças Armadas a uma situação constrangedora. Houve pedidos para que ele recuasse e se explicasse à população. Não foi só: Bolsonaro também recebeu recados da cúpula do Supremo sobre o perigo da escalada autoritária no País nesses protestos e advertências a respeito da leitura política que sinais emitidos por ele têm provocado.

Na saída do Palácio da Alvorada, na manhã desta segunda, o presidente tentou, então, culpar a imprensa por vincular sua participação no ato que pediu intervenção militar no País e pregou a “deposição” de governadores. Sob aplausos , ele perguntou aos jornalistas: “Onde vocês estão com a cabeça? Falta um pouco de inteligência para aqueles que me acusam de ser ditatorial”.

Bolsonaro disse que não poderia conspirar contra ele próprio. “O pessoal geralmente conspira para chegar ao poder. Eu já estou no poder. Então, eu estou conspirando contra quem, meu Deus do céu? Eu sou, realmente, a Constituição”, afirmou ele.

Apesar das declarações e até mesmo de interromper um seguidor para dizer que “aqui não tem essa conversa de fechar nada” – ao contrário do que fez neste domingo, quando se calou diante de pedidos de volta da ditadura e de um novo AI-5 –,  Bolsonaro deu uma estocada indireta no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). “O meu time não trabalha de madrugada. O meu time trabalha à luz do dia”, afirmou o presidente, convencido de que Maia age para derrubá-lo.

Na prática, o comando do Congresso e integrantes do Supremo avaliam, nos bastidores, que não há mais conciliação possível com Bolsonaro. Para políticos e magistrados ouvidos pelo Estado, a  pandemia do novo coronavírus deixou evidente que o presidente age sem consultar as instituições e não respeita nem mesmo recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Foi por isso que o Supremo decidiu, por exemplo, que  Estados e municípios têm autonomia para decretar o isolamento social.

Os militares do governo, por sua vez, receberam com alívio o passo atrás dado pelo presidente, nesta segunda-feira, 20. Até aqui havia muito desconforto com o fato de ele ter participado da manifestação do domingo diante do QG do Exército.

Para generais consultados pelo Estado, Bolsonaro muitas vezes é mal interpretado por não ter o dom da palavra. Embora condene a forma como o presidente se expressa, o núcleo militar do governo avalia que ele é movido por um “ideal patriótico” e jamais desrespeitaria a Constituição.

Na avaliação dessa ala, Bolsonaro reage com agressividade por se sentir injustiçado. O presidente sempre se queixa com militares com quem convive nunca ter havido uma oposição assim a um inquilino do Palácio do Planalto.

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'Nós não queremos negociar nada', diz Bolsonaro em ato contra STF e Congresso

Presidente volta a provocar aglomeração na tarde deste domingo, ao discursar em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília

Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 15h06

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro elevou neste domingo, 19, o tom do confronto com o Congresso e o Supremo Tribunal Federal e, diante do Quartel- General do Exército, pregou o fim da “patifaria” em uma manifestação que pedia intervenção militar no País. Com microfone em punho, Bolsonaro subiu na caçamba de uma caminhonete e fez um discurso inflamado para seguidores que exibiam faixas com inscrições favoráveis a um novo AI-5, o mais duro ato da ditadura (1964 a 1985), e gritavam palavras de ordem contra o STF e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

“Nós não queremos negociar nada. Queremos é ação pelo Brasil”, disse Bolsonaro, aplaudido por centenas de manifestantes. “Chega da velha política! (...) Acabou a época da patifaria. Agora é o povo no poder. Vocês têm a obrigação de lutar pelo País de vocês”.

Dezenas de cartazes sugeriam fechamento do Congresso e do Supremo, além de pedidos para que as Forças Armadas ocupassem as ruas. O grito de “Fora, Maia” era um dos mais ouvidos. Em nenhum momento, porém, o presidente contestou os apelos pela volta da repressão. O Estado apurou que militares reprovaram a atitude de Bolsonaro.

O protesto foi visto como preocupante por governadores, prefeitos e pelas cúpulas do Legislativo e do Judiciário, que enxergaram no gesto de Bolsonaro o sintoma de uma escalada autoritária no País, justamente no momento em que ele perde apoio e a pandemia do coronavírus se agrava. “Não temos tempo a perder com retóricas golpistas. (...) No Brasil, temos de lutar contra o corona e o vírus do autoritarismo”, escreveu Maia, no Twitter. Do outro lado da Praça dos Três Poderes, o ministro do STF Luís Roberto Barroso foi na mesma linha. “É assustador ver manifestações pela volta do regime militar.”

Ainda neste domingo, 20 governadores divulgaram uma carta em apoio a Maia e ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Para eles, Bolsonaro está “afrontando os princípios democráticos que fundamentam” a Nação.

Atos foram convocados pelo Dia do Exército

Embora Bolsonaro tenha tentado passar a ideia de que o ato foi de improviso, na esteira de carreatas pela reabertura do comércio, seguidores bolsonaristas convocaram as manifestações pelas redes sociais para comemorar o Dia do Exército. “O Brasil vai parar. Na frente dos quartéis”, dizia uma das convocações, ao pregar a “deposição” do Supremo e de governadores. Além disso, mensagens de WhatsApp traziam endereços de vários quartéis e batalhões pelo País. O texto era acompanhado das hasthags #abaixo STF e #abaixo Congresso Nacional.

Ao chegar nete domingo ao QG do Exército, por volta de 13h30 – após almoçar na casa do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), seu filho –, o presidente foi ovacionado por apoiadores. Apesar da recomendação da Organização Mundial da Saúde para que sejam evitadas aglomerações, com o objetivo de diminuir o risco de contágio da covid-19, o apelo não foi respeitado. Muitos bolsonaristas chegaram ao local em carreatas, que pediam o fim do isolamento social e a reabertura do comércio.

Bolsonaro provoca aglomeração ao discursar para multidão que pedia fechamento do congresso pic.twitter.com/IbDCLnNxMp

Presidente tossiu várias vezes

Pelo segundo dia consecutivo, Bolsonaro não poupou ataques aos outros Poderes e se empolgou com o apoio recebido. Parecia mesmo estar em um palanque de campanha. “Contem com o seu presidente para fazer tudo aquilo que for necessário para que nós possamos manter a nossa democracia e garantir aquilo que há de mais sagrado em nós, que é a nossa liberdade. Todos no Brasil têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro”, discursou ele, que tossiu várias vezes durante o ato.

Na prática, a ofensiva de Bolsonaro contra o Congresso, o Supremo e governadores que defendem a quarentena tem aumentado de intensidade na mesma proporção de seu isolamento político. Na rampa do Planalto, na sexta-feira, o presidente criticou o Supremo em transmissão ao vivo pela internet e chegou até mesmo a apontar para o prédio da Corte ao lembrar que os magistrados deram autonomia a Estados e municípios para decretarem medidas de distanciamento social. “Estão fazendo o que bem entendem”, disse ele, que também atacou o Congresso. “Não vão me tirar daqui”, afirmou.

Na noite deste domingo, Bolsonaro se reuniu com os ministros da Defesa, Fernando Azevedo; do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, no Palácio da Alvorada. Questionado sobre o tema do encontro, Heleno foi lacônico: “Falamos sobre futebol”. Pela manhã, ao ler a Ordem do Dia, o comandante do Exército, general Edson Pujol, pregou a união do País e classificou a pandemia como “uma das maiores crises vividas nos últimos tempos”.

Distanciamento

Antes de falar com os manifestantes, o presidente voltou a defender a flexibilização do distanciamento social. “A continuar com o fecha geral não está difícil de saber o que nos espera”, escreveu o presidente em sua conta pessoal no Twitter.

Bolsonaro publicou no Twitter a manchete da edição deste domingo do Estado, que informou que 91 milhões de brasileiros - o equivalente a 58% da população adulta do País - deixaram de pagar neste mês pelo menos uma das contas referentes ao consumo de março.  Como comparação, no mês anterior, antes dos impactos da quarentena, eram 59 milhões (37%) com contas atrasadas - houve, portanto, um salto de 54% no período.

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Em novo ataque a Maia, Bolsonaro compartilha entrevista de delator do Mensalão

Presidente faz 'live' enquanto assiste ao ex-deputado Roberto Jefferson falar, a blogueiros de direita, que presidente da Câmara tenta dar 'golpe'

André Ítalo Rocha e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 22h36

Depois de participar de um ato que pedia o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, o presidente Jair Bolsonaro usou a internet para continuar os ataques ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), na noite deste domingo, 19. Ele fez uma transmissão ao vivo, em que aparece assistindo a uma entrevista do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) para blogueiros de direita. Na entrevista, Jefferson, que delatou o esquema do Mensalão e foi condenado a sete anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, diz que Maia fez um acordo com a esquerda para aprovar o impeachment do presidente. 

Desde que a crise do coronavírus estourou, ao menos três pedidos de impeachment contra Bolsonaro foram apresentados na Câmara dos Deputados. Como presidente da Casa, cabe a Maia aceitar ou negar os procedimentos. Por enquanto, ele não deu nenhum sinal de que pretende levar os processos adiante. Em 17 de março, o parlamentar disse, em entrevista ao Valor, que o Congresso não deveria com um procedimento que pode aumentar a crise, como um processo de impeachment.

Na quinta-feira, 16, o presidente atacou Maia, ao dizer em entrevista à CNN que acha que a intenção do parlamentar é tirá-lo da Presidência. Em reação às críticas, Maia disse que não entraria numa disputa pública com Bolsonaro: “O presidente não vai ter ataques (de minha parte). Ele joga pedras e o Parlamento vai jogar flores”, completou. 

Segundo Jefferson, que hoje preside o PTB, o "golpe" de Maia tem duas partes. A primeira é realizar o impeachment, que ocorreria após perda de governabilidade do presidente. A segunda parte seria mudar a legislação para permitir que Maia se reeleja como presidente da Câmara. O mandato de Maia termina em 31 de janeiro de 2021, e ele não pode mais se reeleger. "Ele troca, com a esquerda, o impeachment pela reeleição. Ele dá à esquerda a admissibilidade do pedido de impeachment e depois eles votam a reeleição de Maia como presidente da Câmara", disse Jefferson, na entrevista compartilhada por Bolsonaro.

Segundo Jefferson, Bolsonaro se negou a fazer um governo de "toma lá, dá cá" e por isso haveria uma "crise de abstinência" pela corrupção. O ex-parlamentar tem caído nas graças de aliados de Bolsonaro. Uma publicação de Jeffferson foi compartilhada por um dos filhos de presidente, o vereador do Rio Carlos Bolsonaro (Republicanos), neste domingo. 

Na entrevista, feita pelo grupo bolsonarista República de Curitiba, Jefferson também fala sobre a entrevista concedida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao Estado publicada nesse domingo, na qual o tucano afirma que o Brasil vive hoje um parlamentarismo branco e que há um governo compartilhado entre STF e Congresso. O grupo República de Curitiba era um dos que estavam por trás da convocação para ato de 15 de março que também pediu o fechamento do Supremo e do Congresso, como fizeram as manifestações deste domingo.

Jefferson ficou conhecido nacionalmente após delatar o esquema de compra de votos no Congresso Nacional no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, batizado pelo próprio Jefferson de "mensalão".

Em 2012, Jefferson foi condenado a 7 anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A pena dele foi perdoada em março deste ano pelo Supremo com base no decreto presidencial do indulto natalino.

Ainda na noite deste domingo, Bolsonaro compartilhou trecho de uma entrevista de Maia à CNN, em que o parlamentar responde aos ataques sofridos no dia 16, seguida do clip de um funk que diz: "Ele é mentiroso".

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'Não sou coveiro, tá?', diz Bolsonaro sobre mortos por coronavírus

O presidente repetiu a afirmação e não comentou o registro de mais de 2500 mortes pela doença

Emilly Behnke, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 19h56

BRASÍLIA - Ao responder nesta segunda-feira, 20, à pergunta de um jornalista sobre o número de mortes por coronavírus no País, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que não é "coveiro". Bolsonaro deu a declaração no final da tarde, na portaria do Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência, enquanto conversava com jornalistas e apoiadores.

Segundo o Ministério da Saúde, até esta segunda-feira, o Brasil registrava 2.575 mortes e 40.581 casos confirmados de pessoas contaminadas pelo coronavírus. "Presidente, hoje tivemos mais de 300 mortes. Quantas mortes o senhor acha que...", perguntava um jornalista quando Bolsonaro o interrompeu."Ô, cara, quem fala de... Eu não sou coveiro, tá certo?", declarou o presidente. O repórter, então, tentou fazer novamente a pergunta. "Não sou coveiro, tá?", repetiu o presidente da República.

Pela manhã, ao sair do Palácio da Alvorada, ao fazer um comentário sobre a epidemia, Bolsonaro disse que 70% da população será contaminada e "não adiante querer correr disso".

"Aproximadamente 70% da população vai ser infectada. Não adianta querer correr disso. É uma verdade. Estão com medo da verdade?", afirmou. No mês passado, após voltar de um passeio por Brasília, Bolsonaro disse que todos vão "morrer um dia" e que para se enfrentar o vírus é necessário agir "como homem".

Essa é uma realidade, o vírus 'tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra. Não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Todos nós iremos morrer um dia.

Cloroquina

Questionado se na reunião de hoje, o presidente discutiu com Teich o uso da cloroquina, Bolsonaro disse que o novo ministro é pesquisador e que ele "não aposta fichas 100% em lugar nenhum".

"Ele (Teich) acha que a droga que tiver que usar agora – a droga não, remédio – que possa realmente curar ou evitar que a pessoa seja entubada ele não tem nenhuma oposição a isso aí”, afirmou.

Na chegada ao Palácio da Alvorada, quando parou para falar com jornalistas, Bolsonaro também disse que "torce e pede a Deus" que algo de concreto apareça como a solução para o tratamento de pacientes com o novo coronavírus.

"Pode ser que apareça algo melhor que a hidroxi (cloroquina), mas até o momento é uma possibilidade sim, mas tem uma interrogação", disse. As recomendações do uso da hidroxicloroquina foi amplamente defendida pelo presidente antes da saída do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta. O chefe anterior da Saúde pedia cautela na prescrição do remédio, que ainda não tem eficácia comprovada cientificamente.

Flexibilização

Bolsonaro afirmou que  Teich quer avaliar os número do novo coronavírus no País antes de decidir sobre orientações de flexibilização de medidas de isolamento. 

As divergências sobre as indicações de distanciamento social, recomendadas por autoridades sanitárias, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), para conter a propagação do coronavírus e o posicionamento do presidente, que pede reabertura de comércio e a volta de aulas, contribuíram para a saída de Mandetta do ministério. 

Bolsonaro e Teich se reuniram hoje no Palácio do Planalto para um encontro "rápido", segundo o mandatário. "Ele está arrumando nomes para compor o Ministério. Ele é uma pessoa bastante equilibrada. Ele quer se inteirar dos números para poder realmente em cima de números concretos traçar uma diretriz para que lado ele vai", disse na chegado ao Palácio da Alvorada.

O presidente destacou que Teich também é economista e, por isso, foi um bom nome para estar na liderança da pasta. O chefe do Executivo afirmou que tem apenas uma indicação de composição do corpo técnico que Teich deverá organizar. "Ele vai fazer o ministério dele. Mas assim como todos os ministros, eu tenho poder de veto", ressaltou.

Bolsonaro comentou ainda sobre as medidas de flexibilização adotadas pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM). "Flexibilizou bastante", disse. Ele citou também ter conversado com Ibaneis Rocha (MDB), governador do Distrito Federal, para analisar a reabertura de colégios militares e cívico-militares a partir de segunda-feira, 27.

Sobre a agenda do dia, Bolsonaro mencionou ter se reunido hoje com o ministro da Economia, Paulo Guedes. "Também conversei com Paulo Guedes hoje. A intenção nossa é ajudar. Mas ajudar até quando? Os governadores tem que sinalizar também", declarou, mas sem detalhar o que os chefes estaduais precisam indicar para o governo.

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