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‘Já gastei o meu estoque de ministros, não tenho mais’, diz Olavo de Carvalho

Filósofo afirma que Bolsonaro e os filhos têm ‘boa vontade’ com ele, mas ‘não há um acordo ideológico’

Entrevista com

Olavo de Carvalho, filósofo

Beatriz Bulla / Correspondente, O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2018 | 05h00

WASHINGTON - Responsável por indicar dois ministros do novo governo - o de Relações Exterioes, Ernesto Araújo, e o da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez -, o filósofo Olavo de Carvalho rejeita o rótulo de ideólogo do presidente eleito, Jair Bolsonaro. “É lenda urbana”, disse. Em entrevista ao Estado, ele afirmou que há uma “dominação comunista” na educação brasileira e defendeu que seja feita uma “reunião de provas” sobre isso. Por isso, disse que é ingenuidade levar o projeto Escola sem Partido para debate no Congresso e que “uma guerra cultural se vence no campo cultural”. Olavo de Carvalho, que há 13 anos mora em Virgínia, nos Estados Unidos, criticou ainda a imprensa brasileira e falou que a eleição de Bolsonaro “tem de ser respeitada”.

Seu pensamento tem influenciado as decisões do novo governo, mas o senhor tem dito que teve pouco contato com o presidente eleito.

Conversei com ele exatamente três vezes, por telefone. O Eduardo (Bolsonaro) esteve aqui uma vez e o Flávio (Bolsonaro) esteve uma vez.

Eduardo Bolsonaro virá aos EUA na semana que vem. Pretende se encontrar com ele?

Eu espero que sim, se ele tiver tempo e puder dar uma esticada na viagem até aqui será um prazer recebê-lo.

Ele fez algum contato?

Que eu saiba, não.

Tivemos dois ministros definidos a partir de indicação do senhor. Há mais indicações suas?

Já gastei o meu estoque de ministros, eu não tenho mais nenhum no bolso (risos). Infelizmente não tenho mais ninguém.

Para falar das áreas com ministros que passaram pela sua indicação, como o ministro das Relações Exteriores. O assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, viaja nesta semana ao Brasil e Eduardo Bolsonaro viaja para os Estados Unidos. Como o senhor imagina a aproximação entre EUA e Brasil e como o País vai se colocar no cenário internacional, tendo a China como importante parceiro comercial?

O presidente (Donald) Trump disse que tem US$ 267 bilhões esperando para investir no Brasil, eu acho que isso é muito bom. Não adianta nada dizer “ah, isso vai desagradar a China”, como disse aquele idiota do Mino Carta, “ano passado o comércio com a China nos deu 20 milhões de superávit”, muito bem. A China só fez isso porque o governo Lula e Dilma e o Temer também estavam distribuindo dinheiro para os amigos deles, os amigos da China: Cuba, Angola, Venezuela, etc: 1 trilhão. Levamos 20 milhões e distribuímos 1 trilhão. Que beleza, né? Claro que se o governo parar de representar vantagem política para a China, acaba o comércio na mesma hora. Comércio com a China é escravidão. Isso é óbvio e todo mundo deveria saber disso. Vai perguntar para o Tibet se é bom conversar com a China. Agora, para os EUA, é bom, porque a riqueza da China é quase feita toda de dinheiro americano. Outra coisa, tem gente que chega a ser tão idiota que ultrapassa a medida do acreditável. Por exemplo, Mino Carta acha ruim comerciar com Estados Unidos e acha que deve comerciar com a China. Mas a China só quer saber de comerciar com os Estados Unidos, meu Deus do céu. Por que os EUA é bom para a China e é ruim para nós? Essa coisa anti-americana pueril é coisa de estudantezinho comunista de 1950, naquele tempo havia um livrinho que os comunistas distribuíam, a Editora Brasiliense, que é comunista para caramba, chamado “um dia na vida do Brasilino” e tudo o que ele consumia era americano. Só que se você retirasse todos aqueles produtos, o Brasilino retornaria à Idade da Pedra. Tem essa mentalidade ainda. É encrenquismo. Agora encrenquismo com a China não tem, embora estejamos de fato entregando tudo para a China. Essa burrice já passou do limite no Brasil. Hoje o Cristovam Buarque diz uma coisa que prova que ele não tem capacidade para ser professor de ginásio. Ele diz: soviéticos e nazistas tentaram o Escola sem Partido e não deu certo. Como você diz uma coisa dessas? Isso quer dizer que a educação na União Soviética era sem partido? E o Partido Nazista também não ditava as regras de educação? Não tinha uma doutrina pronta? Como esse idiota faz uma coisa dessas e o pessoal ainda chama de educador? Não, ele não é um educador, é um destruidor de educação nacional. Esse homem foi ministro e todos os ministros de Educação dos últimos 50 anos são culpados da destruição da educação nacional. Esse sujeito deveria calar a boca e nunca mais abrir a boca. Esses são ídolos da mídia, a mídia adora. É uma espécie de máfia, eu falo bem de você e você fala bem de mim. Então tem os intelectuais queridinhos da mídia. Você leu O Imbecil Coletivo?

Não.

Então leia, você vai ver que todos os camaradas que nos anos 1990 falavam de mim, o que esse pessoal da mídia fala hoje, todos eles estão esquecidos, jogados na lata do lixo. E os que estão falando hoje também serão jogados na lata do lixo. Só que eles acham que vão ser imortais. Acham que vão sobreviver à minha obra. São loucos? Não sabem com quem estão lidando, porra. Eu sou um escritor de envergadura universal, esses caras são uns jornalistinhas de merda, saíram da faculdade ontem, porra. E quer discutir comigo? Ah, que coisa ridícula. O meu prestígio vai crescer e o deles vai sumir. Por que estão entrando num confronto em que só podem ser ridicularizados? A mídia não tem credibilidade alguma. Você vai averiguar a tiragem do Estadão é menor do que a que tinha nos anos 1950. O que ficam botando banca se esses órgãos estão todos perdendo crediblidade rapidamente? Todos apostaram na derrota do Bolsonaro e todos passaram vergonha. Ainda querem continuar passando vergonha? Por quê? Por que vem pedir para mim, para eu os envergonhar? Eu não quero humilhar ninguém, mas os caras dão a cara a tapa, fazer o quê?

O que quer dizer com a aposta na derrota do Bolsonaro?

Todos os comentaristas diziam que era impossível se eleger. Não teve um que dissesse “o Bolsonaro tem chance”. Nenhum disse. Mas diziam isso baseado no desejo, não numa análise objetiva. Que eu saiba, que previu a vitória do Bolsonaro só eu e o Filipe Martins, que aliás é meu aluno. A mesma coisa no Trump. Todos esses sábios da mídia brasileira dizendo “vai dar Hillary na cabeça”. Vai dar na cabeça deles, isso sim. Bando de idiota. Gente analfabeta. É analfabeto funcional grave. Hoje, na mídia, você não pode fazer uma piada que as pessoas entendem em sentido literal. Ou é sinal de doença mental ou de analfabetismo funcional, coisa boa não é. Estão todos assim, meu Deus do céu. O que aconteceu? Aconteceu 50 anos de propaganda comunista na orelha, sem o devido contraste para poder pensar. Outra coisa: só admite discussão padronizada, então você tem os progressistas de um lado e os conservadores do outro, essas duas linhas de pensamento, não admite as diferenças. Então para quê você precisa dos filósofos se você já tem as ideologias prontas? Vocês vêm me entrevistar e pensam “esse aqui é o representante do pensamento conservador”. Pensamento conservador é a mãe deles. Eu tenho o meu pensamento, minha ideia, minha filosofia está registrada em livro. Por que não leem o livro para depois conversar comigo? E não querer que eu seja enquadrado nessa porcaria que eles pensam de pensamento conservador. Você é a 20.ª pessoa que vem me entrevistar e sempre com a mesma expectativa: de que eu represente o pensamento conservador, o pensamento da extrema direita. Que estupidez é essa?

Não tenho a expectativa que o senhor represente o pensamento da extrema direita. Quis entrevistá-lo porque o seu pensamento influencia o novo governo. O sinal são os dois ministros nomeados a partir das suas indicações.

Eu escrevi livros que foram aplaudidos pelas maiores inteligências do mundo. Gente de primeiríssima ordem. Ninguém na mídia liga. De repente eu indico dois ministros e pronto. Isso já é uma palhaçada. Pessoal só se interessa pela coisa superficial do dia. E a contribuição que o homem está fazendo para o pensamento profundo não interessa.

Em uma entrevista em 2016 o senhor fala que foi o “parteiro” de uma direita. O senhor coloca o governo Bolsonaro dentro dessa direita da qual se define o parteiro?

É um governo de direita sem dúvida, mas a mídia inteira está escandalizada por haver um governo de direita. Isso quer dizer que não pode ter um governo de direita? Só pode ter de esquerda? E eles chamam isso de democracia? Há 20 anos disse: o PT não está disposto a suportar o rodízio de partidos no poder. Ele quer ficar para sempre. E toda a mídia é cúmplice nisso, porque eles não aceitam que haja um governo de direita. Nos EUA, você tem um governo de direita e pode ter um governo de esquerda. Todos os países decentes do mundo são assim. No Brasil não pode? Só pode ter esquerda? Em duas eleições todos os candidatos eram de esquerda e o Lula celebrou isso como se fosse a perfeição da democracia. Toda a mídia – Estadão, Folha, O Globo –, todos eles pensam assim: o governo de esquerda é a perfeição da democracia. Agora você sabe por quê? Todas as pesquisas demonstram que 70% a 80% dos brasileiros são cristãos conservadores. Em um País de maioria cristã conservadora você não tem um partido cristão conservador? Um jornal cristão conservador? Uma universidade cristã conservadora? Uma estação de TV? Uma estação de rádio? Nada. A maioria dos País está excluída de representação política e os caras consideram que isso é a perfeição da democracia. Estão brincando comigo? O Bolsonaro é a representação da vontade popular e tem que ser respeitada, o pessoal da mídia tem que calar a boca e aceitar a realidade das coisas, aceitar que o rodízio do poder é a essência da democracia. Eles não entendem isso, acham que democracia é o governo deles.

Começamos a falar sobre a China e mudamos de assunto: defende que o Brasil se distancie da China como parceira?

Para conversar com a China tem que falar grosso, porra. Tem que ser toma lá, dá cá. E não é isso que está acontecendo, eles estão dando tudo para a China. Estão entregando. É o entreguismo mais descarado que eu já vi na minha vida. Se os americanos fizessem o que a China está fazendo conosco, haveria uma revolução no Brasil. Os caras entregam tudo para a China a preço de banana e ainda dão dinheiro para os parceiros da China. Você acha que esse dinheiro que deram para Cuba, Venezuela, Angola, vai voltar algum dia? Nunca vai voltar. Essas grandes nações comunistas que foram a União Soviética e a China vivem do roubo e do saque. Vocês não perceberam ainda, não? Vou contar alguns episódios que as pessoas não sabem. Durante a Guerra Civil Espanhola, os russos chegaram na Espanha, pegaram todas as reservas estatais de ouro dizendo que era para protegê-las e levaram para Moscou. Nunca devolveram um tostão. Nunca.

O embaixador Ernesto Fraga Araújo vai falar grosso com a China como o senhor defende?

É claro. Tem que ser uma paridade como qualquer negociação. Tem que ver o que é do nosso interesse, o que é do interesse deles e tem que ter uma troca equitativa. Também não tem que esperar que a China nos apadrinhe, seja nossa mãe.

Quando começou sua relação com o embaixador Ernesto Fraga Araújo?

Não faz muito tempo, um ano, um ano e pouco. Ele esteve aqui em casa com um amigo meu e comecei a ler os artigos dele. Fiquei impressionadíssimo. Ele é capaz de fazer análises que a nossa mídia inteira não é capaz de fazer. Estão achando ruim com ele, por que não vão discutir com ele? Porque não têm capacidade. Você acha que esse pessoal de mídia... pega os colunistas do Estadão. Tem algum capacitado para discutir com Ernesto Araújo ou comigo? Estão brincando, porra. Um bando de moleque. Coitadinhos. Eu tenho a fama de bater nos caras que vêm debater comigo. Quando eu me defrontei com Cristovam Buarque eu fiquei com dó dele. Falei “esse cara é muito burrinho e não vou nem humilhá-lo. Vou passar a mão na cabeça dele para ele não se sentir mal”. E fiz isso. Era incapaz demais, gente. Olha a entrevista que ele deu hoje. Ele não passa num exame de ginásio se ele disser uma coisa dessa, dizer que o sistema do Escola sem Partido, que o aluno pode objetar o que o professor diz foi adotado na União Soviética e na Alemanha Nazista. Eu digo ora, vai lamber sabão velho burro.

Sobre o Escola Sem Partido. O senhor critica que isso seja encampado como mudança legislativa, o que defende então?

O Escola Sem Partido se tornou objeto de discussão e o problema do qual ele trata sumiu da discussão. O problema é a dominação que os comunistas exercem na educação brasileira, dominação tirânica, onipresente, que proíbe qualquer objeção e esconde as ideias do opositor. Esconde mesmo. Qual o primeiro ponto? Reunir as provas e escrever um trabalho científico a respeito. Não começar propondo um projeto de lei absolutamente ridículo. Os fundadores do Escola Sem Partido são meus amigos, pessoas pelas quais tenho muito respeito e carinho, mas é preciso ser um amador para tentar vencer uma guerra cultural com um projeto de lei. Uma guerra cultural se vence no campo cultural: chamando os caras para a briga, demonstrando que são uns bananas, uns coitados, calando a boca deles com argumento. Você conhece um tal de Dicionário Crítico do Pensamento de Direita? Eu escrevi um artigo a respeito. Os caras se propõem a apresentar um pensamento da direita. Quando você vai ler o dicinário, todos os pensadores importantes da direita estão ausentes e no lugar deles colocaram meia dúzia de nazistas absolutamente alucinados. Eles escondem as ideias do adversário e ainda colocam falsificação no lugar delas. É uma obra coletiva feita por 104 professores universitários subsidiados com dinheiro público. Para mim, todos esses são estelionatários. Para quê você precisa de um projeto de lei para aplicar a lei existente? Claro que isso é um estelionato. Está enganando a pessoa. Está prometendo uma coisa e dando outra. Mas isso foi em 2000. Imagina o quanto essa dominação comunista se ampliou nesses anos. E na mídia inclusive, na mídia aumentou muito, muito, muito. A mídia se tornou absolutamente intolerante com qualquer coisa que não venha da esquerda. E você mesma é testemunha disso. Você vê o que estão falando do Ernesto Araújo, do Bolsonaro. A hipótese de um governo de direita é inaceitável.

A mídia foi e é criticada por setores da esquerda...

Não, você está enganada. Foi criticada quando começou a noticiar os casos de corrupção. Objeção política e ideológica à esquerda a mídia jamais teve. Nada, nada, nada. Porém quando um dos caras começa a roubar e denuncia, que é uma coisa que até na União Soviética acontecia não é luta ideológica, meu Deus do céu, isso é disputa interna da própria esquerda. Aí é evidente que o esquerdista vai, se tem que xingar o outro esquerdista, vai xingar de quê? De direitista. Trótski não era xingado de agente do imperialismo por Stálin? E assim por diante. O Fidel Castro quando mandava fuzilar um dos seus companheiros de revolução dizia que era um agente do imperialismo. Quando eu fui contratado pelo O Globo, o Luiz Garcia, já falecido, deu uma entrevista confessando. "Naquela época, no Globo, tínhamos só colunistas de esquerda e estava dando na vista, então decidimos contratar um da direita, um”. Tinha 100 de esquerda. Contrataram um da direita para tirar a má impressão. O que é isso aí? É manipulação. Ele disse isso quase 20 anos atrás. A esquerda tem o monopólio da mídia brasileira, o monopólio. Sempre tem um ou outro de direita moderada para tirar a má impressão. O que é isso? É manipulação. As organizações de mídia são todas organizações criminosas e sabem perfeitamente que o pessoal do PT está ligado com as Farc, com contrabando, e estão apoiando.

Organizações de mídia são organizações criminosas?

Você não entendeu ainda, é? O PT dirige, dirigiu durante anos, o Foro de São Paulo, em parceria com as Farc, que são organizações criminosas, que inoculam 200 toneladas de cocaína por ano no Brasil. E estavam os dois lá de mãozinhas dadas dirigindo o Foro de São Paulo, que é a coordenação estratégica da esquerda no continente, e a mídia apoiando e acobertando e escondendo a existência do Foro de São Paulo. Durante 16 anos todos – Estadão, Folha, Globo, Veja – esconderam a existência do Foro de São Paulo. Esconderam, quando não negaram. E me chamavam de louco. Só pararam com isso quando, no terceiro congresso do PT, o próprio PT reconheceu que o Foro de São Paulo era coordenação estratégica do comunismo na América Latina. São todos cúmplices e todos organização criminosa, sim, estão acobertando a maior trama criminosa da história da América Latina, que é o PT e Farc.

Queria voltar a falar da Escola Sem Partido.

Avisa o Estadão: se quiser me processar, eu vou no tribunal e provo isso aí. E se brigar comigo vai perder, porque eu tenho mais leitores do que o Estadão.

Sobre a Escola Sem Partido. Nas suas palavras “uma guerra cultural se vence no campo cultural”. É viável tratar a educação como guerra?

Quem inventou a utilização da educação como guerra foram os comunistas, foi Antonio Gramsci, e já estão aplicando isso há décadas. E aí, se você reage, é você que está fazendo a guerra? Não. A guerra começou há muito tempo. Ele via toda a educação a serviço do partido, que ele chamada o 'intelectual coletivo'. Isso foi aplicado no Brasil mais do que em qualquer outro lugar do mundo. O Gramsci chegou a ser o autor mais citado em trabalhos universitários no Brasil. Eles estão fazendo isso há 50 anos. Durante o governo militar, os esquerdistas já dominavam a mídia inteira. Você não tinha um jornal chefiado por um cara de direita, nenhum. E os colunistas de direita foram sendo removidos um por um. Isso no tempo dos militares. A anormalidade, quando dura bastante, o pessoal não percebe mais que é anormal, começa a achar que é normal.

O que significa “reunir as provas” no âmbito do Escola sem Partido?

Nós temos indícios de que o fenômeno da dominação comunista está presente, mas nós não temos a prova científica. Presta atenção. Nós temos indícios suficientes. Mas a prova científica seria o seguinte. Em primeiro lugar, seria preciso levantar todas as teses levantadas na área de filosofia e ciências humanas, em todas as universidades, nos últimos 40 anos, e você vai ver a onipresença de autores marxistas ou influenciados pelo Marx. E só. Não tem mais nada. É só isso que tem. Então você tem o discurso monopolístico sendo repassado tese em cima de tese. Isso dá para provar quantitativamente, só que é o seguinte: alguém tem que pegar as teses e verificar uma por uma. Pior ainda, é possível provar que o número de analfabetos funcionais produzindo teses universitárias e sendo aprovados têm aumentado ao longo dos anos. Eu mesmo tenho alguns exemplos, pego de vez em quando uma tese para examinar e mostro “o autor é analfabeto funcional por isso, por isso e por isso, não poderia ter recebido jamais o seu certificado universitário”. E está lá o rapaz fazendo propagandinha comunista e sendo aprovado. Isso é um escândalo, como vocês não percebem.

Mas a partir desse entendimento qual a proposta? Limitar quais autores poderiam ser citados numa tese universitária?

Eles que estão limitando. Eu estou querendo abrir. (Exalta o tom da voz) Não brinque com isso. Quer me fazer de palhaço? Peça desculpa pelo o que você falou. Quer insinuar que eu quero limitar o número de autores?

Eu fiz uma pergunta.

Peça desculpas já ou eu lhe meto um processo. Estou com o saco cheio da mídia brasileira. Não brinque.

Eu queria fazer uma pergunta e refaço como pergunta, não como insinuação. Qual a saída a partir do momento que se faz esse levantamento proposto pelo senhor?

Isso tem que ser discutido em público e esses autores têm que ser desmoralizados no campo cultural um por um. Medidas judiciais não adiantam, interferência de governo não adianta. Guerra cultural é cultural. Guerra cultural é vencida por intelectuais, não por legisladores, não por advogados, não pela polícia. E esse é o erro fundamental do Escola sem Partido, que eles cometem por ingenuidade. Não são pessoas que conhecem marxismo suficiente, estratégia comunista, são apenas cidadãos brasileiros que estão chocados com uma situação que é chocante mesmo e em desespero inventam uma medida qualquer “Ah vamos mudar os cartazinhos para avisar os alunos”. Isso não adianta nada. Você com um cartaz colado na parede pode concorrer com a influência diária do professor que está lá falando com eles o tempo todo? Não pode. Isso aí é uma bobagem. Agora, o erro que cometem por ingenuidade está sendo usado para acusar de uma coisa que eles não fazem “Ah isso é controle fascista”. Que palhaçada é essa?

O senhor fala em guerra cultural: quais as que o novo governo encampará?

O governo não pode empreender guerra cultural. Guerra cultural se faz formando intelectuais capacitados, que é o que eu estou fazendo. Tenho 5 mil alunos no Brasil, alguns já estão em posição de destaque no meio cultural: o Felipe Moura Brasil, o Filipe Martins, outros. É no campo da discussão que temos que desmoralizar essas pessoas. Trata-se de mostrar que certas pessoas não estão qualificadas para opinar, são analfabetos funcionais diplomados indevidamente por professores interessados em promover o comunismo. O professor comunista defende o aluninho comunista e dá um diplominha para ele, embora ele seja um analfabeto funcional. Isso aí é estelionato.

A partir do momento que intelectuais com ideias ligadas a estas fazem parte do governo, isso pode ser uma discussão dentro do governo. Por exemplo, com os novos ministros da Educação ou de Relações Exteriores, indicados pelo senhor.

Quando alguém assume um ministério, sacrifica sua carreira intelectual. Não vai poder exercer o trabalho intelectual durante o tempo que está no ministério como exercia antes, não vai dar. Isso não é um assunto para funcionários públicos, é um assunto para intelectuais independentes. Agora, se você juntar toda a intelectualidade esquerdista brasileira e botar para discutir comigo, ela perde, como vem perdendo há 30 anos. Sempre que o sujeito se mete comigo, sai de quatro chorando e chamando mamãe. Ficam com raivinha e ficam falando mal pelas costas. Não têm coragem de fazer um confronto direto.

Queria voltar no início da resposta. Se um ministro sacrifica sua carreira intelectual, quer dizer que eles adotarão posturas mais pragmáticas e menos ideológicas?

Me parece que sim. Não há outro jeito.

O que isso significa em política externa ou educacional, por exemplo?

Não tem jeito de conduzir política externa na base ideológica, isso é impossível. Há interesses de ordem econômica, militar, tem que levar tudo isso em conta. Mas isso você tinha que dizer para os ministros do Lula. Quando eles estavam lá socorrendo Angola, Cuba, Venezuela, isso era puramente ideológico. Por motivação ideológica, adotaram políticas econômicas, diplomáticas desastrosas, suicidas. Vai cobrar deles e não de nós. Nós não fizemos isso e não vamos fazer.

Uma curiosidade: já se encontrou com (o  ex-estrategista de campanha de Trump) Steve Bannon nos EUA?

Não. Vou dizer uma coisa que deveria ser óbvia. As opiniões políticas que um filósofo tenha em razão dos acontecimentos do dia devem ser interpretados em função dos princípios mais permanentes de sua filosofia. Isso é uma regra universal. Se você não conhece princípios do existencialismo, você não vai poder entender o que o Jean Paul Sartre está falando sobre aquilo que aconteceu. Agora, todo mundo vem me entrevistar e não quer saber, não leu meus livros, não sabe o que eu penso, inventam um Olavo de Carvalho que é a imagem do que eles chamam da direita e raciocinam a partir daí. Estão conversando com o estereótipo que eles mesmos inventaram. Não se manda uma pessoa sem preparo filosófico para entrevistar um filósofo, um repórter sem cultura literária entrevistar um escritor.

Para não partirmos de estereótipos, como o senhor define o seu pensamento para essa entrevista e no que isso se alinha com o governo do Bolsonaro, pelas conversas que já tiveram?

Eu não sei onde se alinha com o pensamento do governo. Eu realmente não sei. Eu sei o seguinte: parece que o Bolsonaro e os filhos dele leram algo do que eu escrevi e concordaram. Não sei até onde e o quanto eles leram, mas são pessoas de boa vontade para comigo e me tratam muito bem. Isso é tudo o que eu sei. São pessoas pelas quais tenho simpatia pessoal. Não há um acordo ideológico, não houve um diálogo ideológico nenhum. Aliás, se pensar, qual é a minha ideologia? Eu não tenho nenhuma. Eu tenho ciência política. Agora o pessoal fala “ideólogo deles”, isso é tudo lenda urbana inventada por menino, coisa pueril, boboca.

Conversaram três vezes por telefone. Uma na época da facada...

Outra quando ele foi eleito. Ele me telefoneu, no entusiasmo do momento. Isso é tudo.

E a terceira?

Não lembro, mas foi há mais tempo. Agora tivemos um hang out – Eu, Bolsonaro, não lembro quem mais, tinham umas quatro pessoas online. Discutimos algumas ideias, eu acho que falei da guerra cultural. Eles leram meus livros, viu? Pelo menos O Imbecil Coletivo eles leram.

O que havia de interesse seu em passar para ele e dele em saber do senhor?

Não me lembro mesmo. Mas as minhas opiniões a respeito do Brasil estão expressas, impressas. Eu tenho uma coleção chamada Cartas de um Terráqueo, de oito volumes. As minhas ideias sobre o Brasil estão todas lá. Não vou resumi-las em dez minutos. O repórter tem obrigação de ler isso. Fui entrevistado por dezenas de repórteres. Algum deles tinha lido isso? Nenhum. Chega aqui igual uma criança recém-nascida.

Posso ter lido outras ideias suas que não o Imbecil Coletivo.

Sabe sobre as minhas ideias escrito por quem?

Pelo senhor, nas suas manifestações, seus vídeos, suas entrevistas.

Leu post no Facebook, não meus livros. Se você fosse entrevistar o Jean Paul Sartre, entrevistaria pelo que ele escreveu ou do que ouviu falar?

Não se trata de ouvir falar, mas de pesquisa.

Pesquisa no departamento de pesquisa do Estadão? Faz-me rir, esses caras não leem livro nenhum.

Quero voltar às perguntas sobre os ministros. Qual sua relação com o Ricardo Vélez?

Conheço há 30 anos. Eu o encontrei várias vezes no Instituto Liberal, no Fórum da Liberdade no Rio Grande do Sul, tive várias conversas com ele, conheço o trabalho dele. E ele eu fui vendo que era o sujeito que mais entendia de pensamento brasileiro no mundo. É uma coisa absolutamente incomparável. O cara nasceu na Colômbia e chega lá e conhece todos os autores do pensamento político.

Pretende se encontrar com Bolsonaro no Brasil ou gostaria de recebê-lo?

Minha filha, não pretendo influenciar o curso das coisas de absolutamente nada, eu só respondo o que me perguntam. Eu não estou aqui para fazer política mesmo, mesmo. Eu não tenho nenhuma ambição nem gosto por essa porcaria. Quando me ofereceram ministério eu falei “Eles querem ferrar com a minha vida, porra”. Eu como escritor sou um homem muito feliz, sou o que eu queria ser quando era criança. Eu queria ser um escritor, escrever coisas boas, coisas úteis e ter um montão de leitores. Pronto. Taí. O que mais eu posso querer? Um ministério? Um carguinho público? Uma coluna no Estadão? (risada) Vocês estão brincando comigo, porra. Eu não quero mais nada, estou feliz.

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