Gabriela Biló/ Estadão
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Tique-taque

Pressão das 12 badaladas do auxílio emergencial mexe com Bolsonaro

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 03h00

Jair Bolsonaro se mostrou em todo o seu nervosismo nos últimos dias. Claro que há momento de descontração, em que o presidente da República faz “au-au” acompanhado de cãezinhos numa solenidade no Planalto, mas, como ele diz, “o tique-taque está correndo”. São as 12 badaladas do auxílio emergencial que se aproximam. E, depois que elas soarem, a carruagem da popularidade pode virar uma abóbora desajeitada.

A ansiedade do presidente com o iminente fim do auxílio sem que, até aqui, se tenha construído uma proposta sustentável para perenizar uma transferência maior de renda aos mais necessitados e carimbá-la com uma marca bolsonarista fica evidente em apelos como o desta terça-feira.

Como sempre faz, graças ao caráter bastante raso de suas reflexões, Bolsonaro deixou claro o que o aflige ao dizer que mercado, empresários, imprensa e Congresso não deveriam criticar cada proposta que o governo tenta para solucionar o problema da renda. Sabe que está num beco sem saída em que, se ficar, a queda da renda pega; se correr, o bicho do teto de gastos come.

Com pressa, Bolsonaro está visivelmente espremendo Paulo Guedes. O ministro, que se notabilizou por fazer previsões de datas para feitos grandiosos de sua pasta que nunca se realizam, sai esboçando ideias que não se concatenam umas com as outras e não param de pé.

Faltam apenas dois dias para um desses prazos furados: em 90 dias, disse Guedes em 5 de julho, o governo faria privatizações de quatro grandes empresas. Quais? Nada chegou nem a tentar sair do papel. O responsável pela área, Salim Mattar, deu linha na pipa porque não tinha o que fazer. 

Agora, Guedes, que tinha sido proibido por Bolsonaro de falar em Renda Brasil, foi instado a voltar a falar no assunto. Deram um outro nome para não ficar tão feio: Renda Cidadã. A cidadania, vejam só, é pedalar com o dinheiro da educação básica na esperança de furar o teto sem ninguém ver e postergar o pagamento de dívidas judiciais (o nome por trás da difícil palavra precatório) para deixar a bola de neve para as futuras gestões.

Por uma aula de spinning muito menos animada que esta Dilma Rousseff desceu a rampa do Planalto quase dois anos antes da hora.

E a reforma tributária, que poderia desonerar salários, racionalizar tributos e, até, criar novas receitas para a tal Renda Cidadã caso o ministro conseguisse explicar a volta de uma versão digital da CPMF? Até agora ainda está no mesmo escaninho das privatizações em 90 dias: o das ideias em busca de um projeto.

E o tique-taque está correndo, como Bolsonaro bem sabe.

O presidente sentiu o gosto do aumento da popularidade em plena condução tenebrosa da pandemia graças, em grande parte, ao auxílio emergencial. Prorrogado até o fim do ano, em valores reduzidos, o benefício deixará órfãos 65 milhões de brasileiros, nas contas da propaganda que o próprio Bolsonaro fez na ONU.

Não adianta cobrar gratidão retroativa de quem vai ficar “sem ter o que comer”, como o presidente disse no seu show de sinceridade nesta terça.

Mas resta pouco tempo para se construir uma proposta séria de transferência de renda sustentável. Para isso, o governo precisa assumir uma negociação realista sobre o teto de gastos, que o Congresso está disposto a fazer, anunciar cortes em outras áreas menos importantes (que tal o aumento dos investimentos na Defesa, para começar?) e, se for o caso, dizer que vai criar um tributo e trabalhar sério, sem esse jogo de vaivém, para viabilizá-lo.

Para tudo isso não adianta nada mimimi de um presidente acuado pelo tique-taque Também não se trata de fazer como no “meio militar”. E, sim, de agir como um presidente da República: liderando sua equipe e negociando com o Congresso igualmente eleito.

*EDITORA DO BR POLÍTICO E APRESENTADORA DO PROGRAMA RODA VIVA, DA TV CULTURA

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