Time de não-petistas ganha força entre os conselheiros do presidente

Eduardo Campos, Sérgio Cabral, Delfim Netto e Geddel integram grupo dos novos companheiros de Lula

Vera Rosa, O Estadao de S.Paulo

12 de abril de 2008 | 00h00

Na comitiva da viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Holanda e à República Tcheca, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), ouviu um desabafo. Lula está inconformado com o bombardeio na direção da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff - alvo dos adversários após o vazamento do dossiê com dados secretos do governo Fernando Henrique -, e contrariado com o retorno do terceiro mandato à cena política. A relação entre o presidente e o governador ultrapassa as fronteiras administrativas: Campos compõe o time dos interlocutores que Lula consulta, na alegria e na tristeza, fora do PT.Com 43 anos, o governador de Pernambuco é o mais moço desse grupo de companheiros não-petistas. O mais velho é Delfim Netto, prestes a completar 80, hoje conselheiro da TV pública. A lista inclui, ainda, o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), e um ex-inimigo: o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, deputado licenciado do PMDB."Esse menino quer me lançar candidato ao Senado por Pernambuco, em 2010", avisou Lula, no início do ano, ao governador do Ceará, Cid Gomes, que também é do PSB. A referência era a Campos, que foi ministro de Ciência e Tecnologia e é chamado por Lula de "menino de ouro". "Por isso não. Pode ser pelo Ceará também", devolveu Cid, enciumado.A proposta da candidatura ao Senado não é levada a sério pelo presidente, mas o neto de Miguel Arraes vira-e-mexe toca no assunto."OUVIDO DIREITO" Numa conversa mantida em março, no seu gabinete, Lula falava sobre a nova safra de políticos eficientes quando, de repente, citou Campos, Cabral e Geddel. "Eles levam tudo o que tenho e eu ainda acho bom", brincou. No Rio, por exemplo, Cabral ganhou obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que somam mais de R$ 1 bilhão.A exemplo de Campos, o governador fluminense freqüenta a lista dos cotados para ocupar a vaga de vice na chapa presidencial que terá apoio do Planalto, em 2010. Mesmo à noite, fora do expediente, Lula e ele trocam telefonemas para bater papo. Aos 45 anos, Cabral vive dizendo que Lula é "quase um pai". E faz tudo o que ele quer.Sob a alegação de "ato falho", já chamou Dilma de "presidente" e sempre que pode salva a ministra das "garras" da oposição. Mais: no mês passado, Cabral agiu como porta-voz do Planalto e preparou o terreno para a viagem que Dilma fará a Tóquio, no próximo dia 22, tendo na pauta a TV digital.Delfim, de outra geração, é um interlocutor também lembrado por Lula como o homem que aprendeu a admirar, depois de muito criticá-lo. Sua participação em reuniões que traçaram as diretrizes do pacote cambial mostra a influência do neoconselheiro no Planalto."O problema da esquerda é que não tem um bom ouvido direito", ironizou Delfim, ao se aproximar de Lula, na campanha de 2002. "Eu sempre achei que você daria um magnífico professor de geografia, por conhecer o Brasil." A partir daí foi selada uma aliança que só se aprofundou e o ex-ministro da Fazenda no regime militar é hoje uma espécie de consultor do governo, para desespero do PT."O que houve com sua eleição?", perguntou Lula a Delfim, em 2006, ao saber que o amigo não fora reeleito deputado após trocar o PP de Paulo Maluf pelo PMDB. "Eu envelheci e acho que meus eleitores também. Muitos morreram", respondeu Delfim, bem-humorado.Por ser ele próprio uma "metamorfose ambulante", como já se definiu, Lula entendeu a mudança protagonizada por Geddel, 49 anos, que de ferrenho opositor figura hoje como devotado colaborador de seu governo. "A Bahia não entenderia uma aliança minha com o grupo de ACM", justifica ele.Geddel assumiu o Ministério da Integração Nacional em retribuição a seu apoio a Jaques Wagner (PT), eleito governador da Bahia, em 2006, e, apesar das cotoveladas em petistas, tem ótimo relacionamento com Lula. Para sua surpresa, defende no palanque até a transposição do Rio São Francisco, prioridade do ministério que sempre foi atacada na Bahia.Em recente reunião convocada para fazer a radiografia dos cargos, a "consultoria" do ministro também chamou a atenção. Lula perguntou à cúpula do PMDB quem era o padrinho de Sérgio Machado, presidente da Transpetro. Embora todos soubessem que Machado é afilhado do ex-presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL), ninguém abriu a boca.Coube a Geddel quebrar a monotonia. "Bom, se esse cargo não é de ninguém, eu quero!", provocou. Lula achou graça, mas os peemedebistas torceram o nariz. "Eu sou desbocado mesmo e já disse para o meu partido: não me aporrinhe, não. Cresci na oposição e não vou ficar preso. Eu digo o que penso", resumiu o ministro baiano.

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