Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Tietê fica entre: 'Fica', 'Fora' e 'Volta' Temer

Conterrâneos da pequena cidade no interior de São Paulo se dividem sobre futuro de Temer; placa em sua homenagem foi pichada com os dizeres 'Fora, Temer' e arrancada

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2017 | 03h00

Na pintura descascada do imóvel abandonado ainda é possível ler o nome e o número do candidato a deputado federal que, em 2006, fez do local um movimentado comitê. Em frente ao casarão, com pinta de assombrado, dois homens fumam um cigarrinho pós-almoço e comentam a sorte do atual ocupante do cargo mais alto da República:

“O Michel é meu conterrâneo. Se tirar ele, vai colocar quem?”, pergunta Osmiro Feitosa, de 70 anos.

“Deixa de besteira. Ele nunca disse que era daqui. Ele já deu entrevista dizendo que nasceu em uma cidadezinha do interior. E, pô, a cidadezinha não tem nome?”, retruca Rosildo Vicente da Silva, de 67.

A cidadezinha em questão se chama Tietê, fica a 140 km de São Paulo, e tem aproximadamente 40 mil habitantes. Foi nela que nasceu o presidente Michel Temer – nome que faz brotar sentimentos conflituosos entre os moradores e, como diz Feitosa, “conterrâneos”.

Em 2013, ano em que Temer ainda era vice-presidente, o prefeito Manoel David (PSD) homenageou o filho mais ilustre de Tietê com uma placa instalada na praça Dr. Elias Garcia. Nela, o poema O Relógio, publicado no livro Anônima Intimidade (“Tão antigo / Tão lindo / Tão nobre / Resolvi levá-lo para casa / Para São Paulo. / Preguei-o na parede. / Maravilha”). Além disso, no mesmo ano, o então vice teve o boletim escolar enquadrado e pregado na parede do teatro do colégio onde estudou, a Escola Plínio Rodrigues de Moraes.

Maré. Mas, ao assumir a Presidência da República, logo após o impeachment de Dilma Rousseff, a maré virou. O prefeito que o homenageou não foi reeleito. No ano passado, a placa com o poema de Temer foi primeiramente pichada com os dizeres “Fora, Temer” e, depois, roubada – e o atual prefeito, Vlamir Sandei, do PSDB, não tem planos iminentes para repor a homenagem. Não bastasse, alguns alunos da escola que frequentou fazem troça de uma nota 3,5 em Língua Portuguesa estampada no boletim.

“As pessoas são ingratas, ele ajuda muito essa cidade sem fazer propaganda. Mas santo de casa não faz milagres”, diz Santo Galucci, de 75 anos, amigo de infância de Temer. “Eu lembro do pai dele (pai de Temer) dando um dinheirinho pra gente brincar o carnaval”, fala. Apesar das boas memórias, Galucci diz que o amigo não deveria ter recebido Joesley Batista, dono da JBS, tarde da noite e fora da agenda oficial. 

“As pessoas podem pensar o que quiserem, inclusive que existe algo de errado nesse comportamento do presidente, mas não quero julgar, prefiro esperar as investigações. Mas não vou passar a mão na cabeça. Se errou, tem que pagar”, completa o amigo. 

O padeiro João Casagrande, de 80 anos, diz que costumava levar pão para casa da família Lulia (o nome completo de Temer é Michel Miguel Elias Temer Lulia). “Quando o Michel estava em casa, a mãe dele pedia para levar mais pães. A mãe dele era uma mulher muito simpática; já o pai era seco, educado, mas seco”, conta Casagrande. Sobre uma eventual saída de Temer da Presidência, o padeiro lamenta: “Justo agora que está melhorando? Falta tão pouco pra terminar. Deixa ele lá...”.

Mas o melhor amigo do presidente Temer em Tietê chama-se James Antônio Milanelo, de 76 anos. “Nós vivíamos juntos. Só nos separamos quando ele foi para a faculdade e eu fui dirigir caminhão”, conta, sem disfarçar a emoção. “Tenho até hoje um livro que ele me deu quando eu era criança. Foi meu primeiro livro, o Piratas do Caribe”, revela. 

Ao ser perguntado sobre as denúncias que hoje pesam sobre seu amigo, Milanelo faz uma pausa antes de responder. “Olha, Temer é a pessoa mais preparada para ser presidente do Brasil. Eu não sei o que ele fez ou deixou de fazer, mas sou fiel à nossa amizade.”

Milanelo tem um empório nas proximidades da chácara da “Vovó March”, batizada assim em homenagem a mãe de Temer. Segundo ele, o presidente costuma escapar para Tietê com certa frequência. “Ele não se expõe. Vem sem ninguém saber. O problema é que tem muita inveja e ingratidão por aqui. O que eu digo pra ele é: a cidade pode estar dividida, mas a melhor parte está com você.” 

A reportagem tentou contato com a sobrinha de Temer que mora na cidade, Cleusa Tamer Schincariol. Por telefone, uma pessoa próxima a passou o recado deixado por ela: “No momento, prefiro não falar nada. Vamos esperar um pouco mais pra ver o que vai acontecer”, disse.

Assim, esperando para ver o que vai acontecer está a cidade de Tietê. Em uma tarde na simpática praça central é possível encontrar conterrâneos do “Fora, Temer”; amigos do “Fica, Temer” e até aqueles que, meio em tom de brincadeira, já pregam um “Volta, Temer”, pensando nos benefícios de ter um futuro prefeito de Tietê com passagem pela Presidência da República.

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