Thomas Skidmore elogia "humanismo" de Lula

As amarras da economia levaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a uma situação que "parece um beco sem saída", na avaliação do pesquisador americano Thomas Skidmore, de 71 anos, um dos mais respeitados estudiosos da história recente do Brasil. "O Lula, coitado, está prisioneiro do modelo econômico. O Brasil está quase sufocando com o endividamento e Lula não tem margem para gastar dinheiro, para fazer essas coisas maravilhosas que planejou para a educação, para combater a fome", resumiu o historiador esta quinta-feira no Rio de Janeiro. O professor da Brown University, em Rhode Island, participa esta sexta-feira de um seminário sobre quarenta anos do golpe militar no Centro Cultural Banco do Brasil. "É horrível para Lula, porque ele tem que dizer ´oh, sim senhor´, tem que gerar superávit primário e o resultado é que o Brasil não cresce. E a única saída para o Brasil é crescer, porque, como está, não vai distribuir riqueza", disse Skidmore. O pesquisador exalta o fato de que "o presidente é humano, gosta de gente" e faz uma comparação com o antecessor. "O Fernando Henrique Cardoso é muito inteligente, em muitos aspectos foi um bom presidente, mas não é um político que se aproxima do povo, do pobre, não está nele. Na América Latina, um presidente que tem esse humanismo, como o Lula, é muito raro", diz. A trajetória do operário que chegou ao poder, na visão de Skidmore, leva a uma "pressão" maior da sociedade e mais cobranças sobre o presidente. "Ele decide comprar uma avião e é considerado um escândalo. A cobrança é muito maior, o pensamento é que ele tem que ser autêntico, tem que ser idealista. Não é fácil", defende Skidmore, que, na esfera política, não vê outra saída além da aliança com partidos das mais variadas tendências. "É um legado do regime militar. A reação ao período em que havia apenas dois partidos foi uma lei muito liberal, a fragmentação dos partidos políticos. A reação exagerou na outra direção. Isso dificulta formar um governo sem vários partidos", afirma o brasilianista. Skidmore discorda da tese de que Lula deu poderes demais ao chefe da Casa Civil, José Dirceu. "É preciso que o presidente tenha alguém assim, que monopolize os contatos políticos, é bom dividir com alguém", acredita. Para ele, é curioso que Dirceu esteja no centro de uma crise política iniciada com o escândalo envolvendo um ex-assessor do ministro, Waldomiro Diniz, acusado de corrupção e tráfico de influência. "Dirceu tem uma história heróica", diz Skidmore, lembrando a militância do ministro na resistência ao regime militar. No CCBB, Skidmore, autor dos livros "Brasil, de Getúlio a Castelo" e "Brasil, de Castelo a Tancredo", fará uma apresentação que intitulou "O Fantasma de Vargas", lembrando que o golpe de 64 "foi principalmente contra Getúlio Vargas". "A UDN queria extirpar a herança de Vargas e tinha que optar pelo golpe porque não ganhava eleição. João Goulart era um substituto de Vargas. O golpe resultou de uma combinação da fraqueza de João Goulart com a iniciativa do Exército", sustenta Skidmore. O pesquisador retrata o primeiro presidente pós-golpe, general Humberto Castelo Branco, como um "ingênuo, que achava possível passar o poder à UDN" e que foi vencido pela "linha dura de Costa e Silva". De volta aos Estados Unidos, na próxima semana, Thomas Skidmore engaja-se na campanha do democrata John Kerry à presidência. "Esse Bush é horroroso", diz.

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