Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

The Economist: É hora de ir embora

Será difícil mudar o curso do Brasil enquanto Bolsonaro for presidente

The Economist, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2021 | 05h00
Atualizado 07 de junho de 2021 | 12h34

Três meses depois de Jair Bolsonaro se tornar presidente, ele ordenou que o Exército marcasse as comemorações do 55.º aniversário do golpe militar de 1964. A assessoria de imprensa dele distribuiu um vídeo em que um homem explica que os anos 1960 foram uma “época de medo”. Os comunistas estavam “matando seus compatriotas” em nome de uma ideologia de esquerda. A população saiu às ruas, implorando por intervenção. Então “o Brasil lembrou que tinha um Exército”. A imagem em preto e branco muda de cor conforme a música aumenta e a bandeira do Brasil aparece. “O Exército nos salvou”, diz o homem.

A ditadura militar do Brasil matou 434 pessoas, muito menos do que os regimes da Argentina e do Chile. Isso explica em parte como, depois de devolver o poder a um governo civil em 1985, o Exército se tornou a instituição em que os brasileiros mais confiam. É também por isso que Bolsonaro foi capaz de tirar vantagem de seu passado militar para ser eleito.

Os generais que integram seu governo esperavam fazer avançar a agenda do Exército. Em vez disso, prejudicam sua reputação. Eles foram cúmplices da má gestão da pandemia por Bolsonaro, que levou a dezenas de milhares de mortes desnecessárias. E não conseguiram fazê-lo assinar contratos de vacina ou impedi-lo de cumprimentar apoiadores quando estava com covid-19. Sob o comando de Eduardo Pazuello, o Ministério da Saúde parecia uma boca de fumo de hidroxicloroquina. A certa altura, ele lançou um aplicativo para médicos que recomendava o medicamento a quase todo mundo, incluindo bebês e pessoas com ressaca.

Mesmo assim, o Exército até agora impediu Bolsonaro de uma “aventura” antidemocrática, nas palavras do general Santos Cruz. Por quanto tempo ele conseguirá fazer isso não se sabe. Bolsonaro pode tentar se manter no poder se perder no ano que vem, alegando que ganhou e encorajando protestos. “Só Deus me tira da cadeira presidencial”, disse ele. Bolsonaro alega que o voto eletrônico está sujeito a fraudes e que ele facilitou as leis sobre armas para “armar o povo” contra os “ditadores”. Seus fãs incluem policiais e bandidos. O Exército talvez descubra que precisa escolher entre a democracia e Bolsonaro.

Outras instituições brasileiras têm sobrevivido aos seus ataques, no entanto, a resistência delas acontece à custa de esforços repetitivos que são frustrados pelo reaparecimento dos mesmos problemas. Em maio, depois que a polícia iniciou uma investigação por difamação por parte de um youtuber que havia chamado Bolsonaro de “genocida”, um juiz arquivou o caso. Outro juiz anulou uma investigação sobre Almir Suruí e outros líderes indígenas acusados de “mentiras” a respeito das falhas do governo na pandemia. O jornal Folha de S.Paulo denunciou a censura ao publicar um artigo com 185 termos ofensivos ao presidente, entre eles “tirano”, “açougueiro” e “burro”.

Mas enquanto os tribunais têm rejeitado o autoritarismo de Bolsonaro, outras instituições têm sofrido nas mãos de seus apoiadores. Depois que o Congresso impediu dois decretos para dar ao Ministério da Agricultura o controle sobre as reivindicações de terras indígenas, a Funai mudou sua política para permitir que os agricultores reivindicassem a posse de terras indígenas ainda não demarcadas oficialmente. Em seguida, Bolsonaro nomeou um juiz flexível para o Supremo Tribunal Federal (STF) e poderá escolher outro este ano.

Se ele conseguir a reeleição (por meios justos ou falsos), poderá nomear mais dois. E seus ataques à democracia se tornariam então mais descarados. Seus fãs mais radicais rejeitam as instituições e o veem como seu salvador. Uma bolsonarista que certa vez disse querer uma guerra civil acampou do lado de fora do tribunal de Moro. Quando o ex-ministro se demitiu e acusou o presidente de obstruir a justiça, ela substituiu sua camiseta pró-Moro por uma que dizia: “Eu iria para a guerra pelo Bolsonaro”.

Mais quatro anos sob o comando dele podem devastar a Amazônia, onde grande parte da floresta tropical pode se transformar em uma savana seca. Bolsonaro prefere perder um acordo comercial com a União Europeia a mudar sua política ambiental. Isso seria ruim para todo o País, que está indo na direção errada há uma década. O crescimento está estagnado, os empregos são escassos, milhões de pessoas passam fome e os políticos pensam apenas em si mesmos. Para um país que gosta de festas, há pouco o que comemorar.

Em 2018, apenas 14% dos brasileiros disseram confiar “muito” no STF e 3% no Congresso. Bolsonaro se aproveitou dessa desilusão para ganhar as eleições. Seus rivais em 2022 devem virar-se contra ele. As pesquisas sugerem que Lula venceria caso tenha um segundo turno. Mas, com a vacinação e a recuperação da economia, o presidente pode recuperar terreno. Lula deve mostrar como a gestão de Bolsonaro da pandemia custou vidas e meios de subsistência, e como ele governou por sua família, não pelo Brasil. O ex-presidente deve oferecer soluções, não saudades.

Em 31 de março, aniversário do golpe militar, seis potenciais adversários de Bolsonaro assinaram um manifesto dizendo que a democracia estava “ameaçada”. Salvá-la exigirá mais do que manifestos. Os políticos precisam lidar com as reformas econômicas atrasadas. Os tribunais devem aplicar medidas severas contra a corrupção. E empresas, ONGs e brasileiros comuns devem protestar em favor da Amazônia e da Constituição. Mas será difícil mudar o curso do Brasil enquanto Bolsonaro for presidente. A prioridade mais urgente é tirá-lo do poder pelo voto. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Correção: A primeira versão do texto publicado pelo jornal traduziu a expressão "vote him out" como eliminá-lo, o que, no contexto integral do artigo, era claramente uma referência à eleição de 2022, uma vez que esta já havia sido citada no texto. Entretanto, tal expressão foi usada pela Secretaria de Comunicação do governo como argumento de que a The Economist defenderia a eliminação literal do presidente por meio de atos violentos. Dessa forma, o jornal reviu a tradução para "tirá-lo do poder pelo voto".

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