Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

The Economist: Brasília tem políticos novos, mas ideias antigas

Políticos dão apoio ao sistema que os coloca no poder, e promessas de renovação de Bolsonaro também se provaram falsas

The Economist, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2021 | 05h00

Tabata Amaral queria ser astrofísica, não política. Criada na periferia de São Paulo, graduou-se em Harvard, em 2016. Quando retornou ao Brasil, percebeu o lastimável estado da educação no País e convenceu-se de que somente mudanças de política poderiam melhorar essa situação. Então ela se candidatou a deputada federal e foi eleita aos 24 anos. Em seu primeiro dia em Brasília, em 2019, ela aprendeu por que a mudança é tão difícil.

O filho de um outro congressista estava ocupando o apartamento funcional destinado à deputada e se recusava a deixar o imóvel. Políticos ganham muitas regalias: salário anual de R$ 405 mil, 25 assessores à sua escolha, moradia gratuita e foro privilegiado, o que dificulta com que eles sejam punidos. Os partidos recebem R$ 2 bilhões, que dividem entre si para financiar as campanhas eleitorais. Distritos do tamanho de Estados demandam grandes gastos, então, ricos clãs de políticos normalmente vencem. Em troca de seu apoio, o presidente distribui empregos e emendas.

Alguns políticos jovens querem mudança. Depois da Lava Jato, Tabata fundou o Acredito, um movimento que prega “renovação de pessoas, práticas e princípios”. Ela também se juntou ao RenovaBR, uma escola de formação em políticas públicas fundada por Eduardo Mufarej, um empresário, que treinou 117 candidatos antes das eleições de 2018, dos quais 17 foram eleitos. Membros do RenovaBR representam partidos de variados espectros ideológicos e nem sempre obedecem às instruções de suas legendas. Tabata quase foi expulsa do Partido Democrático Trabalhista, de centro esquerda, por votar a favor da reforma da previdência.

“Todo político tem que escolher se vai trabalhar para o interior ou o exterior”, afirma ela. Tabata e dois outros parlamentares poupam gastos compartilhando equipe. Seu “gabinete compartilhado” foi o primeiro a propor pagamento de ajuda aos pobres durante a pandemia. Políticos veteranos agora usam as redes sociais. “Era como se o público antes não existisse, mas agora existe”, afirma Fernando Henrique Cardoso, um ex-presidente. A internet pode estimular mais mudanças do que as modestas reformas aprovadas até agora, como a lei da “ficha limpa”, que torna inelegíveis por 8 anos políticos condenados em segunda instância, e a “cláusula de desempenho”, impedindo que recursos públicos sejam destinados a partidos que tenham conquistado menos de 3% dos votos.

Reformas mais profundas podem incluir diminuição do tamanhos de distritos, regras mais rígidas de financiamento de campanhas e admissão de candidatos independentes. Mas nada disso parece possível. Apesar de os brasileiros terem eleito em 2018 um número recorde de estreantes, a maioria era de “novos políticos com ideias antigas”, afirma a deputada federal Joênia Wapichana, a primeira mulher indígena a ser eleita para o Congresso na história do País. Políticos dão apoio ao sistema que os coloca no poder. Isso ficou claro quando os congressistas se recusaram a abrir mão de emendas ao orçamento mesmo que elas resultassem em cortes de gastos em saúde e educação. Os deputados poderão até aprovar um projeto de lei que aumenta para cinco anos seus mandatos e volta a permitir doações de empresas às campanhas.

As promessas de renovação de Jair Bolsonaro também se provaram falsas. “Em 2018, a decisão era entre algo que sabíamos ter deixado o País de joelhos e algo que não conhecíamos”, afirma Mufarej. Foi um “erro coletivo”. A desilusão aumentou quando o presidente desperdiçou oportunidades de comprar vacinas. Um executivo da Pfizer disse à CPI que Bolsonaro ignorou seis ofertas da empresa. O índice de aprovação do presidente caiu de mais de 40% em agosto para menos de 30%. Mas o Congresso tem ignorado os 111 pedidos de impeachment contra Bolsonaro. Antes de Dilma Rousseff sofrer impeachment, ela enfrentou meses de protestos e sua aprovação caiu para 9%.

A CPI dará munição aos adversários de Bolsonaro para as eleições do próximo ano. A batalha será travada entre políticos tradicionais. Seu maior rival é Luiz Inácio Lula da Silva, que pretende recordar os brasileiros de como as coisas iam bem quando ele era presidente. “Os pobres viajavam de avião e tinham orgulho de conseguir comer um churrasco nos domingos”, diz ele à Economist. “Agora, eles estão passando fome.” Mesmo assim, o índice de avaliação negativa a respeito de Lula é quase tão elevado quanto o de Bolsonaro. Muitos brasileiros não perdoam o ex-presidente pelo envolvimento do PT em casos de corrupção. Lula sugere que procuradores dos Estados Unidos colaboraram com a Lava Jato por causa de um interesse “na nossa Petrobrás”. Ele admite que o PT perdeu em 2018 por causa de “erros que cometemos”, mas afirma que esses erros foram econômicos, não éticos. Diante de estagnação do crescimento e do alto desemprego, “a função do governo é colocar dinheiro na mesa”, afirma ele.

Se as eleições fossem hoje, o resultado mais provável seria um segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Alguns críticos de Lula tapariam o nariz e votariam nele. “Pelo menos o PT está no espectro democrático”, afirma Fernando Henrique, cujo Partido da Social Democracia Brasileira foi durante muito tempo seu principal adversário. Partidos de centro se apressam para encontrar uma alternativa. “Lula e Bolsonaro olham para o Brasil pelo retrovisor”, afirma Luciano Huck, um apresentador de TV que poderá concorrer à Presidência. Outras opções incluem João Doria, governador de São Paulo, e Ciro Gomes, um ex-governador que ficou em terceiro lugar na disputa presidencial de 2018. Se mais do que um deles concorrer em 2022, porém, isso poderia dividir os eleitores de centro.

Problemas adiante? Se Bolsonaro perder, poderá haver protestos. O ex-ministro de Relações Exteriores chamou de “bons cidadãos” aqueles que não aceitaram a derrota de Trump. Se alguma insurreição bolsonarista ocorrer, parte da polícia brasileira poderá se juntar ao movimento. No Exército, isso poderia dividir as tropas, afirma um ex-oficial. Foi isso o que aconteceu em 1964. O golpe contra João Goulart, um presidente populista, foi amplamente apoiado por brasileiros com esperança de que a democracia logo retornaria ao País. Os generais ficaram 21 anos no poder.

Carlos Alberto Santos Cruz, ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo de Bolsonaro, insiste que o os generais de hoje estão comprometidos com a democracia. Os militares que ocupam cargos no gabinete cumprem a tarefa como cidadãos, não soldados, afirma ele. Ainda assim, o general admite que os cerca de 6 mil fardados ocupando cargos no governo passam a impressão “de que os militares estão participando”. Muitos deles podem querer que Bolsonaro continue presidente, incluindo Eduardo Pazuello, um ex-ministro da Saúde que está sob escrutínio da CPI por ter ignorado apelos do governo de Manaus a respeito da situação dos hospitais do Estado, que ficaram sem oxigênio em janeiro. O Exército despreza o PT pelo envolvimento do partido em casos de corrupção e pela criação de uma comissão da verdade que investigou abusos de direitos humanos praticados pelos militares durante da ditadura. Em 2018, antes de o Supremo Tribunal Federal rejeitar um recurso que poderia livrar Lula da prisão, o comandante do Exército tuitou que sua corporação estava “atenta” e compartilhava “o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade”. Muitos consideraram isso um aviso.

Bolsonaro chama as Forças Armadas de “meu exército”. Ele afirma que poderia ordenar que os soldados obriguem a abertura dos comércios fechados pelos governadores por causa da pandemia. A recente demissão dos comandantes militares sugere que eles rejeitariam tais ordens, mas Bolsonaro está tentando tornar os fardados mais leais a ele, afirma Antonio Ramalho, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília. Os militares tiveram aumentos de salários e foram poupados dos cortes mais severos na Previdência. Em fevereiro, o presidente tentou sem sucesso conferir uma quarta estrela a Pazuello. Mudar regras de promoção, para que jovens oficiais possam subir de patente rapidamente, é uma tática que funcionou bem para Hugo Chávez na Venezuela. “As pessoas subestimam Bolsonaro”, afirma Ramalho. “Ele pensa no futuro.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

© 2021 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO 

ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.