Testemunha de Carajás marcada para morrer

O motorista Valderes Tavares da Silva está jurado de morte pelos policiais militares que estão sendo julgados em Belém pela morte de 19 lavradores sem-terra em Eldorado dos Carajás, no sul do Pará. Ele é testemunha da acusação no julgamento e com seu relato já contribuiu para as condenações do coronel Mário Pantoja, a 228 anos de prisão, e do major José Maria de Oliveira, a 158 anos. Nesta segunda-feira, 27, sentam no banco dos réus 17 tenentes, sargentos e cabos. Silva foi arrolado como testemunha do Ministério Público. Por conta das ameaças que vem sofrendo, o juiz responsável pelo julgamento, Roberto Moura, determinou ontem a inclusão do motorista no programa de proteção a testemunhas do governo paraense. Morando em Redenção, no sul do Estado, Silva disse ao juiz que depois de prestar depoimento em Belém passou a receber ameaças de pessoas desconhecidas pelas ruas da cidade que acreditam serem policiais e parentes dos que estão sendo julgados. Com medo de sofrer um atentado, o motorista estaria evitando sair de casa, principalmente durante a noite. Durante o julgamento do major Oliveira, no último dia 21, Silva teve em diversas ocasiões seu depoimento utilizado pela promotoria para pedir a pena máxima ao major. No depoimento, o motorista contou que no dia da matança em Eldorado dos Carajás recebeu um recado para ir até o destacamento da PM em Parauapebas para falar com o major Oliveira. Lá, foi recebido pelos soldados Pargas, Arruda e Pinho. Os três pareciam muito irritados. Pargas e Arruda teriam dito a Valderez que iriam "meter bala" nos sem-terra.ExecuçãoDurante a conversa com os três soldados, o motorista viu no destacamento o pistoleiro conhecido por Jamaica, que na ocasião trajava um uniforme antigo do Exército, de cor verde. Depois de partir seguindo a tropa até a estrada bloqueada pelo MST, Silva disse ter visto o sargento Leopoldo desferir dois tiros num sem-terra que estava perto do caminhão atravessado na rodovia. Ao desferir os tiros, Silva relatou ter ouvido o sargento pronunciar a seguinte frase: "taí, fdp, agora tu aprendeu". O líder dos sem-terra, Oziel Pereira, afirma ainda o motorista, foi levado algemado por Pargas, Arruda e outro soldado cujo nome não recorda sob socos e pontapés. Ele foi conduzido para trás de um carro. Depois, não soube dizer o que aconteceu. Mais tarde, conferiu cinco corpos de sem-terra no chão. O ex-presidente da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos e advogado, Marcelo Freitas, assistente da acusação no julgamento, afirma que outras testemunhas estão sofrendo ameaças por conta dos depoimentos que já prestaram em juízo. Uma delas é o cinegrafista Osvaldo Araújo, que filmou o massacre. O outro é um motorista que transportou os soldados até a estrada. "Aqueles que estão contribuindo com a Justiça neste julgamento estão se sentindo atemorizados e inseguros para prestar depoimento", disse Freitas.

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