Teresa Cruvinel não vê 'delito político' em criar TV Pública

Em entrevista, a presidente da recém-criada emissora explica como se prepara para 'rechaçar pressões'

CARMEN MUNARI, REUTERS

09 de novembro de 2007 | 17h02

A presidente da TV pública recém-criada pelo governo Lula tem enfrentado com muita saliva as críticas que a nova emissora vem despertando. Tereza Cruvinel, jornalista profissional há mais de 20 anos, esclarece junto a opositores e infinitas entrevistas como a TV se prepara para rechaçar pressões políticas.   Veja Também:  Entenda a TV Pública  Ela não deixa de usar palavras duras para rebater os oponentes, basicamente políticos dos partidos de oposição ao governo que vêem na TV Brasil, como será chamada, um instrumento de promoção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de suas realizações. "Oferecer à população um instrumento de comunicação que veja o telespectador como cidadão, invista na diversidade e tenha boa informação --qual o delito político disso? Acho que é um dever do Estado. O Estado europeu oferece, sem manipulá-la", disse Cruvinel, que até há pouco mais de um mês era responsável por uma coluna diária no jornal O Globo sobre bastidores políticos de Brasília. No seu entender, as críticas que recebe são decorrentes de falta de informação e de contexto. "Não é polêmica a TV. Há desinformação, incompreensão do que seja uma TV pública", afirmou à Reuters. Ela acredita que esta tendência decorre da dificuldade no Brasil de enfrentar essa discussão, "talvez pelo êxito da TV comercial". O Brasil, diz, recebeu a notícia da TV pública com a surpresa de quem recebe algo novo. "Não é invenção de pólvora, como mostra a experiência internacional... Não é uma discussão nova, é um debate que sempre foi interditado e que está sendo enfrentado agora." Sobre as motivações que levaram o presidente Lula a se decidir pela criação da emissora, ela diz que passam longe da questão política. Explicou que Lula respondeu a um anseio de organizações e entidades envolvidas no assunto reunidas num grande fórum organizado pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil. O fórum produziu, em maio, uma carta enviada a Lula que, por sua vez, encarregou o ministro Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, a tocar o projeto da implantação de uma rede de TV pública. Vinculada à Secretaria, a TV Pública foi criada em outubro por medida provisória e oficializada por decreto presidencial. É resultado da fusão da Radiobrás com as TVEs do Rio e do Maranhão, e nasce com 2.400 funcionários. Personalidades-fiscaisA fiscalização da independência política caberá a um Conselho Curador de 20 pessoas, sendo quatro representantes de ministérios, um dos empregados e 15 "notáveis" da sociedade civil indicados pelo presidente da República. "Tentações (sobre a influência política) sempre poderão ocorrer. Agora, o que deve servir de antídoto não é a qualidade virtuosa da diretoria nem a virtude de qualquer governo, deste ou de outro. O que deve funcionar é o modelo. A primeira interferência deve ser levada ao conselho curador", disse Cruvinel, que também fazia comentários políticos na TV Globonews. Já foram convidados para o Conselho o ex-governador de São Paulo Claudio Lembo (DEM), o ex-deputado Delfim Netto, Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ex-Globo, a empresária Angela Gutierrez e o rapper MV Bill. Foi a tentativa de garantir maior pluralidade que levou à escolha de personalidades e não de organizações (como Fiesp, CUT). O Conselho vai aprovar, mesmo com restrições, um plano da diretoria, e depois fiscalizará sua execução. Terá poderes de demitir diretores e até o presidente da TV. A estréia está marcada para 2 de dezembro, quando as TVs dos Estados que aderirem à proposta vão dividir suas grades de programação com a da nova rede. A data marca a chegada da TV com tecnologia digital, de melhor resolução. Cruvinel explica que esta será uma espécie de "pré-estréia", e prevê que a adesão do maior número de emissoras públicas (de governos estaduais, comunitárias, universitárias) e a construção de uma programação para a TV Brasil levarão alguns meses, com previsão para março. A conquista da audiência, segundo a principal executiva da nova estatal, vai ser feita em boa parte fora do tripé que garante a audiência da TV comercial --novela, futebol e jornal. O telejornalismo será forte, os documentários devem ocupar amplo espaço, com absorção de parte da produção independente, e está previsto um núcleo de dramaturgia, para minisséries. No esporte, em lugar do futebol, o foco serão as modalidades olímpicas. O telespectador também vai poder opinar sobre a nova programação via internet, ouvidorias e, talvez, uma pesquisa. Tudo será feito com o orçamento já estabelecido de 350 milhões de reais para 2008, o equivalente ao da TV Bandeirantes, segundo um especialista.

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