Terça-feira será decisiva para crise aérea no País

Essa terça-feira, 3, será decisiva para os desdobramentos da crise do tráfego aéreo. O governo está atento especialmente aos sargentos controladores de vôo da Aeronáutica, que se amotinaram na última sexta-feira, paralisando vôos em todo o país. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não quer ceder aos sargentos nada além do que já fez para que voltassem ao trabalho depois de mais de seis horas de paralisação, disse uma fonte do Palácio do Planalto. Os sargentos são a variável mais explosiva e menos previsível de uma crise com aspectos militares, políticos, técnicos e jurídicos não resolvidos, que vem se agravando desde setembro do ano passado, quando um avião da Gol e um Legacy norte-americano chocaram-se no ar, provocando a morte de 154 pessoas. Pauta do diaOs sargentos reúnem-se nessa terça com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, sob o impacto da decisão do Ministério Público Militar de abrir inquérito sobre o motim de sexta, considerado um grave crime militar. O presidente Lula decidiu expor sua posição ao Conselho Político da coalizão, que se reúne também nesta manhã. Ele vai discutir a estratégia no Congresso diante da chamada CPI do Apagão Aéreo, já considerada inevitável pelos aliados. Lula dirá que teve de ceder às exigências do sargentos, numa situação descrita como "de chantagem" por um assessor, mas que agora pretende enquadrá-los como servidores responsáveis por serviço essencial, sejam civis ou militares. A atitude mais dura com os controladores foi decidida domingo, quando Lula gravou o programa de rádio "Café com o presidente" e cobrou a "irresponsabilidade de pessoas que têm funções que são consideradas essenciais." O governo teme que os controladores continuem se valendo de sua posição estratégica (não há como substituir os amotinados rapidamente) para pressionar. Até a noite de segunda, a tática dos sargentos era uma incógnita para o Planalto, disse a fonte. Lula tratou da crise com os três comandantes militares na tarde de segunda, antes de convocar a reunião do Conselho Político. Nessa terça, às 15h30, Lula preside a cerimônia de apresentação dos novos oficiais-generais. Responsabilidades O presidente assumiu a responsabilidade pela abertura de negociações com os amotinados, como comandante supremo das Forças Armadas. O acordo firmado pelo ministro Bernardo prevê que não haverá punições para os amotinados. O governo, no entanto, não pode impedir o Ministério Público Militar de denunciar o motim e punir os responsáveis. A transferência do setor a um comando civil poderia proporcionar uma saída política para as punições, mas o governo ainda não tem segurança para avançar nesse rumo, disse a fonte. Controle O presidente considera superado o dilema da desmilitarização do controle de tráfego aéreo, opção defendida pelo comandante da Força Aérea, brigadeiro Juniti Saito. Mas responsabiliza o antecessor, brigadeiro Luiz Carlos Bueno, por ter protelado a solução, agravando crise de disciplina que resultou no motim. Segundo a fonte, o brigadeiro Saito chegou a discutir a opção de enfrentar "militarmente" o motim, em reunião com outros ministros no fim da tarde de sexta. O próprio comandante advertiu que a prisão dos rebelados poderia agravar o problema, por não ter quem os substituísse no serviço. Informado da crise em pleno vôo para Washington, o presidente Lula determinou a via da negociação, também com o argumento de que prender os amotinados não faria nenhum avião decolar. A orientação do Planalto foi transmitida ao Ministério Público Militar, que já havia despachado as promotoras Ione de Santa Cruz e Ana Carolina Scultori Teles para sede do Cindacta-1 (controle de vôo de Brasília), dispostas a prender em flagrante os amotinados, o que acabou não ocorrendo. "É uma situação que pode caracterizar recusa de obediência individual, desacato e motim, o que será determinado no devido inquérito," afirmou na ocasião a promotora Ione de Souza Cruz. Na madrugada de sábado, ao anunciar o acordo que pôs fim à paralisação, o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, explicou que Lula havia autorizado a negociação para enfrentar "uma gravíssima situação de segurança nacional." DúvidasO governo ainda tem de definir como será feita a transferência dos sargentos para o novo controle civil e obter aprovação do Congresso para tirar essa atribuição da Aeronáutica. Além disso, terá de lidar permanentemente com uma categoria que, sob comando militar ou civil, descobriu seu enorme poder de pressão e ainda não deixou claro como irá se comportar daqui em diante, disse um auxiliar do presidente.

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