Terapia é arma contra o crime nas favelas do Rio

Aos 9 anos, o menino X., morador de uma favela da zona norte, tem um sonho: ser traficante de drogas. Ele vê os bandidos como heróis e tem fascínio por armas de fogo. O motivo? Foi negligenciado pela família, que o rejeitou desde o nascimento. A leitura é da psicóloga Suzana Engelhard, que atende o garoto no Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). X. é apenas um dos beneficiados por esse tipo de serviço, que tem como objetivo oferecer tratamento àqueles que não têm condições de pagar sessões de análise (o atendimento é gratuito para quem tem renda inferior a três salários mínimos e tem custo simbólico para os que ganham mais do que isso). Os relatos dos pacientes incluem situações do violento dia-a-dia de quem mora em comunidades carentes, como assassinatos, tiroteios, espancamentos e abuso sexual. Muitos deles, sentindo-se esmagados entre o terror imposto pelos criminosos e a falta de amparo do Estado, desenvolvem transtornos do pânico, depressão e dificuldade para dormir. Por ordem do Ministério Público, os pais de X. o levam à psicóloga uma vez por semana. O menino conta que gosta de observar os traficantes em ação. Eles usam a laje do barraco onde a família mora como ponto de observação da movimentação da polícia. "Ele diz que um dia ainda será do Comando Vermelho (facção criminosa que comercializa metade da droga no Rio). Quando lhe peço para desenhar ou brincar com massinha, ele sempre faz armas de fogo", conta Suzana. X. diz que já experimentou maconha, cocaína e até drogas injetáveis. E espera poder "ver tudo de cima" no dia em que morrer. Já Y., também de 9 anos, que vive em outro morro da zona norte, não quer envolvimento com o crime. Seu maior prazer é soltar pipa e, quando crescer, se tornar jogador de futebol. Mas a mãe, com medo de ver o filho aliciado por bandidos, o prende em casa. "A mãe veio de Goiás e sofre com a realidade violenta do lugar onde mora. Já a criança nasceu no morro, está acostumada com tiroteio, não acha tão assustador", diz o psicólogo de Y., Bruno Abifadel. O psicólogo explica que o discurso de seus pacientes mostra os efeitos nocivos desse contexto social no núcleo familiar. "A mãe já presenciou a morte de crianças na porta de casa e tem pavor que o filho vire ´avião´ do tráfico e tenha o mesmo fim." Y. conta ao psicólogo que conhece os lugares "proibidos" da favela (bocas-de-fumo e esconderijos dos criminosos), onde ele não pode ir Sem futuro - Segundo Maria Luiza Bustamamente Pereira de Sá, supervisora de Suzana e Abifadel, a violência por que passam as crianças atendidas pelo programa da Uerj causa dificuldades de aprendizado e também um sentimento de desilusão com a vida. Ela cita como exemplo o caso de dois meninos cujo pai foi assassinado na frente deles. "Eles ficaram muito sofridos e regrediram na escola. Essas crianças não podem ser comparadas às de classe média, que vivem protegidas", relata. Maria Luiza coordena uma equipe de três psicólogos residentes e seis alunos da graduação, que atendem, em média, três pacientes. Além da Uerj, a Universidade Gama Filho e a Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) também têm projetos semelhantes. No câmpus da Gama Filho, a psicóloga Fernanda Maria Amaral recebe crianças, adolescentes e adultos que sofrem de síndrome do pânico decorrentes da violência. "São pessoas que têm um medo incontrolável de absolutamente tudo: sair de casa, ficar sozinho, de luz apagada", conta Fernanda. Quando os pacientes são adultos, ela percebe como a chamada lei do silêncio imposta pelos bandidos em áreas carentes contribui para o pavor generalizado. "Eles vêem coisas acontecendo, mas não podem fazer nada", diz a psicóloga, referindo-se a tiroteios, assassinatos e torturas cometidas pelas quadrilhas que dominam as comunidades. É grande o número de jovens que procuram a Gama Filho, vindos de todas as regiões do Estado. Fernanda já atendeu uma menina de 13 anos, moradora da Baixada Fluminense, que, depois de ser estuprada no caminho para a escola, nunca mais andou na rua sem companhia. Outro caso que lhe chamou a atenção foi o de dois irmãos, um menino e uma menina de 5 e 6 anos, que viram o pai matar a mãe a facadas. "A cada sessão, o menino pegava uma faca de plástico e uma boneca e dizia: ´Olha o que meu pai fez com a minha mãe´. Depois ele fazia o enterro simbólico da mãe, deitando a boneca no chão." Ela acredita que, em situações como esta, o atendimento precoce é fundamental para que as crianças elaborem as questões ainda enquanto jovens. Desde janeiro de 2001, a faculdade, que dispõe de 14 psicólogos e 300 estagiários, além de uma assistente social, prestou mais de 3.700 atendimentos, em todas as faixas etárias. A Gama Filho dá o que a equipe precisa, como brinquedos e material para desenho. Júnia de Vilhena, coordenadora do SPA da PUC - um dos mais antigos do Rio, com 40 anos de existência e 10 mil atendimentos por ano - diz que o medo da violência está fazendo a população mudar de hábitos, especialmente quem vive em áreas dominadas pelos criminosos. "Cada vez mais, as pessoas ficam retraídas, com crises de angústia. Para quem convive diretamente com a violência, tem sua casa invadida por policiais, vê seus parentes e amigos mortos em conflitos e ainda tem de sofrer calado, é muito pior."

Agencia Estado,

28 Julho 2002 | 04h29

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