Terapia alivia efeitos de tratamento contra aids

Uma nova estratégia para tentar reduzir os efeitos colaterais das drogas que combatem a aids está ganhando espaço entre infectologistas brasileiros. Chamado de "drug holidays", por ter surgido nos Estados Unidos, o método experimental tenta diminuir as anormalidades causadas pelo uso continuado dos remédios fazendo interrupções periódicas do tratamento.Desde o ano passado, alguns médicos de São Paulo começaram a dar "férias" para pacientes que sofrem com as lipodistrofias - reduções de gordura em várias partes do corpo causada pelas drogas - e agora começam a obter resultados positivos. A maioria dos doentes, segundo os médicos, diz que voltou a ganhar gordura em algumas partes do corpo e ainda afirma experimentar sensação de bem-estar por ter recebido "alta" da medicação por um período.A interrupção - que pode durar de uma semana a seis meses - está sendo aplicada principalmente por médicos em seus consultórios particulares, mas já foi testada também em alguns pacientes do Centro de Referência e Tratamento da Aids de São Paulo (CRT-Aids) em um estudo científico. Segundo a assessoria de imprensa do CRT, o uso mais amplo das "férias" ainda está sendo analisado."Uma paciente tinha o rosto, as pernas e os braços muito afetados pela lipodistrofia e melhorou muito. O rosto voltou a ficar redondo. Mas, mesmo em casos que não há alteração dos efeitos colaterais, essa interrupção pode ser usada para prevenir o agravamento dos problemas", conta Adauto Castelo Filho, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia e adepto das "férias". Castelo Filho está oferecendo a alternativa aos seus pacientes há mais de um ano e diz que até agora o balanço tem sido muito positivo. Segundo ele, dos cerca de cem pacientes que já tiveram "férias", a grande maioria observou melhora. Ele ressalta, no entanto, que a interrupção só deve ser usada em pacientes cuja imunidade não está muito baixa e que têm carga viral próxima a zero. "O método é bom, mas acho que ele só pode ser usado se o paciente for acompanhado com exames periódicos para checar se a imunidade continua boa mesmo com a interrupção do tratamento", explica.No início do uso dos remédios antiretrovirais, na metade dos anos 90, a interrupção do tratamento era vista como perigosa. Os médicos temiam que ela pudesse induzir à resistência do vírus HIV, que causa a aids. Mas estudos recentes mostraram que o risco de o vírus ficar mais perigoso em uma interrupção longa não é muito maior do que em pequenos intervalos, como os que acontecem quando o paciente esquece de tomar os comprimidos. Não há, no entanto, conclusões científicas definitivas sobre os benefícios do método "drug holidays".Um estudo que pode dar segurança aos médicos é o que está em andamento nos Estados Unidos, sob a liderança do respeitado médico Anthony Fauci, que realiza uma pesquisa com um grupo de pacientes do NIH, os Institutos Nacionais de Saúde, e promete resultados para o fim do ano. Por causa da falta de evidências científicas, muitos médicos preferem esperar resultados mais conclusivos. Os centros públicos de tratamento da doença também acompanham o assunto de perto, já que a eficácia do "drug holidays" pode significar cortes significativos nos gastos do governo com drogas. O infectologista Caio Rosenthal, do hospital Emílio Ribas (região central de São Paulo), diz que tem muita esperança de que os estudos comprovem que as "férias" funcionam. Mas, enquanto as provas definitivas não aparecem, ele prefere esperar. "Estou otimista de que esse método será aprovado, mas prefiro primeiro ter certeza antes de aplicar nos meus pacientes."

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