"Tentaram me extorquir", diz ministro da Justiça

Em meio à guerra contra o crime organizado e a conturbada investigação sobre o caso Banestado ? US$ 30 bilhões que inundaram paraísos fiscais e agora tiram o sono de governantes e políticos brasileiros ?, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, está muito atento a um inquérito, registrado com o número 2-1637-03, que corre sob segredo na Polícia Federal em São Paulo."Fui vítima de tentativa de extorsão?, declarou o ministro, referindo-se ao Dossiê Ermovale, um punhado de papéis que a PF apreendeu em 17 de junho à porta de um prédio na Rua Álvaro de Carvalho, no centro da capital.Bastos disse que, há cerca de três meses, alertou o superintendente regional da PF, delegado Francisco Baltazar, sobre a ação de um grupo que estaria tentando vender o dossiê. São 67 páginas que narram a suposta remessa de US$ 4 milhões para as Ilhas Virgens Britânicas que teria sido realizada pela empresa Ermovale Agropecuária Ltda., criada no início dos anos 90 pelo engenheiro Ivo Morganti Júnior, que herdou do pai ? a quem teria mandado matar, em 1982 ?, parte de um império de US$ 150 milhões.O velho Ivo Morganti, que morreu com um tiro nas costas, aos 58 anos, na cidade de São Carlos (SP), foi o maior usineiro de açúcar e álcool do País. Advogado criminalista, Bastos defendeu nos tribunais Ivo Júnior e sua mãe, Maria Dirce Farani Morganti, também acusada de ter sido mandante do crime. A título de honorários, o advogado ficou com uma propriedade dos Morganti, a Fazenda Tamanduá, em Ribeirão Bonito, com 1.092 alqueires.Por meio de contrato registrado em abril de 1991 no cartório de Ibaté, Bastos arrendou o imóvel à Ermovale. Dois anos depois, Júnior e sua mãe quiseram reaver a fazenda. ?Troquei 400 alqueires por outra propriedade dos Morganti, em Piracicaba?, contou o ministro. ?Foi uma transação absolutamente legal e declarada ao Fisco.?No Dossiê Ermovale, e nos depoimentos tomados pela PF, há citações a uma offshore, a Piermont Corporation, e ao nome do ministro. O comerciante Carlos Umberto Pereira e o contador Carlos Roberto Alves são os denunciantes. Eles afirmam que a transferência dos US$ 4 milhões, em junho de 1993, teve Bastos como beneficiário. Os papéis não têm uma única assinatura do ministro.MontagemA primeira autoridade a tomar conhecimento oficial do dossiê foi o delegado Nivaldo Bernardi, da Delegacia de Ordem Política e Social da PF, conhecido por sua perícia em investigações sobre crimes financeiros e fazendários. O superintendente da PF, Francisco Baltazar, mandou abrir inquérito e entregou a missão ao delegado Moacir Moliterno. Recomendou sigilo na apuração porque o caso envolve ?a pessoa de um ministro de Estado?. Guarda-costas de Luiz Inácio Lula da Silva durante as quatro campanhas presidenciais do petista, Baltazar disse que o inquérito apura ?um estelionato?. Ele avisou Lula sobre o caso.?A investigação está começando, é muito cedo para tirar qualquer conclusão?, observou Moliterno, policial tarimbado.O ministro disse estar ?muito tranqüilo?. ?Isso tudo é um absurdo, montagem grotesca por meio da qual tentaram me extorquir?, reiterou Bastos, que conta ter sido vítima de quatro tentativas de extorsão.Três investidas ocorreram antes de assumir o cargo. O grupo teria pedido US$ 5 milhões. O ministro disse que não teve contato com os golpistas. ?Tentaram vender o tal dossiê para a imprensa, mas não tiveram êxito com a bobagem que produziram?, contou Bastos, que compara o caso ao Dossiê Cayman, fraude que apontava contas em nome do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.