Tensão, tumulto e humor no Senado

As duas horas e meia de sessão de leitura do relatório determinando a cassação dos senadores Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e José Roberto Arruda (sem partido-DF), no Conselho de Ética, foram marcadas por momentos de tensão, tumulto e paradoxalmente de humor. O tom teatral predominou na reunião principalmente quando o relator Saturnino Braga (PSB-RJ) queixando-se sentir dores na boca, por causa da mordida no pequi que tem espinhos, pediu que o documento fosse lido por outro colega. A missão foi dada ao senador Casildo Maldaner (PMDB-SC), que decidiu interpretar dramaticamente cada frase e aspas que lia."O que um pequi não faz", disse Maldaner, cujo cabelo é cuidadosamente pintado no tom acaju e os ternos sempre em cores fortes. Ele leu o documento como se interpretasse uma peça teatral, inclusive imitando trejeitos de ACM e dos demais parlamentares citados no documento. "A entonação está boa", comentou o petista Eduardo Suplicy (SP), pai do cantor e ator Supla. Este foi o único momento de descontração da sessão, que por pouco não acabou em briga entre os senadores Waldeck Ornelas (PFL-BA) e Antero Paes de Barros (PSDB-MT). Mas no geral o clima da reunião foi tenso. O líder da tropa de choque do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), Waldeck Ornelas estava visivelmente nervoso e afoito. Aos berros, ele reagiu à decisão de voto aberto do relatório, anunciado pelo presidente do conselho, Ramez Tebet (PMDB-BA), e depois atacou o colega Antero Paes de Barros (PSDB-MT), que havia elogiado a decisão. "Essa é uma questão de ordem covarde e indigna", afirmou Ornelas, referindo-se a Paes de Barros."Não vou aceitar que diga isso quem defende a violação do painel e o voto secreto em casos em que a lei não permite. Indigna é a postura de quem defende a falta de decoro no Senado, pode fazer isso na Bahia, aqui não", respondeu Antero Paes de Barros à acusação de Ornelas.Discussão instaurada, foi necessária a intervenção de Tebet para encerrar o início da briga. Sem fazer-se de rogado, Ornelas acrescentou: "Disse e repito". Demonstrando ironia, o presidente do Conselho de Ética "prometeu" registrar o protesto do senador baiano.O tumulto ocorreu pouco depois de outro baiano, o senador Paulo Souto (PFL), também integrante da chamada tropa de choque de ACM, pedir vistas do relatório, procedimento que irá atrasar a votação do parecer em mais uma semana. As reações dos aliados de ACM que partiram também para defesa deArruda, como quando Ornelas afirmou que o parlamentar do Distrito Federal tinha direito de votar no processo em que era diretamente envolvido, contrariando o argumento de Paes de Barros, provocaram risadas no plenário e comentários dos demais parlamentares."O Ornelas é o pittbull que todo mundo sonha ter", falou um petista. Percebendo a possibilidade mais tumultos na sessão, Tebet apressou-se em encerrar a reunião e pedir ajuda divina. "Chegamos até aqui bem e com a ajuda de Deus peço aos parlamentares paciência e que assim tudo permaneça até o final dos trabalhos", afirmou ele. O paciente corregedor-geral do Senado, Romeu Tuma (PFL-SP), admitiu que havia "emoção demais" no ambiente. "Acho que os ânimos estão umpouco acirrados", falou ele. As senadoras do PT, Heloisa Helena (AL) e Marina Silva (AC), que normalmente são bastante expressivas ficaram ofuscadas com tamanha confusão. "Se é para discutir, eu também quero", comentou a alagoana, enquanto Tebet encerrava a discussão.

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