"Tenham paciência que as coisas vão melhorar", pede Lula

Um dia depois de sofrer graves derrotas no Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um apelo contundente pela unidade de sua base de apoio e garantiu que não cederá a pressões dos defensores dos bingos nem para mudar a política econômica. Na primeira reunião com o Conselho Político, formado por presidentes de dez partidos aliados, Lula ouviu críticas dos governistas, principalmente do PTB, do PC do B e do PPS, sobre os rumos de sua administração. Na avaliação dos aliados, um dos motivos dos reveses sofridos no Congresso é justamente a falta de diálogo. "Mas temos de trabalhar com a mesma linguagem e organizar a base", pediu o presidente. "Não vou ceder a pressões, nem mesmo dos amigos da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Movimento dos Sem Terra (MST). Eu governo para todo o País. Tenham paciência que as coisas vão melhorar." Descontraído, Lula também assegurou que não se conformará com o safanão sofrido na quarta-feira, quando o Senado derrubou a Medida Provisória que proibia o funcionamento dos níqueis e das máquinas caça-níqueis no país. "Estou estudando, mas devo mandar outro projeto de lei para o Congresso", observou. Longa exposição Na conversa de três horas e meia com os presidentes dos partidos, Lula fez uma longa exposição sobre os projetos do governo para retomar o crescimento. Garantiu que a política econômica e o equilíbrio fiscal serão mantidos, embora fosse mais fácil "fazer populismo e demagogia para os amigos". Ao lado dos ministros Antônio Palocci Filho (Fazenda), José Dirceu (Casa Civil) e Aldo Rebelo (Coordenação Política), o presidente disse que a política econômica já começa a dar frutos. Ressalvou, porém, que "dói muito" não poder aumentar o salário mínimo para mais de R$ 260,00. "Sei o sacrifício das pessoas e de quanto elas necessitam de um salário maior. Mas foi o possível neste momento", argumentou. O presidente procurou amenizar a manobra dos opositores PSDB e PFL, que na quarta-feira assumiram o comando da comissão mista instalada no Congresso para analisar a MP do mínimo e agora prometem aumentar o seu valor. "Comissão é só comissão", disse Lula. "Não podemos comprometer o futuro do país com movimentos circunstanciais e interesses eleitoreiros." Depois da abertura feita pelo presidente, Palocci apresentou um balanço da economia. Distribuiu aos presentes um calhamaço recheado de resultados positivos, como a melhora na relação dívida-PIB, a queda da inflação e até mesmo da taxa de juros, que, embora alta (16% ao ano), é a menor desde março de 2001. "Não há hipótese de não haver crescimento de agora em diante", insistiu Palocci. "Os juros vão baixar. Tenham paciência", emendou Lula, olhando fixamente para o presidente do PL, deputado Valdemar Costa Neto (SP), que recentemente pediu a demissão de Palocci e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Sem cumprir as promessas Perto dele, o presidente do PPS, Roberto Freire (PE), não se conteve. Disse que o governo não tem feito o que prometeu na campanha e que falta diálogo com os aliados. "Não adianta ficar falando de herança maldita, até porque a equipe que conduz a economia tem a mesma concepção e a mesma cultura da que estava no governo anterior", criticou o deputado. "Não foi isso o que dissemos que íamos fazer." O presidente do PC do B, Renato Rabelo, reforçou o coro dos descontentes. "Não dá para ter juros altos e superávit alto. Assim já é demais." Lula e Palocci repetiram que não é possível fazer mudanças bruscas. O presidente do PT, José Genoino, saiu em defesa do governo. "Os rumos são consistentes. Estamos trabalhando para gerar empregos e distribuir renda", comentou. A reunião avançou na hora do almoço e o Palácio providenciou misto quente para saciar a fome dos aliados. Para o presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ), a reunião foi boa, mas pouco conclusiva. "O Senado tem feito o papel da vovó boazinha e a Câmara de madrasta boazinha. É preciso arrumar isso", protestou.

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