Tempo na TV deu fôlego a Kassab

Em 3 meses, saiu da condição de quase anônimo a líder de pesquisas

Ana Paula Scinocca, O Estadao de S.Paulo

24 de outubro de 2008 | 00h00

Terça-feira, 15 de julho, Liberdade. Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição, faz corpo-a-corpo pelo bairro. Fernanda, uma jovem de 20 anos, pergunta a um jornalista: "Moço, quem é esse alemão aí?" Ela, assim como milhares de paulistanos, mostravam as pesquisas, desconhecia que Kassab era prefeito de São Paulo havia pouco mais de dois anos.Sábado, 18 de outubro, Liberdade. Líder isolado nas pesquisas, a uma semana do segundo turno da eleição, Kassab é esperado por cerca de 500 pessoas para um encontro com mulheres. Crianças fazem coleção de cartões de campanha que exibem o desenho do boneco "Kassabinho", mascote da campanha, e jovens fazem fila para tirar foto com o prefeito. "Nossa, como ele é lindo!", comenta Bianca, também de 20 anos.Esses dois episódios retratam fielmente a campanha de Kassab. Ele passou da condição de prefeito desconhecido, em julho, para favorito, em outubro, sem sobressaltos. Foi crescendo nas pesquisas aos poucos e surpreendendo até mesmo integrantes de sua equipe.Primeiro, "roubou" o segundo lugar do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), que tinha um enorme recall por ter disputado, e vencido em São Paulo, a eleição presidencial em 2006.Depois, "virou" em cima da, até então favorita, ex-prefeita Marta Suplicy (PT). Na véspera do primeiro turno, em 4 de outubro, as pesquisas indicavam a ida ao segundo turno de Kassab e Marta. Mas a petista, mostravam os levantamentos, chegaria na frente. Não foi o que as urnas revelaram. O prefeito passou a ex-ministra, ainda que por margem apertada. Nem o próprio Kassab acreditava. "Olha! Eu estou na frente até aqui", comentou o prefeito enquanto acompanhava, pela TV, a apuração da eleição.Desde o início da corrida eleitoral, o principal desafio dos aliados de Kassab era torná-lo conhecido. A população aprovava o governo, diziam, mas desconhecia que o vice de José Serra (PSDB) havia assumido a Prefeitura de São Paulo com a eleição do tucano para o governo paulista, em 2006. Em contrapartida, a aprovação do governo só fazia crescer.Com base nesse cenário, a equipe de comunicação e marketing se concentrou em apresentar a São Paulo seu prefeito. E deu certo. Kassab começou a campanha com parcos 10% das intenções de voto, segundo aferiu o Ibope em 18 de julho, apenas três dias depois de Fernanda perguntar sobre a identidade do "alemão". A quatro dias da eleição, no dia 22, o mesmo instituto apontou vitória de Kassab com 53 % ante 39% de Marta.A estratégia de campanha foi seguida criteriosamente pelo disciplinado Kassab. Na TV, com uma propaganda competente assinada pelo marqueteiro Luiz Gonzalez, o prefeito foi sendo apresentado aos eleitores. Logo de largada, nesse departamento, saiu com vantagem sobre os adversários porque possuía no primeiro turno tempo superior (fruto da aliança formada sobretudo com o PMDB) ao de Marta e ao de Alckmin.Outra decisão acertada: o foco deveria ser Marta, e não Alckmin. A idéia sempre foi apresentar Kassab como o anti-PT e comparar a gestão do prefeito com a administração de Marta. A essa altura, mesmo em terceiro lugar nas pesquisas, Kassab começou a ganhar espaço no noticiário ao desafiar a ex-prefeita. "Ela (Marta) quer nacionalizar a eleição porque não tem discurso aqui na cidade. Quer quebrar a cidade de novo", provocava Kassab ao falar da adversária, cada vez mais colada na imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Devagarinho, o prefeito foi subindo alguns pontinhos. O maior salto registrado pelo Ibope ocorreu entre 30 de agosto e 12 de setembro. Ele saltou de 12% para 21%. Na época, Marta tinha 35%.No dia 4 último, véspera da eleição, o prefeito tinha 10 pontos porcentuais a menos que Marta (25% ante 35%), mas terminou a primeira etapa do pleito à frente dela: 33,61% contra 32,79%.VIDA PESSOALEmbora em menor número, a campanha também teve momentos de estresse com a acusação de uso da máquina pública. Nada porém comparado ao tiroteio enfrentado no segundo turno. Tão logo foi dada a largada no horário de rádio e TV na segunda etapa da corrida à prefeitura, no dia 12, o PT partiu para cima do prefeito. Mas acabou errando na mão. Na tentativa do "tudo ou nada", as inserções da petista ficaram mais agressivas e procuravam explorar a vida pessoal de Kassab. "Você conhece Kassab. Sabe se ele é casado? Tem filhos?" Resultado: sobraram críticas para Marta, até de integrantes de seu próprio partido. Kassab seguiu sem cair nas provocações. "Tem um monte de mulher querendo casar comigo. O importante em relação a um candidato e a um prefeito é o caráter das pessoas. Acho que se ele é solteiro, viúvo, divorciado, casado, tem filhos ou não, é uma questão de foro íntimo", rebateu o prefeito. E, mais uma vez, deu certo. A campanha seguiu em frente. Guerra? Só na Justiça Eleitoral. E nada menos que 13 direitos de resposta obtidos no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) até aqui.Depois de mais de uma semana em que a discussão central foi a vida pessoal, e não as propostas da cidade, a campanha retomou seu ritmo. Mas os números, segundo as pesquisas, se mantiveram praticamente os mesmos. Como cartada final, Marta trouxe de volta o principal cabo eleitoral da campanha, o presidente Lula. Kassab resolveu não entrar em "bola dividida". E, na última semana, foi de carona no Sorria, jingle e bordão de sua campanha. Agora, no domingo, só espera sorrisos.

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