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José Roberto de Toledo
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Tempo é o senhor da eleição

Quinze a um. Essa é a vantagem atual de Aécio Neves sobre Geraldo Alckmin em uma eventual disputa de 2.º turno contra Lula, segundo pesquisa inédita do Ibope. Se o mineiro fosse hoje o candidato tucano contra o petista, ganharia por 48% a 33%. Ou seja, 15 pontos de diferença. Se o PSDB fosse de Alckmin, daria empate técnico: 40% a 39%. O ponto a mais do tucano é marginal.

José Roberto de Toledo, O Estado de S. Paulo

06 de julho de 2015 | 03h00

A pesquisa foi a campo há duas semanas, bancada pelo próprio Ibope. As duas perguntas entraram em um sortido e mutante questionário que o instituto aplica mensalmente por encomenda de clientes diversos. Cada um paga por algumas perguntas e só tem acesso ao resultado delas. Por isso a pesquisa é chamada de “Bus”. Às vezes, o Ibope pega carona nesse ônibus e inclui cenários eleitorais, avalia governantes e políticas públicas.

Quem olha só para o 15 a 1 é tentado a concluir que a parada está decidida: Aécio é franco favorito e deve ser o candidato do PSDB a presidente. Não se fala mais nisso? Muito ao contrário. 

É excepcionalmente alta a taxa de votos inválidos nos dois cenários. Em Aécio 48% x 33% Lula, 19% ou anulariam ou não votariam em ninguém ou não sabem responder. A taxa de não válidos sobe para 21% no cenário Alckmin 40% x 39% Lula. Isso significa que ao menos um em cada cinco eleitores não gosta nem do petista nem do tucano, seja quem for o candidato do PSDB. 

É campo fértil e arado para a terceira via – brotada com Ciro Gomes em 2002, e cultivada por Marina Silva em 2010 e 2014. A insatisfação é tanto maior quanto mais alta a escolaridade (chega a 26% entre os eleitores que fizeram faculdade). Esses desencantados são encontrados com maior frequência nas periferias das metrópoles e na região Sul do Brasil.

De que adianta falar da terceira via, se a segunda aparece com entre 40% e 48% das intenções de voto? Pesquisas feitas muito antes da eleição correm mais risco de passarem longe do resultado final – porque o eleitorado muda de opinião ao longo da campanha e boa parte só escolhe o candidato no dia de votar. Tudo favorece PT x PSDB hoje, mas e amanhã ou depois de amanhã?

De qualquer modo, é muito melhor sair na frente do que atrás. E Aécio tem 48% contra 40% de Alckmin. Por que essa vantagem? “Recall” é o jargão. Efeito memória pode ser a tradução. O mineiro disputou faz poucos meses uma acirrada eleição presidencial. Desde então, é a voz da oposição e aparece mais no noticiário do que o paulista. Por enquanto, é o mais conhecido.

Até 2018, essa vantagem pode diminuir se o mineiro não se mantiver em tanta evidência quanto está hoje e/ou se Alckmin for capaz de aumentar sua projeção. Logo, quanto antes for a eleição, melhor para Aécio. Daí ele flertar mais frequentemente com a ideia do impeachment de Dilma Rousseff do que Alckmin. Se ela e o vice, Michel Temer, fossem impedidos por ilegalidade no financiamento eleitoral da chapa em 2014 haveria nova eleição.

Se a eleição ocorrer só em 2018, como está previsto, Alckmin teria mais tempo de fazer frente a Aécio. E se houver impeachment da presidente e de seu vice, mas só depois da metade do mandato de Dilma? Aí não tem nova eleição. O próximo na linha sucessória, Eduardo Cunha, assume e completa o mandato. É o pior cenário para Aécio e Alckmin. Dá chance ao PMDB de Cunha lançar candidato próprio e virar terceira via.

E Lula? Ele perdeu capital até nas áreas mais pró-PT. Tem só metade dos votos numa região onde Dilma teve dois terços dos votos válidos em 2014. E no terço volúvel do Brasil, que ora é petista ora é tucano, Aécio teria hoje uma vantagem três vezes maior do que na época da eleição. Mais do que o tucanistão, essas duas regiões, que agregam três de cada quatro eleitores, derrotariam o ex-presidente – especialmente com Aécio de adversário. Isso, se a eleição fosse hoje. Se for em 2018, depende de como a economia vai ou não se recuperar.

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