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Eliane Cantanhêde
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Temperatura máxima

Toda vez que a presidente Dilma Rousseff começa a sair da UTI, lá vem uma nova pneumonia, ora dela, ora por contaminação do PT. A da vez é a prisão de João Vaccari Neto, o segundo tesoureiro do partido a parar atrás das grades. E o pior que a ventania atingiu também a mulher, a cunhada e a própria a filha dele. É aí que mora o perigo.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2015 | 02h05

Foi assim, abalado com o envolvimento da família, que o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa decidiu botar a boca no trombone. O grande temor de uns, ou a grande esperança de outros, é que a mesma pressão produza igual resultado agora com Vaccari. Tal como Costa, ele sabe das coisas. Mas sabe muito mais, pois conhece o PT e o ex-presidente Lula por dentro.

A prisão de Vaccari não tem a ver diretamente com Dilma, mas já seria dramática em qualquer tempo, em qualquer lugar, em qualquer circunstância, e é muito pior nesse contexto em que o PT esfarela, Dilma perde o controle do próprio governo e o PSDB decide descer do muro e encampar a tese do impeachment.

Principal líder tucano e, portanto, da oposição, Fernando Henrique Cardoso mantém o discurso que a sólida formação acadêmica, a experiência e até velhice recomendam. Mas FHC é passado, e a bancada tucana na Câmara, cheia de gás e de ambições, é o futuro.

Estadistas podem puxar o freio, mas políticos jovens com mandato metem o pé no acelerador, correndo atrás das pesquisas de opinião e das manifestações de rua. Segundo o Datafolha, 63% dos brasileiros são favoráveis ao impeachment da presidente. E, ontem, movimentos unidos pelo grito "Fora Dilma!" foram à oposição cobrando que aja como oposição. Quem tem de evitar o impeachment é o governo, não o PSDB. E daí, fazer ouvidos de mouco?

Aécio Neves jogou a toalha. Em vez da prudência de FHC, agora opta pela ousadia da bancada, que atua em duas frentes: o convencimento político no Congresso e a busca de pareceres jurídicos sólidos sobre a chamada materialidade.

Dilma começou a sair da UTI quando partiu para um encontro com Barack Obama no Panamá, deixando seu governo daqui em diante nas mãos do vice-presidente e novo articulador político Michel Temer e do ministro e coordenador econômico Joaquim Levy. Como diziam no governo Sarney, "a crise viajou". Pois é, mas a crise foi, voltou e deu de cara com a outra crise irmã - a do PT.

Todo o esforço de Temer na segunda e na terça, para revitalizar a base aliada e retomar o ritmo de votações de interesse do governo no Congresso, foi por água abaixo com a prisão de Vaccari ontem. Não dá para competir nas TVs, nas rádios, nos jornais, na internet, nas conversas de qualquer botequim do País.

Para piorar, o que deveria ser um gol a favor pode virar um gol contra: a indicação do novo ministro do Supremo Tribunal Federal. Independentemente de todas as qualidades intelectuais e técnicas de Luiz Fachin, o fato é que suas ligações despejam toneladas de pedras no seu caminho.

Aliado do PT e da CUT, vai ser o 11º ministro justamente durante as investigações dos petistas e aliados governistas da Lava Jato. Defensor do MST e do rito sumário para a reforma agrária, vai precisar da aprovação do PMDB e de uma forte bancada ruralista no Senado. E o que dizer de seu discurso de defesa da candidatura Dilma Rousseff em 2010, alegando que "tinha lado"? E se tiver de julgar o governo Dilma, vai se declarar impedido?

O fato é que as duas desgraças chegam simultaneamente: a crise política de Dilma já era flagrante e a crise ética do PT só piora. Isso resulta numa explosão de proporções ainda não sabidas, mas o fato é que a tese do impeachment voltou com força e isso resvala para a hipótese de renúncia. A pergunta que cruza gabinetes, corredores e salões de Brasília, neste momento, é: quem vai botar o guizo no gato?

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