HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

‘Temos de esperar a manifestação do Poder Judiciário’, diz possível candidato a vice de Lula

O empresário Josué Christiano Gomes da Silva, filho de José Alencar, afirma confiar no ‘sistema de autocontrole’ da Justiça

Eduardo Kattah, O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2018 | 05h00

Considerado no PT o “vice ideal” em uma eventual chapa encabeçada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o empresário Josué Christiano Gomes da Silva, de 54 anos,  disse que não “persegue” nenhuma candidatura, mas defendeu o que classifica como “um legado econômico e social” das gestões do petista – nas quais seu pai, José Alencar, que morreu em 2011, era vice-presidente.

Em entrevista ao Estado, o presidente da indústria têxtil Coteminas disse que confia no “sistema de autocontrole” do Judiciário ao falar sobre decisão da 8.ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), que poderá resultar na inelegibilidade de Lula. “Com a lei, pela lei e dentro da lei; porque fora da lei não há salvação”, afirmou, citando uma frase de Rui Barbosa. Josué, que foi candidato ao Senado por Minas em 2014, admitiu estar afastado do MDB.

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O que as eleições deste ano podem representar para o futuro do País?

Sou sempre otimista em relação ao Brasil. É um bom momento. Numa democracia, quanto mais nós praticamos, mais o cidadão aprende a votar. Me parece que há um grau de consciência hoje muito maior. As pessoas estão mais esclarecidas, muito mais engajadas. Esse espírito de cidadania, que hoje me parece que prevalece em grande parte da população brasileira vai melhorar aos poucos a nossa política. 

 

O sr. pretende se candidatar neste ano?

Sou da opinião de que candidatura a gente não persegue. Mesmo em 2014 eu não fui pleitear candidatura ou legenda para me candidatar quando eu estava recebendo convites de alguns partidos políticos. Se a candidatura acontece é porque as pessoas desejam que você seja candidato. Não coloco meu nome a não ser em prol de um projeto para o Brasil como empresário, que é o que eu faço dia e noite. 

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Há 16 anos seu pai firmou com o ex-presidente Lula a chapa vitoriosa que elegeu um ex-operário e um empresário para a Presidência da República. Hoje, mesmo sendo filiado ao MDB, seu nome é cotado no PT como um possível vice para eventual nova candidatura do ex-presidente. O sr. recebeu algum convite?

Tem muita especulação de que eu teria recebido vários convites, de vários pré-candidatos à Presidência, para ser candidato a vice-presidente. Obviamente, só a lembrança do meu nome é algo que recebo com responsabilidade. Se estão lembrando, seja a corrente A, B ou C, já é um sinal de que veem em mim um nome capaz de ocupar um cargo importante como a Vice-Presidência da República. Não houve nenhum convite e a rigor quem entende de política sabe que não seria adequado um convite neste momento. Todas as pré-candidaturas primeiro precisam se consolidar e montar as alianças de partidos. O cargo de vice neste aspecto é secundário. O momento não é esse. O momento é maio, junho, julho. Porque o ideal de um vice é que ele não atrapalhe. Vice não é para ganhar a eleição é para pelo menos ajudar a não perder.

O sr. disse na época que estava entrando para a política para defender o legado de Lula e de Dilma. Ainda defende esses legados?

O governo que papai participou foi aprovado por 83% de ótimo e bom ao final. Se somasse o regular acho que passava de 90% da população brasileira. A história registra, os jornais registram os indicadores macroeconômicos e sociais ao final dos oito anos. Nós superamos naquele período uma vulnerabilidade externa que constrangia o nosso crescimento. O Estado brasileiro que era endividado em dólar passou a ser credor, como até hoje é, de moeda estrangeira, acumulando reservas de US$ 375 bilhões. Terminamos aquele período talvez com o índice de desemprego dos mais baixos registrados. Tivemos uma inflação sob controle, dentro das metas. A taxa de juros naquele momento estava baixa. Meu pai, quando morreu – três meses depois do término do governo –, acho que morreu realizado. Ele participou de um governo que deixou um legado econômico e social para o Brasil. Depois vieram notícias que todos nós tomamos conhecimento a posteriori...

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Está se referindo aos escândalos de corrupção?

Mas aquele era um momento de um legado econômico e social muito importante. Isso não é dito por mim. Foi reconhecido por 83% da população brasileira que se manifestava naquele momento de apoio ao governo que estava deixando o mandato.

 

E o governo Dilma? É outra história?

Acho que todo governo é uma história diferente, até porque as circunstâncias são diferentes. E o conjunto de fatores internos e externos foram totalmente diferentes daqueles anos anteriores. O que eu tenho que defender, até por obrigação de filho, são as conquistas no campo econômico e social de um governo do qual meu pai participou.

 

O sr. tratou de política eleitoral com o ex-presidente Lula em conversas recentes?

Não persigo mesmo candidatura. De certa maneira já fiz o que me cabia na política. Fui candidato em 2014 (Josué Gomes disputou uma vaga no Senado pelo MDB de Minas, mas não foi eleito). Fiz uma campanha sem agredir ninguém, sem falar mal de ninguém e fui, de forma até generosa, reconhecido pelo povo mineiro, que me conferiu 3,6 milhões de votos. Já coloquei meu nome à disposição e não tenho mais necessariamente que fazer isso.

E se houvesse um apelo do ex-presidente? O candidato a vice neste caso gera grande interesse porque a eventual candidatura de Lula pode ficar sub judice...

O ex-presidente Lula, como deveria ser a regra com qualquer brasileiro, ele está acusado de diversas coisas e está se defendendo no Judiciário. De novo, com relação a qualquer pretensão política minha, a posição que tenho hoje é de dedicação às empresas. Até porque tenho responsabilidade com 15 mil trabalhadores que trabalham conosco. Estou dedicado a isso. Claro que sempre tive uma atividade classista (foi presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções - Abit e do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial-Iedi). Sempre me preocupei com o Brasil e busquei levar alguma contribuição para os assuntos que nos afligem e que possam levar ao desenvolvimento do País. Na política isso se exerce de uma maneira ainda mais intensa.

 

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Qual sua expectativa sobre o julgamento do TRF-4, que gera forte tensão no ambiente político?

Vou te dizer uma coisa e é absolutamente sincera. Todos nós, qualquer pessoa, tem uma tendência de emitir opiniões baseadas em informações às vezes parciais e também com base na emoção. Tento evitar posição baseada em ideias pré-concebidas. Eu não li os autos e não posso fazer qualquer juízo de valor sobre o que está ali. Então minha opinião não quer dizer nada. O Judiciário tem um sistema de autocontrole que é o duplo grau de jurisdição: os tribunais de apelação, os tribunais superiores. Isso diminui muito as chances de erro. Temos de esperar a manifestação do Poder Judiciário. Quando a decisão tramita em julgado, ele tende a tomar decisões que têm menor probabilidade de serem equivocadas. Precisamos lembrar Rui Barbosa: “Com a lei, pela lei e dentro da lei; porque fora da lei não há salvação”. Vamos ver. Num sistema democrático e no estado de direito todos têm direito à defesa e todos têm o direito às possíveis defesas que estejam previstas.

Os petistas preparam uma carta dirigida à classe média numa tentativa de se reconciliar com esse segmento da sociedade. É possível também uma reconciliação com setores empresariais?

Toda vez que partidos políticos tentam reconciliar a sociedade brasileira é positivo. Se já é difícil com toda a sociedade unida, imagina com a sociedade desunida.

 

A disputa presidencial pode ser marcada pelo extremismo. Lula diz que não é radical e que sempre defendeu a responsabilidade fiscal. Ao mesmo tempo, fala em retomada da política de valorização do salário mínimo, expansão do crédito e isenção de Imposto de Renda para quem ganha até cinco salários mínimos. São propostas compatíveis com a responsabilidade fiscal?

Não fiz contas para avaliar os impactos fiscais das propostas. Mas ninguém pode dizer que são propostas radicais. Nenhuma delas me parece radical. Temos de acreditar nas instituições e aos trancos e barrancos elas estão mostrando que funcionam. Não adianta. Se a gente tentar achar um atalho vai quebrar a cara. Não tenho preocupação com nenhum candidato. Acho que todos têm legitimidade de postular a sua candidatura e aquele que for eleito é porque a população quis assim.

 

Há espaço para um 'novo' ou um outsider?

Não acho que a invenção de um candidato é o melhor caminho. A improvisação neste momento, ainda que seja legítima, não acredito que isso tenha sucesso no sistema político-eleitoral brasileiro. E o pior agora é a improvisação de alguém totalmente outsider. Acho que alguém que esteja na política, que tenha experiência político-administrativa, que tenha militância na política, provavelmente alcance resultados melhores para o País do que alguém completamente de fora da política. 

 

O sr. está confortável no MDB?

Em nenhum partido político você encontra só amigos, só pessoas com as quais gostaria de conviver, pessoas que são paradigmas, admira e respeita. Também tem, como em qualquer profissão, pessoas que não fazem as coisas certas. Esse negócio de um partido político que é melhor do que o outro, não tem nada disso. Papai costumava dizer: “Meu filho, não existe isso que você vai encontrar num partido só pessoas que respeita, que admira. É mais ou menos como um tanque que tem veneno. Se você colocar água boa no tanque o veneno vai ser diluído”. Não se consegue ter essa pureza num partido político. Isso é comum também em entidades de classe. Seus pares, todos são pessoas que você admira, fazem as coisas corretas, absolutamente dentro da lei? Não necessariamente. Por isso você vai se afastar da entidade de classe, não. A mesma coisa é com a agremiação política. O MDB tem muitos serviços prestados ao País, principalmente na redemocratização. É uma agremiação organizada nacionalmente que tem seus méritos e erros como outras.

 

Mas o sr. pode deixar a legenda?

Sinceramente não pensei nisso. Eu continuo hoje filiado ao partido. Mas se me perguntam: “Você é um militante do MDB?” Sinceramente tenho sido faltoso com as minhas atividades partidárias. Os meus colegas de partido têm o direito de se queixar da minha ausência. 

 

O presidente Michel Temer defende um candidato único no campo da centro-direita, que tenha o compromisso de defender as reformas e seu legado. Isso lhe parece possível?

Uma nota de destaque desse período é que ele demonstrou a importância de um bom diálogo, de um bom relacionamento entre o Poder Executivo e Legislativo. Aí cabe destaque a serenidade com que um jovem que assumiu a presidência da Câmara comandou os trabalhos na Casa. Ele demonstrou maturidade e capacidade de diálogo inclusive com os partidos de oposição. Esse relacionamento entre Executivo e Legislativo, quando ele se desfaz, temos problemas no Brasil. Quando ele se dá, o País tem uma agenda possível de ser implementada para caminharmos em alguma direção. 

 

O que significa neste momento o rebaixamento da nota de crédito brasileira pela Standard & Poors?

Não é bom. Estava, provavelmente, precificado pelos mercados. Tanto é que os indicadores que são mais voláteis – como câmbio, bolsa, curva de juros futura – foram tranquilos. Mas não é bom. O Brasil deveria buscar sempre ter o grau de investimento. Mas é a opinião de uma das agências e acho que o País vai conseguir reverter isso à frente e vamos voltar a recuperar o grau de investimento que obtivemos no passado.

 

Mas esse rebaixamento mostra que a economia não se descolou da política?

A Standard & Poors usa os mesmos argumentos que a Fazenda usou: o Congresso não está votando (a reforma da Previdência). O Rodrigo Maia como presidente da Câmara dos Deputados fez uma defesa, aliás adequada (na ocasião o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, divulgou nota pedindo engajamento do Congresso na aprovação das reformas estruturais e Maia reagiu afirmando que “a liderança do governo é decisiva” para aprovar as mudanças na Previdência). Acho que não cabe acusações. O Brasil precisa resolver o problema das contas públicas. Ele virá com o crescimento econômico, que não pode vir apenas do consumo. Hoje a recuperação que se dá é principalmente baseada no crescimento do consumo, o que é positivo. A inflação caiu. Há um aumento real da massa salarial e, portanto, as pessoas que durante dois anos, dois anos e meio contiveram muito seu consumo, pagando suas contas, conseguem voltar a consumir. Além do mais, a queda da taxa de juros também facilita esse rebalanceamento dos passivos dos indivíduos, das famílias, das empresas. Mas é fundamental que o investimento cresça. Sem o investimento, esse crescimento baseado no consumo tende a ser voo de galinha. E o investimento para se sustentar a taxa de poupança no Brasil tem de crescer. Sou da opinião de que talvez devêssemos aproveitar a reforma da Previdência para de fato criar uma poupança nacional.

Como?

Faço um paralelo com o que aconteceu nos Estados Unidos, quando o governo federal criou duas agências, a Fannie Mae (Federal National Mortgage Association) e a Freddie Mac (Federal Home Loan Mortgage Company) responsáveis pelo financiamento imobiliário nos EUA. Estudos demonstram que a criação das agências foi fundamental até mesmo para o fortalecimento do capitalismo nos Estados Unidos. Por quê? Porque a família que compra uma casa passa a ter ganho de capital na apreciação do valor da casa. Ela compreende muito mais os benefícios do ganho de capital (...) Passa a ter uma propriedade, passa a defender melhor serviço público, melhor ajuste das contas públicas, taxas de juros mais baratas e passa a entender o ganho de capital. O Brasil com a Previdência poderia finalmente criar a figura da poupança se nós alterássemos o regime da Previdência de repartição, como é hoje, para um regime de capitalização, em que cada indivíduo passa a ter a sua própria conta de poupança para se aposentar no futuro. 

Mas esse modelo depende de uma transição.

Tem uma passagem. Essa passagem precisa ser estabelecida. Hoje tem um déficit atuarial. As pessoas aposentadas dependem da pessoa na ativa pagar a conta da sua aposentadoria. Parte desse déficit atuarial eu sou da opinião que deveria ser coberto transferindo as ações de todas as empresas hoje de controle do Estado para quem de fato é o dono dessas empresas, que é o povo brasileiro.

Uma pulverização de ações?

Uma verdadeira pulverização de ações. Entrega as ações das empresas cobrindo parte desse déficit atuarial para cada cidadão brasileiro, que vai passar a compreender o ganho de capital, vai cobrar uma gestão eficiente das empresas – porque depende dos dividendos dela para a sua aposentadoria – e vai, obviamente, lutar por taxa de juros menores. Aproveitaríamos para criar um mercado de capitais forte e verdadeiramente democrático em que todo o cidadão brasileiro fosse acionista direto. Ele já é acionista, ele é o dono das empresas estatais. Mas se ele é o dono por que precisa de intermediário que é o Estado?

A atual proposta de reforma da Previdência passa no Congresso?

É uma proposta que dentro do regime de repartição ela terá de voltar a ser discutida ‘n’ vezes. Não estou por isso dizendo que não tenha de ser aprovada. No regime de repartição ela é fundamental, mas sou a favor de discutir um modelo mais definitivo, que seria mudança para o regime de capitalização. 

O sr. já disse que defende um Estado forte para regular as atividades econômicas. Por quê?

Essa frase não é minha, é da (ex-primeira-ministra britânica) Margaret Thatcher. Ela disse que o Estado precisa ser forte, não pode ser balofo. Forte não significa gordo, não significa um Estado com excesso de peso. Significa um Estado que cumpra suas funções, algumas absolutamente essenciais: segurança pública, defesa do território nacional, setor de educação – que é fundamental que atue no setor educacional com qualidade e talvez seja a forma melhor para dar acesso às pessoas para que elas tenham oportunidades mais ou menos equivalentes – e o sistema de saúde. São funções básicas do Estado, como é também a regulação econômica, o que não significa interferir na atividade econômica, pelo contrário. É na verdade dar a maior liberdade possível ao empreendedorismo, porém com alguma regulação. Por isso eu defendo um Estado forte, não um Estado mínimo. Não sou ultraliberal, agora não preciso dizer por aí que sou da iniciativa privada. Estou na iniciativa privada desde que nasci.

O setor empresarial busca um candidato à Presidência?

O setor empresarial no Brasil é um setor altamente eficiente (...), agora não sei se é papel do empresário buscar um candidato. É papel do empresário exercer sua cidadania e votar corretamente. Não significa que o empresário não possa tentar articular candidato A ou candidato B. Nós somos cidadãos e temos o direito de participar do momento político. Mas daí a inventar um candidato, se é nesse sentido, eu não acredito em soluções desse tipo. Até porque não cabe salvador da Pátria num país tão complexo.

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