''''Temos de encontrar complementaridade''''

Entrevista[br]Eduardo Sigal: subsecretário de Integração e Mercosul da Argentina[br]Sigal destaca intercâmbio com Chile e Venezuela, mas diz que relação estratégica fundamental de seu país é com o Brasil

Ariel Palacios, Buenos Aires, O Estadao de S.Paulo

19 de novembro de 2007 | 00h00

O subsecretário de Integração e Mercosul, Eduardo Sigal, foi, ao longo dos últimos anos, um dos principais negociadores argentinos com o Brasil. Em entrevista ao Estado, Sigal sustentou que a nova etapa que inicia na Argentina, sob a direção da presidente eleita Cristina Kirchner, aprofundará as relações com o Brasil. A visita de Cristina hoje ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva consistirá em um símbolo da "arrancada" desta nova fase, afirma.No governo de Kirchner a relação com o Brasil teve momentos bons, mas também de tensão, especialmente no início. Nessa época a Argentina estava tentando sair da crise. No cenário atual, com o PIB crescendo a elevadas proporções, a relação tende a ser outra?Com o governo de Cristina Kirchner há uma continuidade e mudança na política argentina. Existe continuidade porque 45% da população votou por ela buscando essa continuidade. Mas também há mudança, pois há uma realidade diferente, sobre a qual se deve construir a relação. Não é a etapa em que estávamos em 2003, na qual o papel do governo era como o de um bombeiro para apagar os incêndios. Na época grande parte da população estava desempregada e a pobreza era grande. Não resolvemos tudo. Ainda há muito para resolver. Mas estamos encaminhados. E agora existem elementos que passam a ter outra centralidade, entre elas, as relações internacionais e o desenvolvimento do bloco regional. E, portanto, a relação Argentina-Brasil. Eu não posso pensar em questões "mercosulianas" ou sul-americanas sem o aprofundamento da relação entre a Argentina e o Brasil. Por isso, acredito que no governo de Cristina Fernández de Kirchner a relação terá uma dinâmica maior. E por isso ocorre esta viagem da presidente eleita, que irá acompanhada de seis ministros. É um sinal de que vamos não somente para uma arrancada de tipo formal e protocolar, mas continuar a integração.No Brasil, em muitos setores existe a percepção de que para Kirchner é mais importante o eixo Buenos Aires-Caracas do que Buenos Aires-Brasília.Acho que é uma visão de tipo maquiavélica da qual discordo. Eu destaco a importância estratégica Brasil-Argentina. E isso não é em detrimento de que o Brasil tenha outras relações importantes e a Argentina também tenha outras relações importantes, tal como o Chile, por exemplo, país com o qual temos um grande superávit comercial. E também tenho de dizer francamente que a relação da Argentina com a Venezuela é intensa, positiva, e crescente do ponto de vista comercial, de transferência tecnológica, de instalação de empresas argentinas na Venezuela. Mas a relação estratégica fundamental é entre a Argentina e o Brasil. Além de harmonia entre nossos países temos de encontrar complementaridade. E quanto melhor esteja o Brasil, melhor estará a Argentina. E vice-versa. Apesar do déficit que a Argentina possui com o Brasil, o nível dos conflitos comerciais diminuiu drasticamente.A capacidade de crescimento das indústrias argentinas não chega a abastecer o duplo requerimento da demanda interna e da demanda externa que temos. Por isso, um dos grandes desafios é seguir a linha ascendente na capacidade de investir. Não somente com recursos genuínos nacionais, mas também ser capazes de atrair investimentos estrangeiros que venham para o setor produtivo. A Argentina já passou por aquela fase dos capitais transitórios.As empresas brasileiras foram à Argentina para ficar? Não posso afirmar categoricamente, mas essa é a percepção. Muitas delas estão fazendo investimentos de tipo industrial. E, quando são desse tipo, é difícil que sejam investimentos conjunturais ou transitórios. E é bom que empresários brasileiros queriam assumir o risco da integração, desse desenvolvimento, de que estamos construindo um denominador comum.

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