Brendan Smialowski/AFP
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‘Temos confiança no sistema eleitoral brasileiro’, diz diretor do Conselho de Segurança dos EUA

Juan Gonzalez afirma que não há indicativo de fraude em eleições passadas no País e que enviados de Biden conversaram com Bolsonaro sobre o tema

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2021 | 20h13

WASHINGTON – O diretor sênior de Hemisfério Ocidental dentro do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, Juan Gonzalez, reafirmou nesta segunda-feira, 9, que os Estados Unidos possuem plena confiança no sistema eleitoral brasileiro e que não há indicativo de fraude em eleições passadas no Brasil. 

O tema surgiu na reunião do conselheiro de segurança nacional americano, Jake Sullivan, com o presidente Jair Bolsonaro, na semana passada e foi publicamente reiterado nesta segunda-feira por Gonzalez em teleconferência com jornalistas. Ele confirmou que os enviados de Biden afirmaram a Bolsonaro que é importante não minar a confiança dos eleitores no processo eleitoral.

“Fomos muito diretos, expressando grande confiança na capacidade de as instituições brasileiras realizarem uma eleição livre e justa, com as devidas salvaguardas para proteção contra fraudes. E ressaltamos a importância de não prejudicar a confiança nesse processo, até porque não há indícios de fraude em eleições anteriores”, afirmou Gonzalez, ao comentar a reunião com Bolsonaro na semana passada.

Em uma nova rodada da ofensiva americana para tentar barrar a entrada da chinesa Huawei no mercado 5G do Brasil, os americanos visitaram Brasília e acenaram com a possibilidade de estreitamento da cooperação militar entre os dois países. A oferta acontece, no entanto, em meio às investidas de Bolsonaro contra o sistema eleitoral vigente no País – o que tem sido motivo de preocupação dentro do partido democrata em Washington.

Após a visita, o time do Conselho de Segurança Nacional passou a indicar publicamente que a conversa sobre o sistema eleitoral brasileiro foi parte importante do encontro com Bolsonaro. 

Em Washington, uma ala do partido democrata e parte dos diplomatas dentro do Departamento de Estado acreditam que negociar com Bolsonaro é o equivalente a validar os posicionamentos do presidente brasileiro, e defendem nos bastidores que a Casa Branca seja mais assertiva com o Brasil. É um debate constante durante as negociações sobre questões ambientais, no qual uma ala do partido e do governo acreditam que Biden não deveria manter canal de diálogo com Bolsonaro.

Até agora, no entanto, a posição dos americanos foi de pragmatismo, diante do interesse em ter o Brasil como aliado para avançar na agenda ambiental e para tentar conter a presença da China na região.

Segundo Gonzalez, o governo Biden acredita que é possível enviar os recados sobre eleição a Brasília e, ao mesmo tempo, continuar com a agenda de cooperação bilateral. “Podemos ter um relacionamento amplo e institucional com o Brasil, engajar em questões de segurança e cooperação econômica, e ainda ser muito claros em termos do nosso apoio para que os brasileiros sejam os que realmente determinam o resultado de suas eleições”, afirmou Gonzalez. “Essas são as conversas que tivemos”, disse.

Na visita a Brasília, Sullivan ofereceu ao governo Bolsonaro apoio para que o Brasil seja um sócio global da OTAN. A informação foi revelada pelo jornal Folha de S. Paulo e confirmada pelo governo americano. Juan Gonzalez nega, no entanto, que a oferta seja uma troca para que o País barre a Huawei de operar no mercado 5G. “Não se trata de quid pro quo”, disse Gonzalez. “São questões separadas”, afirmou.

A posição dos Estados Unidos a respeito do 5G é um dos poucos pontos em que a política da Casa Branca não foi alterada na mudança de governo de Donald Trump para Joe Biden. Os americanos continuam a pressionar o Brasil para que não permita a entrada da chinesa Huawei no mercado nacional. A justificativa dos americanos é de que a participação da chinesa representa riscos à segurança nacional. O Brasil optou por não vetar a companhia, mas construir a saída de determinar uma rede privativa de uso seguro do governo, o que não tem sido visto como uma medida suficiente pelos americanos.

Na conversa com Brasília, os americanos também argumentaram que a Huawei enfrenta desafios para a cadeia de suprimento de semicondutores e pode não honrar compromissos feitos com clientes internacionais. “Os países precisam reconhecer que a Huawei terá escassez de chips”, afirma Gonzalez. Segundo ele, o governo brasileiro não assumiu compromissos sobre deixar a Huawei fora do mercado, mas os EUA ofereceram “apoio no desenvolvimento de oportunidades potenciais” para a criação de um mercado brasileiro sem os chineses.

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