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Temer será o principal mediador peemedebista

Eleito vice-presidente, ele se credenciou como o maior líder do partido e terá incumbência de conter pressões

Malu Delgado, de O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2010 | 20h14

SÃO PAULO - Que Michel Temer (PMDB) será um vice-presidente discreto ninguém duvida. Mas o poder de mediação que terá nos bastidores entre seus correligionários e a presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), é também inegável. Temer credenciou-se como a principal liderança do PMDB, partido que presidirá até o fim do ano, quando então se licencia para ocupar o posto no Palácio do Planalto, apesar de o mandato terminar apenas em 2012.

 

Dilma precisará aliar-se a ele para conter as pressões do PMDB. Essa certamente é uma das funções que ele terá, além das prerrogativas de vice.

 

O segundo turno da corrida presidencial fortaleceu a imagem de Temer junto a Dilma Rousseff e a petistas do Estado de São Paulo. Segundo um membro da coordenação da campanha de Dilma no Estado, o peemedebista "foi a campo, partiu para o ataque no segundo turno, articulou apoios e quebrou resistências". Cumpriu, ainda, todas as agendas definidas pelo PT. O peemedebista viajou para pelo menos 22 destinos no segundo turno da campanha, repetindo alguns deles mais de uma vez.

 

O próprio Temer, quando hoje indagado sobre as resistências de petistas a seu nome, confidencia: "A barreira com o PT foi rompida. Era um pouco escondida, nunca foi uma coisa frontal". E continua: "Eu compreendo quando um sujeito não vai com a minha cara. Mas é a vida. Compreendo as pessoas".

 

Sob reserva, porém, petistas ainda admitem que só durante e após a transição de governo é que poderão medir o grau de confiança em Temer.

 

Cerimonioso

 

Ainda que o PMDB tenha reclamado de seu afastamento do núcleo da coordenação de campanha, dominado por petistas, Temer estabeleceu um contato mais direto com a candidata no segundo turno. Intimidade, porém, não tiveram nem terão. "Sou um pouco cerimonioso, sempre", admite, imiscuído na tradicional formalidade. "Com a Dilma sou muito natural. Não sou artificial."

 

Segundo aliados próximos, Temer nunca ousou, por exemplo, perguntar a Dilma sobre o câncer. Quando surgiram na internet boatos de que a doença da petista voltara e que votar em Dilma seria eleger Temer presidente, o peemedebista incomodou-se. Chegou a comentar com assessores que os terríveis ataques virtuais dos quais era vítima vinham de gente do PSDB. Mas aquietou-se, como sempre, e não levou a questão adiante.

 

Quando é questionado sobre a saúde de Dilma, Temer desconversa: "Ela está muito bem. E é preciso muito preparo para aguentar uma campanha como essa", diz ele, que há dois meses interrompeu as caminhadas diárias e qualquer hábito de bom gourmet para encarar os sanduíches diários de avião.

 

Telefonemas

 

Assim que oficializado o segundo turno, Dilma disse a Temer que chamaria uma reunião de emergência, no dia seguinte, com governadores e senadores eleitos. Os dois começaram a telefonar para políticos. Coube a Temer fazer os contatos com caciques peemedebistas. O presidente do PMDB ligava, pedia o empenho no segundo turno, e, imediatamente depois, passava o telefone para Dilma.

 

A primeira semana após 3 de outubro foi tensa. Petistas e peemedebistas assistiram à articulação e ao vigor do campo adversário, enquanto entre os aliados o clima era de desânimo.

 

"Tivemos 47% dos votos e a impressão foi de derrota. Isso só durou 10 dias e depois comecei a viajar muito", conta ele.

 

Em Minas Gerais, onde Temer atuou para garantir a candidatura de Hélio Costa (PMDB), o partido foi fragorosamente derrotado pelos tucanos. PMDB e PT não se entenderam no segundo turno no Estado.

 

Entre os destinos preferenciais de Temer no segundo turno estavam São Paulo, Florianópolis, Porto Alegre e Salvador. O presidente do PMDB conseguiu conter dissidências e rebeliões do partido em vários Estados. Onde teve menos sucesso foi no Rio Grande Sul. "Mas consegui apoio de 220 prefeitos", diz.

 

"Preguei a disciplina partidária. Fui escolhido candidato a vice numa convenção do PMDB", afirmou o peemedebista. No Mato Grosso do Sul, Temer articulou o silêncio do governador eleito André Pucinelli. "O visitei", diz discretamente. Na Bahia, laçou o derrotado Geddel Vieira Lima. "Mandamos 150 mil adesivos para o Geddel", ilustra.

 

Em São Paulo, manteve o diretório estadual ligado a ele, diante do afastamento de Orestes Quércia. "Sempre tive um relacionamento muito bom com o Temer. E nós pregamos a fidelidade partidária. Seria muito estranho cobrar isso e não apoiar o candidato a vice, que é presidente do nosso partido", relata o vice-presidente do PMDB de São Paulo, deputado Jorge Caruso.

 

Missão

 

"Tenho horror a ser inoportuno", diz Temer, enfatizando que jamais pedirá a Dilma uma missão especial como vice. "Ela me dirá, com naturalidade, como posso ajudar." Quando questionado se gostaria de ter um projeto, como o vice José de Alencar, que cuidou da transposição do São Francisco, reage: "Não é uma coisa que eu vou procurar, senão parece avanço político indevido".

 

E é quando fala sobre o futuro e como vai conter as pressões do PMDB que Temer é mais enfático: "Precisamos tirar essa imagem de que o PMDB é ávido por cargos. Há barreiras que não são de papelão, são de concreto. Essa é uma delas (essa imagem), mas quero colaborar para romper com isso." Temer completa que imaginar que só o PT controlará o governo é "irracional". "É uma coalizão", repete.

 

Com o Congresso, afirma o experiente Temer, Dilma terá um relacionamento mais sereno. "A oposição não será feroz. Não acredito. Aécio (Neves) e (Geraldo) Alckmin são duas pessoas muito conciliadoras", disse, já elegendo quem serão os protagonistas da oposição a partir da derrota de José Serra (PSDB).

 

Se quiser de fato fazer uma reforma política, afirma Temer, Dilma terá de agir rápido e no primeiro ano de mandato. Sobre a possibilidade de ser criada uma mini-constituinte específica para tratar do tema, é enfático: "Esqueça isso. É uma história romântica".

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