Temer se torna alvo do 'núcleo duro' do governo

Vice-presidente tem sido excluído das reuniões entre Dilma e seus ministros mais próximos; grupo cobra mais ação dele sobre o PMDB hostil ao Planalto

VERA ROSA, RICARDO DELLA COLETTA, BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2015 | 02h02

Minado dentro do próprio PMDB, o vice-presidente Michel Temer passou a ser alvo de críticas do "núcleo duro" do governo, que cobra dele mais ação no comando do partido, hoje hostil ao Palácio do Planalto. Às vésperas da instalação da CPI da Petrobrás e da votação de uma "pauta bomba", que inclui a derrubada do veto de Dilma ao reajuste de 6,5% na tabela do Imposto de Renda, Temer entrou na linha de tiro do G-6.

O grupo (G-6) é formado por seis ministros do PT que se reúnem toda semana com a presidente Dilma Rousseff para avaliar os rumos do governo e estratégias de combate à crise. Temer não é chamado para esses encontros.

Na tentativa de controlar a rebelião no PMDB, que desde a eleição de Eduardo Cunha (RJ) para a presidência da Câmara estica a corda da relação com o governo, Temer assumiu a tarefa de convencer o partido a aprovar as medidas do ajuste fiscal.

Com essa missão, o vice-presidente será anfitrião de um jantar amanhã, no Palácio do Jaburu, com o titular da Fazenda, Joaquim Levy, Eduardo Cunha e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Temer também convidou os líderes do partido na Câmara, Leonardo Piciani (RJ), e no Senado, Eunício Oliveira (CE), além de ministros do PMDB.

O tête-à-tête com Levy faz parte da estratégia de reaproximação com o PMDB, desenhada pelo Planalto. Em conversas reservadas, no entanto, ministros avaliam que Temer está isolado no partido que preside, dividido em várias alas, e não consegue enfrentar os traidores.

Para desespero do Planalto, o PMDB apoia todos os projetos que aumentam os gastos públicos - a chamada "pauta bomba" - e é contra as medidas que endurecem o acesso a benefícios trabalhistas, como seguro-desemprego e abono salarial.

Nos bastidores, auxiliares de Dilma dizem que Temer precisa enquadrar Eduardo Cunha, conhecido desafeto do governo, porque o PMDB comanda seis ministérios e não pode agir como "inimigo". Cunha minimizou o fogo amigo e afirmou ao Estado que o vice-presidente tem "todas as condições" para dialogar com o partido.

"Não há isolamento. É engano do governo", respondeu o deputado, numa referência à perda de influência de Temer. "O Michel é presidente do PMDB e tem de defender o partido", disse ele. Questionado se o PMDB não se afastara do governo, Cunha respondeu: "O governo é que se afastou do partido".

Desde que venceu a disputa pelo comando da Câmara contra o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), Cunha impôs uma derrota atrás da outra ao governo. Temer apoiou o correligionário na briga, o que provocou mal estar no Planalto.

Num movimento para evitar novo revés, os ministros Pepe Vargas (Secretaria de Relações Institucionais), Miguel Rossetto (Secretaria Geral da Presidência), Nelson Barbosa (Planejamento), Carlos Gabas (Previdência) e Manoel Dias (Trabalho) marcaram vários cafés e almoços com líderes da base aliada na Câmara e no Senado, nas próximas terça e quarta-feiras. A instalação da CPI da Petrobrás está prevista para quinta.

A frente política vai se somar à ofensiva do próprio Joaquim Levy. O ministro pretende participar de mais encontros desse tipo, com dirigentes de outros partidos aliados, para explicar por que é necessário o corte de gastos. O pontapé inicial da operação, porém, será com o PMDB.

A perda de força de Temer é proporcional ao tempo do partido no governo. Agora, além de o PMDB do Rio investir contra o vice para ampliar o seu poder na direção, a bancada no Senado debita na conta dele a condução da reforma ministerial, considerada "péssima" para a sigla, apesar das seis pastas conquistadas na Esplanada.

A dobradinha entre Câmara e Senado criou um movimento que pretende tirar Temer da presidência do PMDB, em março de 2016.

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