DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
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Temer reúne-se com ministros e avalia possibilidade de pronunciamento

Interlocutores admitem que o impacto das acusações causarão rachas na base aliada e comprometerão as reformas do governo

Carla Araujo, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2017 | 10h03

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer bem que tentou, mas a estratégia definida ontem à noite de manter a “normalidade” e de “trabalhar normalmente” não resistiu às primeiras horas desta quinta-feira, com a operação da Polícia federal que avançou com base nas declarações do executivo da JBS, Joesley Batista. Segundo fontes, desde quarta-feira, Temer tinha a vontade de fazer uma fala, mas foi desaconselhado por seus auxiliares.

Temer chegou às 8h05 no Planalto e logo, segundo a assessoria de imprensa, iniciou a primeira agenda com o senador Sérgio Petecão (PSD), coordenador da bancada do Acre. A agenda divulgada na noite de quarta-feira previa audiências a cada meia hora, com pelo menos 19 parlamentares.

Quando os ministros da Casa, Eliseu Padilha (Casa Civil), Moreira Franco (Secretaria-geral da Presidência) e Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo) chegaram ao Planalto, por volta das 9h30, Temer decidiu cancelar os compromissos e se reuniu com o núcleo duro para avaliar a possibilidade de um pronunciamento.

O clima no Planalto nesta manhã segue tenso e auxiliares do presidente admitem que o "momento é delicado". Nos corredores alguns resistem em admitir a possibilidade de renúncia, mas admitem que a possibilidade está no radar “inevitavelmente”. Interlocutores também admitem que o impacto das acusações causará rachas na base aliada e comprometerão as reformas do governo. “A casa caiu”, disse um auxiliar.

Assim que foi divulgada a informação de que Joesley Batista, da JBS, teria gravado o presidente dando aval para a compra do silêncio de Eduardo Cunha, Temer reuniu aliados e decidiu soltar uma nota negando as acusações. Depois da reunião, o secretario de comunicação da presidência, Marcio Freitas, disse que não havia nada mais a declarar e que o governo continuaria a trabalhar normalmente nesta quinta.

Na madrugada, reunidos no Jaburu, Padilha, Moreira, Imbassahy e o líder do governo no Senado, Romero Jucá, decidiram gravar vídeos apelando que o “país não pode parar”. O Planalto amanheceu com militares do Exército protegendo o prédio e reforço na segurança. O discurso no Planalto é que "não só o presidente Temer, mas todos querem ver a íntegra da gravação feita pelo presidente da JBS", justificando que "a conversa não foi nos termos" que está sendo divulgado.

Quanto aos pedidos de impeachment que já foram apresentados na Câmara, a avaliação é de que Temer considera Rodrigo Maia, presidente da Casa, um dos seus principais aliados, com quem esteve reunido ontem à noite, por quase três horas. Com isso, a expectativa do Planalto é que Maia não acolherá nenhum pedido de impeachment contra o presidente.

A estratégia que Temer tinha hoje para as conversas com os parlamentares era reforçar o discurso de que o tom das informações divulgadas não correspondem à realidade e que o país, que começou a dar sinais de recuperação da economia, precisa seguir. Só que todos sabem que esta aparente normalidade, que se deseja dar, não existe e que o dia será crucial na definição de sua situação política.

Na delação premiada, o empresário Joesley afirmou que presidente Michel Temer deu aval a uma operação para comprar o silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso na Operação Lava Jato. Joesley teria gravado o diálogo com Temer, ocorrido no dia 7 de março, no Palácio do Jaburu. A informação foi divulgada na noite desta quarta-feira, 17, pelo site do jornal O Globo e confirmada pelo Estado.

Segundo o jornal, o empresário disse ao presidente que estava pagando mesada a Cunha e a Lúcio Funaro, apontado como operador do ex-presidente da Câmara, para que ambos ficassem em silêncio sobre irregularidades envolvendo aliados. “Tem que manter isso, viu?”, teria afirmado Temer ao empresário. Joesley e seu irmão Wesley Batista firmaram um acordo de delação premiada. As gravações foram entregues à Procuradoria-Geral da República.

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