LUCIANO DA MATTA | PAGOS
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‘Temer não tem compromisso para 2018’

ACM Neto diz que não é hora de discutir sucessão presidencial, mas no DEM defende a pré-candidatura de Ronaldo Caiado

Entrevista com

ACM Neto, prefeito de Salvador

Luiz Maklouf Carvalho, enviado especial a Salvador, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2016 | 05h00

O prefeito de Salvador, Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto, mais conhecido como ACM Neto, do DEM, e candidato à reeleição, disse ao Estado, em entrevista na manhã do dia 4 deste mês, que o presidente em exercício Michel Temer “não tem compromisso com o PSDB nem com nenhum outro partido para 2018; não tem nem pode ter”.

Em uma das salas de seu apartamento novo, com vista para o mar, complementou: “Que eu saiba o presidente não acenou com compromisso político-eleitoral com o partido A, B ou C em 2018. Ele nem sequer admitiu conversar isso com quem quer que seja”. Disse, ainda: “Acompanhei uma série de conversas naquele momento do pré-impeachment e posso afirmar que essa discussão não houve, e que seria uma irresponsabilidade fazer esse tipo de conversa”.

Embora ache que a eleição presidencial de 2018 não deva entrar na pauta antes de 2017, ACM Neto voltou a indicar o tonitruante senador Ronaldo Caiado como pré-candidato do DEM, desta vez com maior ênfase, descartando seu próprio nome como possível postulante. “No Democratas, hoje, existe um consenso de que o nome dele é o que está mais bem colocado”, afirmou, deixando alguma margem de manobra.

Com aprovação entre 61% (Vox Populi) e 84,7% (Instituto Paraná), ACM Neto vai disputar a reeleição – seu vice é o peemedebista Bruno Reis, deputado estadual – contra a deputada federal Alice Portugal (PCdoB) e sua vice, a deputada estadual Maria Del Carmen (PT), apoiadas pelo governador Rui Costa (PT). Em 2012, Neto ganhou, no segundo turno, com 53% dos votos, do petista Nelson Pelegrino, apoiado pela presidente Dilma Rousseff, pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo governador Jaques Wagner. “Eu não acho que já ganhei a reeleição, não, vou lutar muito para me reeleger”, disse. Sobre seu nome estar sendo citado como possível alvo de investigação da Operação Lava Jato, afirmou que o Democratas recebeu doações de empreiteiras envolvidas, parte delas transferida para suas campanhas, “mas tudo declarado e dentro da legalidade”.

Como o senhor está vendo o cenário político nacional, às vésperas da votação final do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff e a poucos meses da eleição municipal?

ACM Neto: O momento é de muitas incertezas, e existe uma nuvem sobre o cenário político. Ao contrário do que normalmente acontece – entrar numa eleição já conseguindo enxergar perspectivas para a próxima –, não se consegue enxergar nada do desenho mais provável para a próxima, a de 2018.

O presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, do seu partido, antecipou a discussão sobre as eleições de 2018 dizendo que o presidente Michel Temer pode ser candidato à reeleição, se continuar no cargo e se estiver bem nas pesquisas.

ACM Neto: Não é hora de discutir 2018. O próprio presidente Michel Temer tem dito que não pretende ser candidato à reeleição, o que eu entendo ser uma posição correta, que distensiona muito o ambiente que existe ao redor dele. Esse tipo de especulação, neste momento, só traz dor de cabeça.

É uma crítica ao presidente da Câmara?

ACM Neto: Não é. Eu respeito a opinião dele, que é meu amigo, e uma das poucas pessoas que da política se tornaram amigos pessoais. Eu compreendo a leitura que ele faz, admito que ele possa fazer, mas eu faço outra.

Um dos pontos da argumentação dele é que o presidente não tem de ficar refém de um suposto compromisso com o PSDB, por exemplo...

ACM Neto: Ao que eu saiba, como já disse, não existe compromisso do presidente com nenhum partido. Quando chegar a 2018, como um ator político que terá relevância no processo, o presidente Temer vai se posicionar. E outros candidatos vão se colocar. No Democratas, eu defendo a pré-candidatura do senador Ronaldo Caiado.

O senhor não tem um pouco de medo daquele, digamos, arrojo do senador Caiado, aquela sombra que ficou do Caiado da UDR, do latifúndio?

ACM Neto: Não, de maneira alguma. O tempo ajudou a aperfeiçoar, a burilar. Ele é um sujeito muito preso às suas convicções, aos seus princípios e isso, hoje, na política, é importante.

Como é que o senhor se situa no espectro ideológico? Direita? Centro-direita?

ACM Neto: Eu sou um político que tem uma visão social muito forte e um compromisso com a eficiência e a qualidade na gestão pública. Em três anos, 76,5% da aplicação do orçamento da prefeitura foram feitos nas áreas pobres da cidade. A linha divisória hoje é entre o bom e o mau gestor – e não entre esquerda e direita, que são conceitos historicamente ultrapassados.

A principal crítica que a oposição tem feito ao seu governo, começando pelo governador Rui Costa, é justamente o pouco investimento no social...

ACM Neto: Esse é o discurso deles – e não corresponde à realidade. A grande transformação que nós fizemos em termos de investimento público está na área social: 76,5%, ou R$ 3,2 bilhões dos recursos aplicados nos três anos, 2013, 2014, 2015, estão nas áreas pobres da cidade.

Na campanha de 2012, o senhor teve uma receita de R$ 21,9 milhões. E agora, que está proibida a doação das empresas, como é que vai ser?

ACM Neto: Neste ano, a campanha vai ser muito mais barata, e isso vai acontecer no Brasil todo. Nós cortamos uma série de itens, de 50% para baixo, em comparação com a campanha passada.

Até quanto pode gastar?

R$ 14 milhões. Mas não vou chegar a isso. Vou ser financiado com recursos do Fundo Partidário e doações de pessoa física. A minha situação é muito mais confortável do que a da maioria dos candidatos para enfrentar essa eleição.

Por quê?

ACM Neto: Porque eu entro na eleição com um alto índice de popularidade, tenho o suporte do meu partido, vou conseguir recursos do Fundo Partidário, o que nem todos conseguirão.

Vai ser um caos – como já se tem dito?

ACM Neto: Se a Justiça Eleitoral estiver de fato instrumentalizada para fiscalizar o caixa 2, muita gente vai morrer na praia. Se não, nós poderemos ter o terceiro turno em muitas eleições, por causa de denúncias que vão surgir. De qualquer modo, vamos ter de discutir como vai ficar isso depois. Hoje eu sou a favor do financiamento público, com as listas partidárias.

Seu nome tem aparecido entre as possíveis investigações da Operação Lava Jato.

ACM Neto: Eu tenho absoluta tranquilidade e segurança sobre todas as minhas campanhas eleitorais, como elas foram conduzidas e o zelo que eu sempre tive. Não tenho nenhum tipo de receio ou de preocupação.

No ano que vem, o seu avô, Antônio Carlos Magalhães, o poderoso ACM, vai completar dez anos de morto.

ACM Neto: Apesar de nove anos da ausência, ainda é uma figura muito presente no imaginário popular baiano. À medida que o tempo passa, as recordações positivas ficam e eventualmente aquelas negativas, que geravam polêmicas e divergências, vão se apagando. Sem dúvida, foi o maior político da Bahia de todos os tempos.

O que o senhor aprendeu a não fazer, com o seu avô?

ACM Neto: Aprendi a não ser estourado. A ter muita paciência, contar até 10, 20, 30, cem. A não reagir no arroubo. Às vezes acontece, é natural de todo ser humano. Mas o exercício da paciência e o controle das emoções são um grande aprendizado. Ele era uma pessoa muito passional, que às vezes agia por impulso, e talvez exatamente por isso tenha acumulado inimizades que poderia não ter.

Quais são seus planos políticos para o futuro? Governador? Candidato a presidente em 2022?

Deixei de ter planos, exceto a curto prazo. O plano hoje é ser candidato a prefeito, se possível me reeleger, e continuar o meu trabalho. Aí, as circunstâncias do futuro vão ditar o que é que a gente pode desejar ou não.

 

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