Wilton Junior|Estadão
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Temer não manterá o mesmo apoio no Congresso após impeachment, prevê Cristovam Buarque

Segundo senador, políticos serão pressionados por corporações e eleitorado em temas como as reformas trabalhista e previdenciária; ele também afirmou que afastamento de Dilma é 'violência constitucional', mas necessária

Daniel Weterman, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2016 | 12h34

SÃO PAULO - O senador Cristovam Buarque (PPS-DF) afirmou nesta segunda-feira, 15, que o presidente em exercício Michel Temer (PMDB) não deverá manter nas votações do Congresso Nacional o mesmo número de votos dos parlamentares que apoiam o afastamento definitivo de Dilma Rousseff (PT).

"Embora haja uma votação bastante forte contra a presidente Dilma, Temer não vai manter os dois terços (na Casa) em nenhuma hipótese", disse, argumentando que o apoio ao peemedebista, após a conclusão do processo de impeachment, tenderá a diminuir, principalmente em questões polêmicas como as reformas trabalhista e previdenciária, porque os políticos serão pressionados pelas corporações e pelo eleitorado.

Durante palestra na Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Buarque afirmou que o impeachment é uma "violência constitucional", mas necessária. Ele comentou que "talvez estivesse errado em votar no impeachment" e que o processo traz uma mácula ao Brasil. "O impeachment é uma violência constitucional, não em relação à presidente, é uma violência dentro da Constituição que está sendo necessária para virar a página", disse.

Na semana passada, o senador votou pela pronúncia do impedimento da presidente afastada, após ser apontado como um dos "indecisos" em seu voto. Ele destacou que vai "sofrer muito eleitoralmente" por votar a favor do afastamento de Dilma Rousseff. "Eu tinha uma base tradicional, já fui do PT, essa base me chama hoje de golpista. Há momentos que eu devo votar pelo País, e não pela eleição", disse.

Durante a palestra, Cristovam Buarque fez elogios ao presidente interino e comentou que Temer é capaz de recuperar a credibilidade econômica na condução do governo, além de dizer que a economia está em "boas mãos" com Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda. Contudo, criticou as medidas de reajuste nos salários de algumas categorias. "Fico assustado com os últimos aumentos concedidos por pressões, inclusive de categorias com salários elevados", afirmou.

Retrocesso. Apesar dos elogios, o senador disse que os programas sociais podem ter retrocesso na gestão Temer. "Eu temo que a gente possa ter retrocesso no social por falta de recursos. Isso (não ter corte de gastos na política social) é importante para que as pessoas não tenham o argumento do retrocesso social", disse Buarque. Para ele, se o governo não cortar verbas na educação e na saúde, "vai ter que cortar em algum lugar". O parlamentar defendeu a ideia de o governo colocar um teto nos gastos públicos, baseando-se na inflação do ano anterior. "A dieta do teto é correta e pedagogicamente boa para a política."

Cristovam Buarque criticou os governos de Lula e Dilma Rousseff, do PT, afirmando que o Partido dos Trabalhadores beneficiou grupos e não o conjunto da sociedade durante os anos em que ocupou a Presidência da República. "Dentro de Lula e Dilma, houve incentivo à organização corporativista e atendimento aos interesses desse corporativismo, mesmo quando sacrificasse o interesse da população", comentou.

Em sua fala, o parlamentar criticou ainda o programa Bolsa Família por tirar o benefício da supervisão do Ministério da Educação, na época em que chamava Bolsa Escola, e colocá-lo na administração do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. "Antes recebia quem tinha filho na escola, agora recebe um velho que não tem filhos, um deficiente, tudo gente que precisa, mas deveria ser separado", apontou. Outra crítica de Buarque ao governo do PT foi o programa Ciência sem Fronteiras, que concede bolsas para universitários estudarem fora do País. "É um bom programa, mas visou beneficiar o aluno que ia para fora e não o País que o recebe na volta."

Eleições 2018. Comentando sobre as eleições presidenciais de 2018, o senador Cristovam Buarque afirmou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá voltar ao cenário. "Se o Lula não tiver problemas fortes com a Justiça, e se o Temer não conseguir credibilidade, isso pode acontecer", afirmou. Esse "retorno", na visão do parlamentar, pode vir com críticas às reformas trabalhista e previdenciária a serem encaminhas pelo PMDB ao Congresso. "A crítica poderá vir em uma eleição com propostas irresponsáveis que seduzem os eleitores preocupados com o imediato, e não com a nação no longo prazo."

Sem falar se é candidato ou não às próximas eleições, Buarque declarou que é preciso "uma proposta nova para o Brasil". Ele defendeu parcerias privadas para oferecer serviços públicos, responsabilidade fiscal e reforçou sua bandeira de priorizar a educação para conduzir o crescimento sustentável do País. "Temos que pensar em algo que transforme a realidade brasileira. Vejo o vetor transformador na educação, que pode aglutinar o Brasil", disse, ao defender a federalização do ensino nos municípios, o ensino em tempo integral e salários maiores aos professores.

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