GABRIELA BILO / ESTADAO
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Temer dá inicio a testes de submarino nuclear e pede 'otimismo' em Iperó

Ao lançar a pedra fundamental do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), o presidente destaca a importância social do projeto

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

08 Junho 2018 | 14h28
Atualizado 08 Junho 2018 | 16h34

IPERÓ (SP) – O presidente Michel Temer pediu “mais otimismo” aos brasileiros ao participar, nesta sexta-feira, 8, do início dos testes do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LabGene), no Centro Experimental Aramar, da Marinha, em Iperó, interior de São Paulo, onde está sendo construído o protótipo terrestre do submarino nuclear. A declaração do presidente ocorre em meio a um cenário de turbulência econômica no País e no exterior e incerteza no quadro político-eleitoral doméstico.

Temer, que também lançou a pedra fundamental do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) que vai produzir radioisótopos para aplicação em medicina nuclear, não fez menção ao momento político e econômico. Mas usou a cerimônia para tentar passar uma mensagem de confiança. “Vamos nos inspirar nesses extraordinários empreendimentos tecnológicos para sermos otimistas e reafirmar que o Brasil merece esse otimismo”, disse.

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O presidente acionou o conjunto de motores, turbogeradores e equipamentos que vão simular o sistema de propulsão e operação do submarino. Os equipamentos estão dispostos na parte já construída do casco da embarcação, que terá 70 m de extensão por 10 de diâmetro - um réplica em tamanho natural do submarino que vai para o mar. São quatro conjuntos contendo o freio dinamométrico, o motor elétrico de propulsão, os turbogeradores e o reator nuclear, ainda em fase de construção. 

O modelo definitivo do submarino nuclear está em construção no arsenal da Marinha em Itaguaí, no litoral do Rio de Janeiro. O presidente acionou o conjunto de motores, turbogeradores e equipamentos que vão simular o sistema de propulsão e operação do submarino. Os equipamentos estão dispostos na parte já construída do casco da embarcação, que terá 70 m de extensão por 10 de diâmetro – um réplica em tamanho natural do submarino que vai para o mar. São quatro conjuntos contendo o freio dinamométrico, o motor elétrico de propulsão, os turbogeradores e o reator nuclear, ainda em fase de construção.

Quando em plena operação, o LabGene terá uma planta nuclear com 48 megawatts de potência térmica, capaz de alimentar os subsistemas necessários à propulsão do submarino. A energia produzida pelo reator abasteceria uma cidade de 20 mil habitantes. Os equipamentos, inclusive o reator, serão testados em “condições ótimas de segurança”, segundo a Marinha, antes de sua instalação a bordo do submarino nuclear. “Não são apenas palavras, mas execução, ação, concreção”, disse Temer.

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O presidente lembrou ter estado em Aramar há sete anos e disse que pode verificar a “extraordinária” evolução dos projetos. “É momento que traz justificado orgulho a todos os brasileiros. Vemos uma síntese de perseverança, talento cientifico e compromisso com o país. São projetos que elevam nosso patamar em ciência e tecnologia, promovem o desenvolvimento do Brasil.” 

SOCIAL

No lançamento da pedra fundamental do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), o presidente destacou a importância social do projeto, concebido em parceria com a Argentina, após encontro com o presidente Maurício Macri, no ano passado. “Hoje somos obrigados a importar radiofármacos para várias doenças, inclusive câncer. Vamos produzir nós mesmos o material para o SUS. Vamos aumentar o atendimento e levar esperança a quem precisa da ajuda.”

Conforme Temer, o governo assumiu compromisso para investir R$ 750 milhões no projeto até 2022, com aporte inicial, este ano, de R$ 30 milhões. O complexo do reator inclui um conjunto de laboratórios para processamento e manuseio de radioisótopos, feixes de nêutrons, análise de pós-irradiação e de radioquímica, análise de ativação, além de instalações de apoio a pesquisadores.

Na prática o RMB é resultado da tecnologia desenvolvida pela Marinha para a construção do reator do submarino. Enquanto um sistema equipa o primeiro submarino movido à propulsão nuclear construído no Brasil, o outro produz radiofármacos que permitirão ampliar o uso da medicina nuclear no tratamento de pessoas com câncer, por exemplo. A construção do reator multipropósito está sob a responsabilidade da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Em setembro de 2017, durante a reunião de cúpula de chefes de Estado do Mercosul, na presença de Temer e do presidente argentino Maurício Macri, foi assinado contrato entre a Fundação Parque de Alta Tecnologia da Região de Iperó (Patria) e a empresa argentina Investigación Aplicada (Invap) para iniciar um projeto detalhado dos sistemas nucleares para a futura construção do RMB. Um reator será construído também na Argentina. Macri foi convidado por Temer a comparecer à solenidade em Iperó, mas declinou. Com a instalação do RMB em área adjacente a Aramar, cedida pela Marinha, a região terá dois reatores nucleares – esse e o do LabGene.

O programa nuclear da Marinha foi iniciado em 1979 visando à construção de submarinos com propulsão nuclear. Na primeira fase, o programa foi dedicado ao domínio do ciclo do combustível nuclear, com a produção de pastilhas de urânio enriquecido. A primeira usina de enriquecimento foi inaugurada há 30 anos. A fase atual envolve a construção do protótipo em terra do submarino, em tamanho real, e do reator nuclear. O submarino terrestre estará pronto em três anos. A embarcação nuclear que vai para o oceano deve ser concluída entre 2028 e 2030.

O evento teve as presenças dos ministros da Marinha, Defesa, Saúde, Ciência e Tecnologia, além de oficiais graduados e adidos diplomáticos, como o embaixador da Ucrânia no Brasil, Rostyslav Tronenko - o país já foi considerado potência nuclear quando integrava a União Soviética.

Comparação com Argentina

Temer comparou a situação econômica do país com a da Argentina e disse que os vizinhos admiram o Brasil, durante a solenidade de lançamento do reator. “O (presidente Maurício) Macri me perguntou como consegui reduzir a inflação a menos de 3%, fazer uma reforma trabalhista, estabelecer o teto de gastos públicos, reduzir os juros, 'porque lá temos uma inflação de 25%, os juros a quase 40%, estou tentando fazer uma reforma rural há 11 meses e não conseguimos'. Eu disse que instituímos um diálogo muito construtivo, não só com o Congresso Nacional, mas com toda a sociedade brasileira. Nele, percebi admiração extraordinária em relação ao nosso país, mas aqui vemos um certo pessimismo.”

Na mesma ocasião, também foi acionado o sistema de testes do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LabGene), no Centro Experimental Aramar, da Marinha, onde está sendo construído o protótipo terrestre do submarino nuclear. Coube ao ministro da Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab, fazer referência à situação “complicada” da economia nacional durante o evento. “Esses projetos trazem reforço às operações de nossa Marinha, diante de uma situação econômica ainda complicada do país, que aos poucos vamos resolvendo, mas que ainda impõe dificuldades. Nossos orçamentos não estão atendendo ainda as nossas necessidades.” Já o ministro da Defesa, Joaquim Silva e Luna, defendeu que investimentos de projetos tecnológicos na área de defesa “contribuem para o fortalecimento da economia nacional e para a projeção do Brasil no cenário nacional”.

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