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Eliane Cantanhêde
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Temer e o vácuo de poder

A economia e a política são o coração e o pulmão do governo, aqui e em qualquer lugar do mundo. A presidente Dilma Rousseff, antes tão centralizadora, delegou a economia para um estranho no ninho, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e a política para o seu vice, Michel Temer, que preside justamente o PMDB.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2015 | 02h05

Então, o que faz a presidente da República? Inaugura unidades do Minha Casa Minha Vida, faz discursos dizendo que a Petrobrás está uma maravilha, dá entrevistas para TVs estrangeiras, tira fotos em reuniões protocolares com prefeitos e, se preside alguma coisa, preside solenidades no Planalto.

São atividades acessórias, senão decorativas, de uma presidente que nunca tinha sido eleita coisa nenhuma antes de ser empurrada rampa acima do Planalto, fracassou na condução da economia no primeiro mandato e não tem vocação para o fundamental a um(a) líder: a política.

Já seria grave se faltassem três meses para o fim do mandato, mas é muito pior porque tudo isso ocorre em três meses do início do mandato. É um governo novo que se move como velho, cheira a mofo, não gera expectativas.

Levy, um estranho nesse ninho, é o onipotente e o onipresente da economia. Define a política, redige os projetos, negocia com o Congresso, formaliza os ajustes acertados. Em linguagem a la Lula, Levy chuta em gol e defende ao mesmo tempo. Se der certo, a vitória será de Dilma?

Temer é do ramo, conhece a política, chama os políticos pelo nome, sabe se movimentar pelos salões e gabinetes do Congresso, mas delegar a articulação política para ele num momento como esse é mais do que temerário, por motivos óbvios. Como é temerário que ele passe a ser o interlocutor direto do governo com Lula e com Fernando Henrique Cardoso, sem intermediários - ou intermediária.

Temer é presidente de fato, e ainda de direito, do PMDB, a maior fonte de problemas e a maior ameaça a Dilma. Vamos pensar juntos: quando o pau quebrar entre o partido e o Planalto - e quebra todo santo dia -, como Temer se comportará? Será leal à presidente e ao governo, ou ao partido que representa desde sempre e que preside até agora? É um risco que Dilma jamais poderia correr.

Para dramatizar mais a fragilidade e o isolamento de Dilma, há também a fragilidade e o isolamento do próprio PT. Se Levy tem alma e bico tucano, alçar Temer à articulação política é dar todo o poder - aquele que emana do povo, pelo povo e para o povo - ao PMDB. O partido que mais fustiga o Planalto tem agora a articulação política do governo, as presidências da Câmara e do Senado. Fechou o cerco.

É o PMDB, por exemplo, quem aperta ou afrouxa as rédeas das CPIs e quem expôs o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, a uma saraivada de perguntas constrangedoras e transmitidas por horas e horas ao vivo, para quem quisesse ver e ouvir. E é quem vai acabar tendo o comando das CPIs articuladas no Senado. Assunto não falta: BNDES, HSBC, Carf, fundos de pensão. Uma dessas CPIs acaba ganhando vida para atazanar ainda mais o PT e o governo.

Tanto quanto é legítimo perguntar o que faz a presidente da República, é também razoável perguntar: e o PT, que ganhou as eleições em outubro, manda onde, em quem, em quê?

Em vez de tentar uma resposta, vamos a um personagem que resume tudo: o petista Pepe Vargas, ex-articulador político. Criticado sem piedade por Lula e demitido por Dilma pela imprensa, ele convocou entrevista para anunciar que tinha sido convidado para ser ministro de Direitos Humanos. Recebeu um telefonema, parou a entrevista no meio e voltou dizendo que... não tinha sido convidado para nada.

Que sensação fica? Como Dilma não manda mais nada, precisa demonstrar força em cima dos mais fracos. Pepe Vargas não é só um ministro fraco, é também do PT, um partido cada vez mais fraco.

Ratos. Sobre os ratos na CPI da Petrobrás, sem comentários.

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