Temer e o Partido do Itamaraty

Na seara das relações internacionais do Brasil, o afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República significará a restauração da equivalência semântica entre política externa e diplomacia. Explica-se: em lugar dos desentendimentos entre o Planalto e o Itamaraty, tornados frequentes ao longo dos últimos anos, espera-se uma importante inflexão sob Michel Temer, com o regresso da corporação diplomática à posição de proa na formulação e, sobretudo, na implementação da política exterior do País.

Dawisson Belém Lopes, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2016 | 05h00

Naturalmente, essa não será uma mudança ingênua ou esvaziada de sentido prático, caso venha a acontecer. Velhas ênfases tenderão a ser resgatadas pela política externa brasileira – por exemplo, a explícita preferência pelos tradicionais parceiros atlânticos do hemisfério norte e pelos promissores mercados emergentes da Bacia do Pacífico, em detrimento da ênfase na novidadeira cooperação sul-sul e do entorno regional sul-americano.

A reboque de tal realinhamento geopolítico, os temas comerciais – relativamente negligenciados sob Dilma – ganharão relevo, não se descartando a hipótese de uma profunda reforma no Ministério das Relações Exteriores, de modo a acomodar a vocação “fenícia” e eminentemente liberal da nova diplomacia.

Em função do conturbado cenário doméstico brasileiro, tampouco será a diplomacia presidencial de Temer tão exuberante quanto foi a da dupla Cardoso-Lula. Especialmente se pairar sobre o novo presidente a pecha de “golpista” – o que traria desconfiança para as relações bilaterais e, ainda que remotamente, a perspectiva de o Brasil incorrer em punições multilaterais no âmbito regional.

De resto, atores institucionais incorporados à mesa de discussão da política externa – assessores internacionais da Presidência, especialistas de outros órgãos que não o Itamaraty, conselheiros vinculados a partidos políticos, representantes da sociedade civil, etc. – perderão peso decisório nesta fase que se inaugura, à proporção inversa em que se reforça a autoridade da agência diplomática e seus congêneres (embaixadores, cônsules, adidos, oficiais de chancelaria). Mesmo que, para tanto, um político de carreira – e não um diplomata – venha a ser nomeado chanceler.

O Itamaraty, aliás, mantém um curioso padrão de envolvimento nas disputas políticas domésticas brasileiras: apesar de acreditar-se apartidário, constitui-se, ele próprio, em uma espécie de partido burocrático, cujos objetivos programáticos se confundem com o proverbial “interesse nacional” – o qual é determinado, historicamente, à revelia do eleitorado e dos movimentos sociais.

As alegadas metas do Estado brasileiro têm sido perseguidas pelos diplomatas, com razoável consistência, durante quase 200 anos, independentemente do governo de turno, fosse monárquico ou republicano, presidencialista ou parlamentarista, democrático ou autocrático, civil ou militar, de direita ou de esquerda. Se devidamente cortejado, é aposta segura, pois, que o Partido do Itamaraty virá a integrar a base de apoio ao governo Temer.

* É PROFESSOR DE POLÍTICA INTERNACIONAL DA UFMG E AUTOR DE POLÍTICA EXTERNA NA NOVA REPÚBLICA: OS PRIMEIROS 30 ANOS (EDITORA UFMG, 2016)

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