DIDA SAMPAIO/ESTADAO
DIDA SAMPAIO/ESTADAO

Temer e Cunha são cúmplices de processo grave, afirma Dilma

Presidente volta a usar cerimônia no Planalto para defender mandato; aliados avisam que não darão 'sossego' ao vice

Carla Araújo e Tânia Monteiro, O Estado de S. Paulo

06 de maio de 2016 | 11h49

BRASÍLIA - No dia da votação do relatório de impeachment na comissão do Senado, a presidente Dilma Rousseff usou mais uma cerimônia no Palácio do Planalto, nesta sexta-feira, 6, para defender o seu mandato e atacar o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e o vice-presidente Michel Temer (PMDB).  "Não vamos nos iludir. Todos aqueles que são beneficiários desse processo, como, por exemplo, aqueles que estão usurpando o poder, infelizmente o vice-presidente da República, são cúmplices de um processo extremamente grave", disse.

 

Em seu discurso, Dilma comentou o afastamento de Cunha na quinta-feira, 5, pelo Supremo Tribunal Federal e afirmou que, com a decisão, o Poder Judiciário confirmou que o peemedebista "usava de práticas condenáveis". "Uma das práticas mais condenáveis foi a chantagem explícita contra o meu governo", disse, ressaltando que a situação é "descarada". 

Sem comentar que o governo pretende questionar no Supremo o fato de Cunha ter conduzido o impeachment, Dilma disse que "o pecado original deste processo não pode escondido". "Não foi só chantagem explícita, é um golpe explícito e o desvio de poder", afirmou. Na quinta-feira, o advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, afirmou que pedirá ao STF a anulação do processo com base no "desvio de finalidade" de Cunha. No Planalto, no entanto, interlocutores de Dilma dizem que Cardozo "está apenas cumprindo o seu papel" e que é difícil reverter o processo.  

 

A presidente disse ainda que sabe que é "muito incômoda" para alguns e reafirmou que não vai renunciar. "Eu tenho a disposição de resistir. Resistirei até o último dia", afirmou. "Vivemos um impeachment golpista; é ridícula essa questão de pedaladas fiscais."

 

Pouco antes de começar a cerimônia do Minha Casa, Minha Vida, o ministro do Desenvolvimento Agrário,  Miguel Rossetto,  chamou Temer de "impostor" e avisou que seu "governo ilegítimo não terá um minuto de sossego". "Ele (Temer) é um golpista e seu governo não terá legalidade. Será uma crise prolongada e não haverá estabilidade política no País com um presidente impostor."

 

Retrocesso. Ao defender o programa Minha Casa, Minha Vida, Dilma afirmou ter "consciência" de que o "golpe" não é exclusivamente contra o seu mandato. "Fui eleita com 54 milhões de votos e com um programa", afirmou. "O que está acontecendo é uma eleição indireta que é travestida de impeachment. Vão querer, na maior cara de pau, referendar um programa que não foi eleito nas urnas."

  

Sem citar diretamente Temer, Dilma disse que vão querer reduzir o Bolsa Família "a pó". Segundo ela, a proposta sugerida pelo PMDB de limitar o benefício a 5% da população deixará "mais de 36 milhões de pessoas à margem". "O Bolsa Família hoje contempla 47 milhões de pessoas. A proposta reduziria para 10 milhões", disse. 

Mesmo com o impeachment em estágio avançado, Dilma seguiu falando de metas e prometeu a contratação de mais 2 milhões de casas no âmbito do Minha Casa, Minha Vida. Segundo ela, ao final de 2018, o governo terá construído mais de 5 milhões de unidades habitacionais. "A cada 8 brasileiros, um terá uma casa do Minha Casa, Minha Vida", afirmou. Na cerimônia desta sexta, o governo anunciou a contratação de 25 mil unidades habitacionais no âmbito do programa. 

 

Apoio social. Como aconteceu nos últimos eventos no Palácio do Planalto, a cerimônia teve uma plateia - desta vez bastante reduzida - formada por claque de apoiadores de Dilma, como os movimentos sociais. Das cerca de 400 cadeiras separadas para o evento mais de 100 estavam vazias. 

 

O coordenador nacional Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, que discursou no evento, fez duras críticas ao processo de impeachment e disse que "é importante que se reafirme que há um golpe, conduzido pelo maior bandido da história, que é o senhor Eduardo Cunha".

Boulos também fez críticas ao Supremo. "Por que demoraram quatro meses para afastar Cunha? Dizem que tentaram higienizar o golpe, mas nem com muito desinfetante vão higienizar o golpe neste país", afirmou.  

 

Ele afirmou ainda que há um risco "real e iminente" de retrocessos no País e garantiu que os movimentos sociais vão tomar as ruas após o afastamento de Dilma. "Não daremos nenhum passo atrás, presidente, e barraremos nas ruas esse golpe e qualquer retrocesso", disse o coordenador do MTST a Dilma. "O jogo ainda não está jogado; nas ruas o povo está pronto para defender o golpe." "Para aqueles que querem ameaçar a democracia: não mexam com as conquistas históricas do povo brasileiro. A luta está na rua."

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.