MARCIO RIBEIRO
MARCIO RIBEIRO

Temer chama Alexandre de Moraes para explicar antecipação da Lava Jato

Presidente da República quer que ministro da Justiça esclareça declaração dada no domingo; segundo interlocutores do Planalto, 'pegou muito mal' titular adiantar informação

Carla Araújo e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2016 | 15h01

BRASÍLIA – O presidente Michel Temer chamou o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, para que ele compareça ao Planalto e explique suas declarações sobre a Operação Lava Jato um dia antes da fase que culminou com a prisão do ex-ministro do PT, Antonio Palocci. As declarações, reveladas ontem pelo Broadcast, serviço de notícias da Agência Estado, foram dadas pelo ministro em uma agenda eleitoral em Ribeirão Preto. Além de Moraes, Temer também chamará outros ministros que têm dado declarações polêmicas para pedir mais cuidado nas suas exposições. Por meio de sua assessoria, o ministro da Justiça afirmou que só virá para Brasília na terça-feira, 27, de manhã. A pasta não confirma a convocação do ex-secretário de Segurança do governo paulista de Geraldo Alckmin (PSDB).

Além de Temer, os deputados do PT Paulo Teixeira (SP) e Paulo Pimenta (RS) protocolaram hoje pedido de convocação do ministro na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara.

De acordo com interlocutores do presidente, “pegou muito mal” a declaração de Moraes por diversas razões. Além de trazer para “o colo do governo” um suposto vazamento da operação, a fala de Moraes amplia a crise de comunicação já existente. Na conversa, Temer pedirá mais cuidado, cobrará explicações e também alertará o ministro de que é preciso ter cautela em participação em campanhas eleitorais. “Ele falar demais em campanha é outro fator complicador e o presidente fará recomendações neste sentido”, disse uma fonte.

O fato de envolver a Lava Jato, segundo interlocutores, deixa Temer em uma situação ainda mais delicada já que o governo tem sido acusado de usar politicamente a operação. “Isso desagradou ainda mais ao presidente”, disse um interlocutor.

Moraes falou no domingo, durante evento de campanha de Duarte Nogueira à prefeitura de Ribeirão Preto (SP), em uma conversa com integrantes do Movimento Brasil Limpo (MBL), que uma nova etapa da Lava Jato seria deflagrada nesta semana. "Teve a semana passada e esta semana vai ter mais, podem ficar tranquilos. Quando vocês virem esta semana, vão se lembrar de mim", disse.

Temer foi informado das declarações de Moraes ainda ontem e telefonou para o ministro para entender o que tinha acontecido. Hoje, diante da deflagração da operação e da suspeita de que ele teria “falado demais”, o presidente quer essa nova conversa.

O Planalto tem tentado buscar novas estratégias de comunicação justamente para mitigar os danos causados por falas equivocadas. Moraes, entretanto, é tido como um dos titulares mais difíceis. Foi um dos que recusou a oferta de media training e disse a interlocutores do Planalto "que não precisava de treinamento" para falar com a mídia.

Outros ministros. Além de Moraes, Temer deve chamar para conversas nesta segunda-feira outros titulares da Esplanada que têm se envolvido em polêmicas, como Ricardo Barros (Saúde) e Ronaldo Nogueira (Trabalho). Até mesmo o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, um dos mais próximos do presidente teve que se explicar na semana passada após dizer que supostamente apoiaria o projeto de anistia ao caixa 2.

Palocci foi preso temporariamente por cinco dias na Operação Omertà, 35.ª fase da Lava Jato. A força-tarefa investiga as relações do ex-ministro com a Odebrecht. Para a Polícia Federal, Palocci é o ‘italiano’ citado em planilha apreendida da construtora, do Setor de Operação Estruturadas, área secreta de pagamento de propinas da empreiteira.

As investigações apontam que Palocci tratava com a empreiteira Odebrecht assuntos relacionados a quatro esferas da administração pública federal: a obtenção de contratos com a Petrobrás relativamente a sondas do pré-sal, a medida provisória destinada a conceder benefícios tributários ao grupo econômico Odebrecht (MP 460/2009), negócios envolvendo programa de desenvolvimento de submarino nuclear (Prosub) e financiamento do BNDES para obras a serem realizadas em Angola.

Conforme planilha apreendida durante a operação, identificou-se que entre 2008 e o final de 2013, foram pagos mais de R$ 128 milhões ao PT e a seus agentes, incluindo Palocci.

Defesa. O criminalista José Roberto Batochio, defensor de Palocci, afirma que o ex ministro nunca recebeu vantagens ilícitas. Batochio disse que ainda não tem detalhes sobre os motivos da prisão de Palocci. Batochio acompanhou Palocci à superintendência da PF em São Paulo.

O criminalista foi enfático ao protestar contra o que chamou de ‘desnecessidade’ da prisão do ex-ministro. Ele criticou, ainda, o nome da nova fase da Lava Jato, Omertà.

“A operação que prendeu o ex-ministro é mais uma operação secreta, no melhor estilo da ditadura militar. Não sabemos de nada do que está sendo investigado. Um belo dia batem à sua porta e o levam preso. Qual a necessidade de prender uma pessoa que tem domicílio certo, que é médico, que pode dar todas as explicações com uma simples intimação?”

“O que significa esse nome da operação? Omertà? Só porque o ministro tem sobrenome italiano se referem a ele invocando a lei do silêncio da máfia? Além de ser absolutamente preconceituosa contra nós, os descendentes dos italianos, esta designação é perigosa.”

Batochio chama a atenção para o fato de Omertà ter sido deflagrada na semana das eleições municipais. “Soa muito estranho que às vésperas das eleições seja desencadeado mais este espetáculo deplorável, que certamente produzirá reflexos no pleito.”

O criminalista criticou as declarações do ministro da Justiça. “Muito mais insólita foi a antecipação do show pelo sr. ministro da Justiça em manifestação feita exatamente na cidade de Ribeirão Preto, onde Palocci foi prefeito duas vezes. Tempos estranhos”, disse Batochio.

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