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Temer, carência e reforma

Com o último capítulo do processo de impeachment de Dilma, o governo do PMDB tem motivos para estar aliviado, mas não para comemorar

José Roberto de Toledo, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2016 | 07h17

A economia encontra sinais do que pode ser o fundo do poço – uma condição necessária para escalá-lo –, o processo de impeachment de Dilma Rousseff chega ao seu último capítulo, a Lava Jato se enrola, e Michel Temer deve enfim ser reconhecido como chefe de Estado em um evento internacional. O governo do PMDB tem motivos para estar aliviado, mas não para comemorar. A contradição entre o que deve fazer e o que consegue realizar está só começando.

Ainda que timidamente, vários índices de confiança do consumidor voltaram a apontar para cima em agosto. O que guarda maior relação com a popularidade presidencial, o INEC do Ibope/CNI, cresceu marginalmente em relação a julho e 3,1% em comparação a um ano atrás. É pouco e ainda inconsistente. Desde a reeleição de Dilma, o INEC não sobe por três meses consecutivos. Setembro colocará à prova Henrique Meirelles e sua equipe econômica.

O INC do Ipsos vai na mesma toada. Em agosto, pela primeira vez em meses, as expectativas do consumidor sobre sua situação financeira pessoal ficaram mais positivas do que negativas: 30% apostam quem em seis meses estarão melhor do que agora, contra 27% que dizem o contrário (o resto acha que estará na mesma). É empate técnico, mas em julho o sinal estava trocado.

Complementarmente, o rumo do País, que chegou a estar errado para 94% da população em março, oscilou agora de 89% para 87%, segundo dados inéditos do Ipsos. É pouco, mas melhor que nada.

Se é que o pessimismo de fato parou de aumentar, não dá para estourar champanhe – especialmente porque administrar expectativas foi o que governo Temer mais fez até agora na economia. Nenhum ajuste importante passou pelo Congresso. E é improvável que passe durante o período eleitoral, quando os partidos da base precisam fazer média com o eleitorado.

Tudo o que importa ficará para o fim de outubro, talvez novembro ou 2017. Leia-se: teto para despesas governamentais e todas as reformas. Aí pode-se esperar também o aumento do conflito entre o PMDB e o PSDB, porque suas expectativas são diferentes. 

Para os tucanos, só o ajuste importa – para atingir seu sonho de ganhar as eleições presidenciais de 2018 e pegar um governo razoavelmente arrumado. Tentam terceirizar as medidas econômicas impopulares para Temer e os peemedebistas, que reagem.

O PMDB, como qualquer partido que já está no poder, quer manter o apoio dos aliados no Congresso, mas sem piorar ainda mais sua crítica situação junto à opinião pública. Segundo pesquisa inédita do Ipsos, Temer chegou a 49% de ruim e péssimo em agosto, contra apenas 8% de ótimo e bom. Era 48% e 7% em julho. O que está caindo é a taxa dos que não sabem responder.

O problema de Temer e companhia é que, à medida que o público toma pé do que o governo interino fez até agora, seus desafios aumentam. Em junho, um terço dos brasileiros não sabia dizer o que Temer estava planejando fazer para reformar a Previdência. Em dois meses o desconhecimento caiu 14 pontos, e não foi bom para o governo: a taxa dos que desaprovam a maneira como ele vem atuando para mexer nas aposentadorias pulou de 44% para 64%.

No combate ao desemprego, a desaprovação também aumentou 20 pontos em 60 dias, batendo em 64% em agosto, diz o Ipsos. No combate à corrupção, o descontentamento cresceu 19 pontos e chegou a 59%. No Bolsa Família, cresceu de 43% para 57%.

São apenas alguns sinais de que a carência de Temer está vencendo, e as contradições de seu governo estão aumentando. Se o pessimismo pode estar diminuindo, a contrariedade com as implicações das reformas está em alta. Vai ser cada vez mais difícil para Temer e o PMDB conseguirem agradar os aliados e o empresariado sem aprofundar sua impopularidade. 

Nessas situações, o presidente acossado costuma ganhar tempo. Uma reforma ministerial é sempre um curinga na manga.

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